18/09/2021
MAIA RODRIGUES, ILUSTRE MEMBRO DO PS DO CONCELHO, COM PALAVRAS MUITO DURAS PARA BORGES DA SILVA NA ASSEMBLEIA MUNICIPAL
"Apesar do entusiasmo na campanha de 2017, chego ao dia de hoje e tenho de lamentar que colaborei na maior mentira, no maior embuste político que jamais vi na minha vida. "
Maia Rodrigues mostrou ontem na Assembleia o que é ser PS. Um exemplo que deveria seguir a concelhia. Explicar aos seus militantes e simpatizantes o porquê de não quererem Borges da Silva como seu candidato.
Ainda recentemente, 2018, Maia Rodrigues foi Presidente da Concelhia do PS de Nelas, eleito com 94% dos votos.
Leia a declaração deste respeitado membro do PS:
"Está a fazer 4 anos. Estava, como a maioria dos socialistas de Nelas, entusiasmado e empolgado com a campanha eleitoral a decorrer. O PS apresentava-se unido e confiante, depois de ultrapassadas divergências internas, próprias da disputa decorrente de diferentes ideias para o concelho, nomeadamente que programa e quais os seus protagonistas.
Tínhamos um programa e um líder. O PS conquistou uma maioria confortável de membros no executivo da câmara, na Assembleia Municipal e a maioria das juntas de freguesia.
Mas nem todos fizeram a mesma leitura dos resultados. Para a maioria de nós, a vitória nas eleições de 2017 era a prova de que um coletivo unido, conduzido por um lider, podia ultrapassar todas as dificuldades políticas que teríamos pela frente. Mas cedo demos conta que nem todos pensavam da mesma forma.
Começávamos a ter dúvidas que o coletivo pouco contava para o sr presidente, quer pelas nomeações dos seus adjuntos, quer pelo silêncio em torno do chumbo do Tribunal de Contas ao empréstimo do projeto CAVES, quer pelas ilegalidades nas contas de 2016. Mesmo assim, aparentemente, quase nada mudou até setembro de 2018, mês da aprovação do pacote de empréstimos, totalizando 5,5 milhões de euros, que seriam necessários para financiar a componente municipal dos projetos que foram a base, o suporte fundamental, do programa eleitoral.
Imediatamente depois, em outubro, com o anúncio da nomeação do seu Chefe de Gabinete, Borges da Silva dizia, de forma inequívoca, aos seus aliados, que prescindia, em definitivo, da sua opinião e apoio. Incrédulos vimos, que o sr presidente da Câmara, definitivamente, não pensava como a maioria dos seus apoiantes de campanha.
Apesar de estarmos em Portugal, do fim da monarquia em 1910 e da ditadura em 1974, ainda há quem pense, como Luís XIV, adaptando o seu pensamento “l’etat c’est moi” (o estado sou eu) para “a câmara sou eu”.
É evidente que apesar da rotura entre o sr Presidente da Câmara e os seus apoiantes na campanha de 2017 (onde me incluo), em política, temos que ser pragmáticos. Teríamos que ter sempre presente que, em política, mudar de aliados e de estratégias é fácil e frequente acontecer. Assim, independentemente das relações politicas e pessoais possíveis, mesmo havendo discordâncias, seria sempre necessário fazer uma análise à capacidade do Dr. Borges da Silva de cumprir o seu programa, independentemente de saber com que meios ou aliados.
Paulatinamente verificámos, com grande deceção que, afinal, a Câmara não tinha comprado as instalações dos ex-Fornos elétricos, nem pretendia comprá-los num futuro próximo.
O compromisso de “Concretizar os investimentos de mais de 20 Milhões de euros já conseguidos e lutar por mais verbas;” não passou duma promessa sucessivamente repetida. Uma baixa taxa de execução levou a que, em vez de se mostrar a obra feita se voltem a repetir muitas das promessas de 2017, sem qualquer pudor, com mais cartazes de propaganda.
O centro empresarial de Nelas foi negligenciado, desvalorizado e, apesar de tudo o que se disse, ainda não passa de uma mera promessa.
Outra grande espectativa seria o cumprimento do objetivo de dotar o concelho de uma estrutura de ETARs.
Mesmo concluídas com atrasos superiores a 900 dias (em prazos previstos de 365 dias) e apesar dos milhões gastos na construção destas ETARs, continuam, muitas delas, a funcionar de forma deficiente, despejando águas com elevados níveis de mau cheiro nas ribeiras. Falo concretamente nas Etars de Santar e Vilar Seco onde passo frequentemente e onde ouço as queixas dos vizinhos.
A ETAR de Nelas, teve grandes problemas na sua construção, desconhecendo-se ainda o relatório do LNEC para apuramento de responsabilidades dos defeitos de construção verificados.
Este mandato foi marcado, ainda, por uma completa ausência de Estratégia de Reabilitação Urbana no concelho e particularmente em Nelas (por ser a sede do concelho), Santar (acompanhando o esforço da iniciativa privada na sua promoção turística) e Canas de Senhorim (que pela sua história e nobreza do seu património merecia muito mais). Tudo o que é anunciado em cartazes muito bem feitos não passa de promessas repetidas, utopias que sabe-se lá se, quando ou mesmo virão algum dia a ser executados.
Vem agora invocar-se a pandemia para justificar a falta de execução do programa. Só que o setor da construção não foi alvo de medidas restritivas, decorrentes da pandemia, nem ouvimos falar de nenhum surto da doença nas empresas construtoras adjudicatárias. À data da declaração do estado de emergência, todas estas obras deveriam já estar concluídas há mais de 450 dias.
Curiosamente, a última obra do ciclo urbano na água que foi iniciada nas vésperas da pandemia (o novo reservatório de água), foi inaugurada em plena pandemia. Como foi possível?
Parece que o executivo municipal desconhece o ditado “Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje”.
Assim, tenho de confessar a esta Assembleia e ao povo do concelho de Nelas que lamento profundamente ter participado deste embuste. Apesar do programa apresentado, o Dr. Borges da Silva tinha outros planos que nunca revelou. Apresentaram-se projetos de, pelo menos, 25 milhoes de euros e, decorrido o mandato, não se executou metade. Mas em contrapartida não deixaram de ser efetuadas nomeações de cargos políticos não eleitos, a pretexto da execução do programa apresentado ao eleitorado.
Esta foi a minha maior derrota enquanto politico. Apesar do entusiasmo na campanha de 2017, chego ao dia de hoje e tenho de lamentar que colaborei na maior mentira, no maior embuste político que jamais vi na minha vida.
Tal como afirmou o Sr Presidente desta Assembleia em 31 de março de 2020, a propósito da quarentena a que foi obrigado, sou de opinião que “a culpa não pode morrer solteira” e na parte que me diz respeito, também eu, “A todos (…) peço as mais humildes desculpas”.