24/11/2014
“ Livros raros dos séculos XVI, XVII e XVIII”
O raro é algo a não desmembrar como tormenta de um tempo, assoberbados de surpresas inóspitas a delapidar a memória.
O raro adquirido pelas gentes da nossa vasta região, beijada por rios, Património do Mundo, só pode adormecer em leitos cultivados com temperos de boa memória, como foi esta a terra dos Zoelas.
E o raro são os livros. Se por aqui foi comprado e lido um dos elevados sermões, Maria Rosa Mystica, de 1686, obra do Padre António Vieira, é nossa obrigação, sabendo que são conhecidos três exemplares, preservá-lo como tesouro neste agremiar de terras do Côa, Douro e Sabor.
Foi o reverendo José António Noga, abade de Sta. Maria do Pranto, neste concelho, desde 1777, que adquiriu muitos dos exemplares em exposição, a maioria por troca por outros, como atestam registos escritos, e que importa dar-lhes mais amplitude e maximizá-los na sua valorização.
Por vezes, qual salvador de memórias, há pessoas a contactarem-me para ver “coisas antigas”. Desafios que me liquidam o sono e, apreensivamente, busco respostas, nomeadamente quando há vasto e rico património em causa, tantas vezes a troco de pouco.
Os livros foram a última aquisição. Adquiri-os não por falta de os ter, mas por sentir o seu apagado destino. Desígnio imperativo de quem viu neles a possibilidade da região se projetar no plano da investigação dos conteúdos de livros raros, guardados a sete chaves por raras instituições do País.
E é esta intemporalidade que nos faz afirmar que os livros não são o efémero de uns sons passageiros, mas sim a base sólida de uma lição de história coletiva, imperdível para gerações vindouras.
Arnaldo Duarte da Silva
Vila Nova de Foz Côa, 26 de novembro de 2014