24/04/2022
COMEMORAR ABRIL COM CONFIANÇA NO FUTURO!
Crónica de João Abreu na Emissora das Beiras
Com o 25 de Abril de 1974, a vida de Portugal e dos portugueses, foi tomada por uma explosão de liberdade, que não perduraria, se não fosse de imediato apoiada e defendida na rua pelo povo unido.
Às operações executadas, na madrugada, pelos Capitães de Abril, que desarmaram o regime opressor, associou-se a manhã de ruas e praças de gente feliz e esfusiante de alegria e esperança, pessoas que no decorrer daquele dia, de cravo vermelho em punho, se sentiram verdadeiramente cidadãos, assumindo o poder que lhes cabia para mudar o rumo do seu País.
O Povo clamava em uníssono pela Liberdade de pensamento e de expressão, pela liberdade de organização e de luta. Luta por mais pão, melhores salários, pensões e reformas na velhice, luta por saúde, educação e justiça para todos. Luta para que o Portugal profundo e rural, até então privado de boas vias de comunicação, saneamento básico e água potável, escolas secundárias e de ensino superior, as pudesse ter, num quadro de desenvolvimento equitativo do País.
Por isso, comemorar os 48 anos do 25 de Abril, exige afirmar o que a Revolução representa e expressa enquanto processo libertador com profundas transformações na sociedade portuguesa e um dos mais altos momentos da vida e da história do povo português e de Portugal.
Celebrar Abril é também evidenciar o que foi o fascismo e combater a onda do seu branqueamento. É destacar a luta anti-fascista, a luta dos heróis que sacrificaram a sua liberdade, as suas carreiras profissionais e a sua vida, para que houvesse liberdade e democracia.
Celebrar Abril é assinalar o seu sentido transformador e revolucionário, não rasurar a memória colectiva que o envolve, rejeitar as perversões e falsificações históricas, denunciar os que o invocam para o amputar do seu sentido mais profundo, sublinhar o que constitui hoje de valores e referências para um Portugal desenvolvido e soberano que décadas de política de direita têm contrariado.
Por mais que alguns doutos queiram desonestamente reescrever a história, Abril foi uma revolução, um momento e um processo de ruptura com 48 anos de fascismo, do qual herdámos o último lugar na europa nos índices de desenvolvimento.
Abril foi possível pela coragem dos capitães do MFA, mas essencialmente pela permanente resistência antifascista, pela entrega generosa e abnegada à luta pela democracia e a liberdade de comunistas e de muitos outros democratas, de mãos dadas com a luta dos trabalhadores das fábricas e dos campos, dos intelectuais, da juventude, do povo.
Comemorar Abril, é também assinalar e afirmar uma das suas mais perenes e singulares conquistas, o Poder Local democrático.
Em Dezembro de 1976, pela primeira vez, os eleitores portugueses puderam ser candidatos, eleger e ser eleitos para as Câmaras e Assembleias Municipais e para as Juntas e Assembleias de Freguesia. Naquela data, acabaram as nomeações, sem eleição, para os órgãos de poder local.
Mas falta ainda cumprir a Constituição, que consagra e determina a criação de regiões administrativas, completando assim o edifício do poder local com o nível regional a par dos municípios e freguesias, pondo fim às actuais CCDRs com os seus mandaretes e poderes desconcentrados a mando dos governos.
Devolver ao povo as freguesias liquidadas contra a sua vontade, repondo a proximidade, participação e representatividade que elas materializam é outra urgência do actual regime democrático.
Falar de Abril é também falar da criação do Serviço Nacional de Saúde, da escola para todos, do acesso à cultura. E lembrar, porque é tão actual nos tempos que correm, que o 25 de Abril pôs fim a 13 anos de uma injusta, sinistra e sangrenta guerra colonial, que o regime fascista impôs aos povos das ex-colónias e que deixou um saldo de dor com mais de 30 mil mortos e 300 mil estropiados.
E para fechar, não resisto a citar os versos sobre o 25 de Abril, da grande poetisa Sofia de Melo Breyner:
Esta é a madrugada que eu esperava, o dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos na substância do tempo.
Viseu, 20/04/2022
João Abreu