27/04/2026
Discurso do representante do PS na sessão solene de comemoração dos 52 anos do 25 de abril de 1974
Senhor Presidente, Senhores Deputados.
Senhor Presidente da Câmara e Senhores Vereadores
Caríssimos Vaguenses
Portugal será o mais antigo Estado da Europa, com quase 9 séculos de fundação e a sua História regista acontecimentos muito relevantes, que foram transformados em feriados nacionais.
A restauração e a independência nacional, em 1640 e a implantação da República, em 1910, são datas importantíssimas, mas que se perdem no tempo. Para nós são valores adquiridos, porque sempre vivemos numa República e sempre tivemos a independência nacional como dado certo.
O 25 de abril de 1974, data igualmente importante da nossa História, está apenas a 52 anos do presente momento: alguns de nós já eramos nascidos, já cá estávamos e alguns outros, mais antigos, viveram períodos signif**ativos das suas vidas antes de 1974. Alguns de nós, portanto, conhecem por experiência própria o antes e o depois.
Para Simone de Beauvoir “o estudo de um caso particular é mais esclarecedor do que respostas abstratas e gerais”. E, nesse sentido, apresentar a nossa experiência é iluminar a dos outros, abrir portas à reflexão do que que se viveu, do que aconteceu e por que aconteceu.
Na manhã radiosa de 25 de abril de 1974, uma quinta-feira que me ficou gravada na memória, eu era um jovem estudante do penúltimo ano do ensino secundário, tinha quase 17 anos e frequentava o Liceu Nacional de Aveiro. Era um jovem do meu tempo: vivia o presente, como qualquer um, mas já pensava o futuro. E preocupava-me o futuro, porque o presente era cinzento, de um país parado no tempo e sem horizontes de esperança.
Recorro à minha memória, trazendo dados e situações que melhor podem dar a conhecer o país anterior a 1974.
Frequentei a Escola Primária e, da minha turma de quase 30 alunos, apenas eu segui para o Liceu, não por ser o mais inteligente, mas por vir de um nível social superior aos restantes. Os meus colegas de então ou fizeram o 5º e 6º anos na Telescola (ensino à distância utilizado por países pobres), ou foram logo trabalhar para a agricultura, ou para “as obras”. Isto com 11, 12 anos e executando trabalhos pesados. Vejo uma fotografia da minha turma desse tempo: todos eramos pobres, pouco cuidados, malvestidos e alguns com cara de fome.
O Liceu de Aveiro era a única escola pública oficial de todo o distrito, para além de meia dúzia de Escolas Comerciais e Industriais que preparavam quados técnicos. Era altamente elitista, segregadora e exigente. À mínima falha era punida com processos disciplinares e expulsões.
Nós, os alunos, estávamos bem conscientes do nosso futuro: iríamos para a Universidade num curto prazo, mas logo a seguir esperava-nos a guerra colonial, ser carne para canhão.
A única esperança era sair do país, ir para o estrangeiro. Mas até isso era impossível, por exigir licença militar, que nunca nos seria concedida. Por isso, sair de Portugal, só ilegalmente, ou “a salto”, como então se dizia. Vivíamos aprisionados no nosso próprio país, dentro das nossas fronteiras.
Pouco se falava nos mortos da guerra colonial, porque a Censura impedia quase tudo; mas não conseguiu evitar a chegada da urna do Nelson Soares, um alferes miliciano de Oliveira do Bairro, morto na Guiné, estudante universitário, futebolista e de quem todos gostávamos. A sua chegada dentro de quatro tábuas foi um enorme choque coletivo e que ainda hoje me comove.
Eu sou filho de professores primários, funcionários públicos, que para serem admitidos tiveram de fazer por escrito o seguinte juramento: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. “.
Ninguém da minha família concordava com o regime, mas as críticas f**avam dentro das paredes de casa: “não se diz lá fora, porque até as paredes têm ouvidos”. E tinham mesmo: após o 25 de abril, com a divulgação da lista, vim a saber que algumas das pessoas da aldeia com quem
convivia, eram informadores da PIDE, pagos pelas suas denúncias. Vivíamos num clima de medo. Disse-me o meu pai, um dia: “votei no Humberto Delgado, mas que ninguém sonhe…”
Lembro-me do 3º Congresso da Oposição Democrática, de abril de 1973: tentámos entrar em Aveiro (para ir à Barra, onde estávamos a construir uma casa) e tivemos de voltar para trás, porque a cidade estava cercada pela GNR. No dia seguinte, no Liceu, disseram-me os meus colegas que a Polícia de Choque tinha distribuído pancada da grossa a pessoas indefesas.
Também me lembro das “eleições” com aspas, sobretudo as de 1973, onde um familiar meu, médico de grande prestígio, se envolveu muito diretamente na minha zona, tentando ganhar as “eleições” na nossa terra. Os caciques locais com promessas e ameaças ganharam folgadamente. Foi uma grande desilusão e muita sorte houve em não ter sido preso. Era esta a liberdade que existia e a democracia que tínhamos.
Em 1975 e início de 1976, com 18 anos, tive um linfoma de Hodking, gravíssimo, praticamente mortal. Valeu-me a dedicação e competência do meu familiar médico e os tratamentos particulares numa clínica de Lisboa, pagos pelos meus pais. Da parte do Estado, nada existia e podia morrer à vontade. Felizmente, o Dr. António Arnaut, Ministro dos Assuntos Sociais do 2º Governo Constitucional, presidido por Mário Soares, criou o Serviço Nacional de Saúde (Lei 57/79), de que hoje tanto nos orgulhamos.
E era este o Portugal que tínhamos, um país pobre, atrasado, esmagador do cidadão, com mais de 30% de analfabetismo, onde se passava fome, onde não havia futuro. Não se podia ser feliz num país com uma ditadura política e económica como a que existia, o país mais pobre e atrasado da Europa.
Eu, que vivi 17 anos dominado por esta ditadura obsoleta e que assisti à miséria e à dominação de um povo, acho incompreensível a opinião de alguns protofascistas sobre a necessidade de 3 Salazares. Portugal não precisa de ditadores: precisa de assumir a sua História, que inclui dezenas de levantamentos antifascistas, entre 1926 e 1974, com o objetivo da libertação do Povo.
O 25 de abril abriu portas à esperança, com a sua triologia, os 3 DDD do MFA: democratizar, descolonizar e desenvolver. Com maior ou menor dificuldade, lá foram sendo atingidos.
Para terminar, vem uma referência à minha geração e à forma como os valores do 25 de abril moldaram a nossa personalidade. Em 1974 eramos jovens idealistas, tínhamos bem consciência das grandes injustiças sociais existentes e da necessidade de mudança. Com o 25 de abril criou-se em nós a esperança duma sociedade perfeita e essa esperança nunca desapareceu do nosso subconsciente.
E é por isso que muitos de nós, já numa fase em que deveríamos estar confinados em zonas de conforto, continuamos, com idealismo – agora um idealismo mais realista – a lutar por uma sociedade melhor e mais justa.
Viva o 25 de abril, com a sua utopia, mas também com os seus valores de democracia, liberdade, justiça social e estado social.
Viva o 25 de abril