10/05/2026
NORAS do CONCELHO de VILA do BISPO
Monte do Morgados, Budens
“Cada nora com seu cântaro”…
NORA é a designação atribuída, na tradição rural portuguesa, a um engenho hidráulico destinado à elevação de água subterrânea, geralmente a partir de poços, para abastecimento doméstico e, sobretudo, para rega agrícola. Trata-se de um mecanismo de tração animal, humana, hidráulica ou, mais recentemente, motorizada, que aciona um sistema rotativo composto por rodas dentadas e por uma cadeia contínua de recipientes denominados por “alcatruzes”, fabricados em barro e mais tarde em chapa de ferro e zinco, permitindo a captação e o transporte da água até à superfície.
As origens deste engenho hidráulico são muito antigas, encontrando-se associadas ao desenvolvimento das primeiras tecnologias de captação e gestão hídrica nas civilizações do Próximo Oriente e do mundo mediterrânico. Os primeiros mecanismos destinados à extração de água remontam a contextos da Mesopotâmia e do Antigo Egito, regiões onde diferentes sistemas de elevação foram pela primeira vez utilizados para abastecimento humano e regadio de terrenos agrícolas.
A nora, na sua forma mecânica rotativa mais comum e tradicional na Península Ibérica, desenvolveu-se progressivamente no mundo helenístico e romano, beneficiando de avanços na engenharia hidráulica e na mecanização do movimento rotativo aplicado à elevação de água. Contudo, a difusão mais expressiva deste tipo de engenho no território peninsular encontra-se frequentemente associada ao período islâmico medieval, entre os séculos VIII e XIII, durante o qual o conhecimento hidráulico árabe e norte-africano magrebino contribuiu, signif**ativamente, para a introdução, aperfeiçoamento e disseminação de sistemas de irrigação adaptados aos climas secos mediterrânicos. A própria palavra “nora” deriva do árabe nā‘ūra (ناعورة), termo relacionado com rodas hidráulicas elevatórias.
Em Portugal, particularmente nas regiões meridionais do Alentejo e do Algarve, a nora é entendida, não apenas como dispositivo técnico, mas como elemento estruturante da paisagem agrária tradicional, onde a escassez hídrica condicionou historicamente estratégias de captação, armazenamento e distribuição da água. No Algarve, a nora constituiu, durante séculos, um engenho fundamental para a agricultura de subsistência, de regadio em pequenas quintas, hortas e pomares.
«Na zona em estudo [Budens e Vale de Boi], a grande maioria das noras foram construídas a partir dos anos 50, nestes anos o levantamento de Dias e Galhano dava conta que a presença de noras em ferro era superior as noras de madeira, no entanto a utilização de noras em madeira perdurou em Budens e certamente um pouco por todo o Portugal até ao final da década de 50. Por meio do cicerone dos campos e vales de Budens, o Sr. António da Purif**ação, foi possível saber que de todas as noras construídas nesta década, só uma seria construída em madeira e as restantes em metal. Outras três noras em madeira ainda estavam em uso nos anos 50, duas em Budens e uma em Vale de Boi, sendo que umas delas foi substituída pela nora “Budens 9”, ainda na década de 50. Presentemente já não se encontra nenhum exemplar destes engenhos construídos em madeira ou de alcatruzes em barro.
Nos anos 50 as noras em madeira eram obra para os abegãos. Em Espiche uma aldeia que f**a no concelho de Lagos, a 8km de distância de Budens estes eram produzidos de forma artesanal por uma família especializada, pois podemos adivinhar que nem todos os abegãos eram conhecedores da arte de montagem e do girar acertado das rodas dentadas ou tambores. A matéria especif**a era o azinho. Os alcatruzes em barro eram feitos em São Teotónio no concelho de Odemira, que está a 45km de distância. Já as noras metálicas foi possível aferir, por meio do Sr. António da Purif**ação e por meio do Sr. José Marreiros, que eram produzidas pela firma Castelo e Caçorino Lda. em Portimão. Estes engenhos custavam em torno de 3 contos e 500».
SANTOS, Ramiro (2015) – “Noras dos Vales de Budens e Vale de Boi”. Seminário de Arqueologia Industrial, Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Nas imagens que ilustram esta nossa publicação, apresentamos uma nora situada no Monte dos Morgados, na Freguesia de Budens, alguns metros a norte da estrada municipal que liga Budens à Boca do Rio, próxima da margem direita da Ribeira de Budens. Trata-se de uma nora de eixo curto baixo, assente em vigas de ferro fundido de tipo A embutidas num poço circular. Não se encontra completa, apenas por ausência dos alcatruzes. Os elementos metálicos apresentam elevada oxidação e a malha de calabre encontra-se quebrada. O poço é robusto e apresenta-se aparentemente estável. A água vertia do tabuleiro para um pequeno pilar, anexo ao muro do poço, com caleira interna, que ligava ao tanque rectangular a 5m de distância. A levada não se encontra presente ou nunca existiu. Conforme informações recolhidas junto da comunidade, esta nora trabalhou até 1979, sendo a ultima a funcionar nas proximidades da aldeia de Budens e na sua ribeira.
Enquanto testemunho da cultura material rural portuguesa, a nora representa a conjugação entre conhecimento empírico, adaptação tecnológica e gestão comunitária dos recursos hídricos, constituindo, hoje, um importante elemento da Paisagem Rural, do Património Cultural Etnográfico e da Memória Coletiva do Concelho de Vila do Bispo...
Investigação, texto e fotografia de Ricardo Soares
arqueólogo e museólogo
Investigação e textos citados de Ramiro Santos
arqueólogo
lustração de Vitor Fragoso
desenho a tinta da China, 2023
Município de Vila do Bispo
Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História©