17/06/2026
𝐄𝐦 𝐝𝐢𝐚 𝐝𝐞 ‘𝐥𝐚𝐧ç𝐚𝐫 𝐭𝐫𝐨𝐯𝐚𝐬’ 𝐚 𝐒ã𝐨 𝐉𝐨ã𝐨, 𝐑𝐚𝐧𝐜𝐡𝐨𝐬 𝐝𝐨 𝐌𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞 𝐝𝐚 𝐏𝐫𝐚ç𝐚 𝐜𝐮𝐦𝐩𝐫𝐞𝐦 𝐭𝐫𝐚𝐝𝐢çã𝐨 𝐬𝐞𝐜𝐮𝐥𝐚𝐫
Há tradições que nascem de um gesto simples e acabam por se tornar símbolos maiores de uma comunidade. Em Vila do Conde, a fundação dos Ranchos das Rendilheiras do Monte e da Praça pertence a essa categoria: começou como expressão popular, festiva e identitária, profundamente ligada às rendas de bilros, às mulheres que as faziam e às celebrações sanjoaninas, e transformou-se numa das marcas mais reconhecíveis da cultura vilacondense.
A história destes dois ranchos deve ser entendida no contexto de uma cidade onde a renda era mais do que uma atividade artesanal. Pelo menos desde o século XVII, as rendilheiras surgem documentadas como grupo profissional com visibilidade social, participando na organização dos mesteres e nas festividades públicas, contribuindo nomeadamente para a festa do Corpo de Deus. Ou seja, muito antes da criação formal dos ranchos, as rendilheiras já tinham presença pública, económica e simbólica na vida da vila.
Ao longo dos séculos, a renda de bilros afirmou-se como uma atividade estruturante em Vila do Conde. No século XVIII, a importância económica das rendas é visível na reação da Câmara Municipal à Pragmática de D. João V, de 1749, que proibia o uso de rendas no vestuário e em alfaias domésticas.
No século XIX, Vila do Conde consolidou a sua imagem como centro rendeiro. As rendas vilacondenses participaram em exposições nacionais e internacionais, incluindo a Exposição Universal de Paris de 1867, e a atividade aparece referida nos Inquéritos Industriais, ao lado de Peniche, como uma das principais expressões da indústria manual da renda em Portugal.
É neste ambiente, marcado pela tradição artesanal, pela sociabilidade feminina e por uma economia local em transformação, que surgem os ranchos. O Rancho das Rendilheiras do Monte foi fundado em 1918 e, dois anos depois, em 1920, surgiu o Rancho da Praça - Rendilheiras de Vila do Conde. Inicialmente, estes grupos eram compostos, na sua maioria, por rendilheiras que, num contexto de crise do pós-guerra, se juntavam para cantar, dançar, conviver e celebrar o seu Santo Padroeiro, São João.
A fundação dos ranchos corresponde, por isso, a uma dupla necessidade: por um lado, criar espaços de convívio e afirmação popular num tempo difícil; por outro, dar expressão pública a uma identidade feminina e artesanal profundamente enraizada na comunidade. As rendilheiras, muitas vezes associadas ao trabalho doméstico, ao rendimento complementar e à produção silenciosa, passavam a ocupar a rua, o cortejo, a festa e o palco comunitário.
A distinção entre Monte e Praça traduzia também a geografia social de Vila do Conde. O Rancho das Rendilheiras do Monte agregava sobretudo pessoas da zona mais alta da cidade, o Monte; o Rancho da Praça reunia a população da zona ribeirinha, da beira-rio e da beira-mar. Esta divisão territorial contribuiu também para uma rivalidade festiva que, longe de enfraquecer a tradição, a alimentou. A “competição” entre os dois ranchos tornou-se particularmente visível nas festas de São João, quando ambos saíam à rua, exibindo trajes, aventais e elementos ornamentais associados às rendas de bilros.
Mais do que grupos folclóricos no sentido estrito, os Ranchos das Rendilheiras tornaram-se dispositivos de memória coletiva. Cantam o São João, as rendas e as rendilheiras; desfilam com trajes onde a renda de bilros é elemento identitário; e mantêm viva uma rivalidade ritualizada entre duas zonas da cidade.
A ligação entre os ranchos e a renda de bilros é particularmente significativa porque, no século XX, a profissão de rendilheira enfrentou dificuldades crescentes. A concorrência das rendas produzidas mecanicamente, a irregularidade do mercado e a baixa remuneração levaram muitas mulheres a procurar outras ocupações, como a costura ou o trabalho fabril.
Neste contexto, os ranchos desempenharam uma função simbólica decisiva: deram visibilidade pública a uma atividade que, economicamente, se tornava cada vez mais frágil. A rendilheira deixou de ser apenas uma trabalhadora anónima, sentada à porta ou em casa, diante da almofada, dos bilros e do pique; passou a ser figura representada, celebrada e exibida no espaço público. O avental de renda, a blusa ornamentada, o canto e o desfile converteram o trabalho manual em emblema cultural.
A criação da Escola de Rendeiras, em 1919, reforça esta leitura. No mesmo período em que os ranchos nasciam, Vila do Conde procurava também institucionalizar a aprendizagem da renda de bilros, garantindo a transmissão técnica e o aperfeiçoamento das futuras rendilheiras. A escola, mais tarde chamada Baltazar Couto, assumiu a missão de preservar os modelos regionais, estudar a técnica e renovar padrões.
Assim, os anos de 1918 a 1920 constituem um momento particularmente importante na história cultural vilacondense: nascem o Rancho do Monte e o Rancho da Praça e é criada a Escola de Rendeiras. Estes acontecimentos não são isolados. Em conjunto, mostram uma comunidade a organizar-se em torno de uma arte que era simultaneamente trabalho, herança familiar, identidade feminina, economia doméstica e expressão festiva.
A história da fundação dos dois ranchos é, portanto, a história de uma cidade que encontrou na rivalidade festiva uma forma de união. Monte e Praça representam territórios diferentes, sensibilidades distintas e pertenças bairristas fortes; mas ambos partilham a mesma raiz: a celebração das rendilheiras e da renda de bilros como património vivo de Vila do Conde.
Mais de um século depois, estes ranchos continuam a recordar que a cultura popular não nasce apenas nos documentos oficiais ou nas grandes instituições. Nasce também nas ruas, nas oficinas, nas casas, nos cantares, nos trajes preparados para a festa e nas mãos de mulheres que transformam linha, paciência e destreza numa das imagens mais duradouras da identidade vilacondense.