25/04/2026
Poema "A natureza de um país"
Autora: Claudia Gomes da Cunha
Ervas daninhas não existem: existem ervas selvagens.
O nome “daninha” não descreve a planta, descreve o incômodo humano diante do que cresce fora do seu controle.
Chamamos de invasora a espécie que ocupa um espaço e cresce com intensidade. Mas nunca nomeamos o que veio antes para que isso acontecesse: plantas trazidas de outro ecossistemas trazidas por mãos humanas, o desequilíbrio, a monocultura, a intervenção.
A linguagem não é inocente. Ela decide o que merece viver e o que pode ser arrancado.
Com a liberdade, fazemos o mesmo.
Chamamos de desordem aquilo que desafia estruturas injustas e nos tiram do nosso lugar de conforto.
Chamamos de excesso aquilo que não cabe nas regras impostas e nos nossos conhecimentos sobre liberdade.
Chamamos de ameaça aquilo que simplesmente existe fora do lugar que alguém determinou. E muitas vezes falamos de dentro das nossas gaiolas, com as portas abertas, apontando quem está lá fora.
Assim como não há liberdade individual, as plantas também não crescem sozinhas, crescem em ecossistemas.
E quando o sistema adoece, surgem respostas, não erros.
O problema nunca foi as “ervas daninhas”.
O problema é um modelo que precisa arrancar, controlar e nomear para continuar existindo.
Hoje, no dia da Revolução dos Cravos, lembramos:
a liberdade também já foi chamada de desordem.
E ainda assim, floresceu.
Como disse Nelson Mandela:
“Sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade do outro.”
Cuidar da liberdade é também rever as palavras que usamos e os mundos que elas sustentam.