12/03/2021
Polícias na mira dos serviços secretos
Líderes do Movimento Zero já estão identificados. Posts mais agressivos e de extrema-direita são de guardas prisionais.
O Movimento Zero (M0), que junta polícias, militares e guardas prisionais, está na mira dos serviços de informações (SIS) e também de outras forças de segurança, por suspeitas de agregar um número crescente de simpatizantes da direita mais radical e estar a incentivar à desobediência. O recente relatório “Estado de Ódio: o Extremismo de Direita na Europa” descreve o M0 como sendo um movimento “populista de extrema-direita”.
Ao Expresso, uma fonte próxima da investigação a este universo garante que os líderes deste movimento, supostamente inorgânico, estão já identificados, apesar de agirem no anonimato: “São entre seis a dez elementos da PSP.”
No Facebook, o M0 conta já com cerca de 80 mil seguidores e tem apelado à GNR e à PSP para fazerem “zero autos de contraordenação e zero detenções” durante a pandemia, enfatizando que se o poder político não mudar a estratégia em relação à covid-19 arrisca-se a ficar sem a contribuição das polícias.
Isto num momento em que o país vive no estado de emergência e em que as autoridades têm sido chamadas a atuar com especial intensidade para fiscalizar se a população cumpre as regras impostas pelo Governo.
Já esta semana, marcou uma greve de 24 horas a 21 de junho, deixando no ar a hipótese de se repetirem confrontos entre polícias: “Forte possibilidade de um novo episódio dos secos e molhados de 1989 vir a acontecer”, alerta.
Uma fonte da segurança interna garante que esta estratégia do Movimento Zero é uma tentativa de capitalizar “algum descontentamento” existente entre os operacionais. Outra fonte policial é mais taxativa: “Há um extremar de posições que são inaceitáveis. Estamos a chegar a um ponto da linha que não deve ser ultrapassada com boicotes, indisciplina e greves.”
Nas páginas de dezenas de simpatizantes do M0 no Facebook a que o Expresso teve acesso, o primeiro-ministro António Costa é denominado de “monhé”, Mário Soares foi um “chulo”, André Ventura é tido como “um herói”, Oliveira Salazar era “um grande senhor”, Jair Bolsonaro punha “a escumalha a trabalhar”, o dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba é chamado de “porco preto” e perde-se a conta das ofensas dirigidas a “pretos e ciganada”.
Nas redes sociais, os membros mais agressivos e que escrevem posts de cariz ra***ta e xenófobo, apelando a um estado securitário, são na sua maioria “guardas prisionais, militares e até polícias municipais”, avança uma fonte das forças de segurança. Mas também há agentes da PSP e militares da GNR a apelar ao
ódio.
Até ao fecho da edição não foi possível obter uma reação do M0.
No entanto, existe um post dedicado ao já referido relatório europeu sobre ódio: “Sermos conotados de populistas de extrema-direita é motivo de gargalharmos. Gargalharmos muito!”
Oito processos na PSP
A PSP revela que em 2020 e 2021 abriu oito processos disciplinares e três de inquérito a agentes por comentários impróprios no Facebook. “A manifestação, por qualquer meio, de visões extremistas ou ofensivas tem sido prontamente sinalizada e sancionada pela PSP, quer no âmbito disciplinar quer na denúncia às autoridades judiciais competentes”, diz a Polícia.
Já sobre o M0, a PSP acrescenta que se trata de um “movimento inorgânico” que “não representa qualquer instituição ou polícias da Polícia de Segurança Pública”. A GNR não revela quantos militares já foram castigados por posts extremistas, mas salienta que tem promovido videoconferências e cursos com a temática dos direitos humanos e discriminação racial. Já a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) informa que não foi, até à data, aplicada qualquer sanção disciplinar por prática discriminatória.
“Encontram-se pendentes dois processos.”
Quanto aos serviços prisionais garantem que não foram identificados guardas que na sua vida particular e social tenham tido comportamentos ra***tas, não havendo por isso qualquer inquérito interno.
Por Hugo Franco in Expresso 12.03.2021
Polícias na mira dos serviços secretos
Líderes do Movimento Zero já estão identificados. Posts mais agressivos e de extrema-direita são de guardas prisionais
O Movimento Zero (M0), que junta polícias, militares e guardas prisionais, está na mira dos serviços de informações (SIS) e também de outras forças de segurança, por suspeitas de agregar um número crescente de simpatizantes da direita mais radical e estar a incentivar à desobediência. O recente relatório “Estado de Ódio: o Extremismo de Direita na Europa” descreve o M0 como sendo um movimento “populista de extrema-direita”.
Ao Expresso, uma fonte próxima da investigação a este universo garante que os líderes deste movimento, supostamente inorgânico, estão já identificados, apesar de agirem no anonimato: “São entre seis a dez elementos da PSP.”
No Facebook, o M0 conta já com cerca de 80 mil seguidores e tem apelado à GNR e à PSP para fazerem “zero autos de contraordenação e zero detenções” durante a pandemia, enfatizando que se o poder político não mudar a estratégia em relação à covid-19 arrisca-se a ficar sem a contribuição das polícias. Isto num momento em que o país vive no estado de emergência e em que as autoridades têm sido chamadas a atuar com especial intensidade para fiscalizar se a população cumpre as regras impostas pelo Governo.
Já esta semana, marcou uma greve de 24 horas a 21 de junho, deixando no ar a hipótese de se repetirem confrontos entre polícias: “Forte possibilidade de um novo episódio dos secos e molhados de 1989 vir a acontecer”, alerta.
Uma fonte da segurança interna garante que esta estratégia do Movimento Zero é uma tentativa de capitalizar “algum descontentamento” existente entre os operacionais. Outra fonte policial é mais taxativa: “Há um extremar de posições que são inaceitáveis. Estamos a chegar a um ponto da linha que não deve ser ultrapassada com boicotes, indisciplina e greves.”
Nas páginas de dezenas de simpatizantes do M0 no Facebook a que o Expresso teve
acesso, o primeiro-ministro António Costa é denominado de “monhé”, Mário Soares foi um “chulo”, André Ventura é tido como “um herói”, Oliveira Salazar era “um grande senhor”, Jair Bolsonaro punha “a escumalha a trabalhar”, o dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba é chamado de “porco preto” e perde-se a conta das ofensas dirigidas a “pretos e ciganada”.
Nas redes sociais, os membros mais agressivos e que escrevem posts de cariz ra***ta e xenófobo, apelando a um estado securitário, são na sua maioria “guardas prisionais, militares e até polícias municipais”, avança uma fonte das forças de segurança. Mas também há agentes da PSP e militares da GNR a apelar ao
ódio.
Até ao fecho da edição não foi possível obter uma reação do M0. No entanto, existe um post dedicado ao já referido relatório europeu sobre ódio: “Sermos conotados de populistas de extrema-direita é motivo de gargalharmos. Gargalharmos muito!”
Oito processos na PSP
A PSP revela que em 2020 e 2021 abriu oito processos disciplinares e três de inquérito a agentes por comentários impróprios no Facebook. “A manifestação, por qualquer meio, de visões extremistas ou ofensivas tem sido prontamente sinalizada e sancionada pela PSP, quer no âmbito disciplinar quer na denúncia às autoridades judiciais competentes”, diz a Polícia.
Já sobre o M0, a PSP acrescenta que se trata de um “movimento inorgânico” que “não representa qualquer instituição ou polícias da Polícia de Segurança Pública”. A GNR não revela quantos militares já foram castigados por posts extremistas, mas salienta que tem promovido videoconferências e cursos com a temática dos direitos humanos e discriminação racial. Já a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) informa que não foi, até à data, aplicada qualquer sanção disciplinar por prática discriminatória. “Encontram-se pendentes dois processos.”
Quanto aos serviços prisionais garantem que não foram identificados guardas que na sua vida particular e social tenham tido comportamentos ra***tas, não havendo por isso qualquer inquérito interno.
Por Hugo Franco in Expresso 12.03.2021