22/05/2026
🌊 A eleita do MAIS , Marisa Rodrigues dos Santos esteve presente na conferência “Impulso Local”, promovida pelo Jornal Económico. Esta é a sua opinião:
"Estive presente na conferência “Impulso Local”, promovida pelo Jornal Económico, em Sines, numa discussão particularmente importante sobre os desafios que os grandes investimentos colocam hoje ao nosso território.
Destaco o interesse da iniciativa e a forma dinâmica e profissional com que foi conduzida, tocando em muitos dos desafios que atualmente se colocam a Sines. No entanto, confesso que nem tudo o que ouvi me deixou tranquila, porque me parece que nem tudo o que deve ser feito está, efetivamente, a ser feito.
Sines precisa de ser pensado de forma integrada.
Os investimentos anunciados e já em curso têm impactos profundos na habitação, nos serviços públicos, na mobilidade, no ambiente e na própria identidade social do concelho. Esta realidade exige uma abordagem holística, capaz de colocar em diálogo todas as dimensões deste novo ciclo de desenvolvimento que Sines atravessa e de construir respostas articuladas para os problemas identificados.
Precisamos de um verdadeiro plano estratégico para o território, com visão de conjunto, capacidade de antecipação e prioridades claramente definidas. E esse trabalho, a meu ver, já deveria estar em curso. O facto de ainda nem sequer parecer assumir-se como uma prioridade política é, sinceramente, preocupante.
Durante a sessão, ficou também evidente algum desconhecimento do Ministro Gonçalo Matias relativamente à realidade concreta que hoje se vive em Sines.
Afirmar que o problema da escassez de habitação resulta essencialmente de constrangimentos no licenciamento urbanístico é ignorar uma parte fundamental do problema.
A pressão que os grandes investimentos exercem sobre o mercado local é enorme e os preços da habitação atingiram valores incomportáveis para muitas famílias de classe média, jovens e trabalhadores essenciais ao funcionamento deste território.
Os dados do INE confirmam uma escalada contínua dos preços da habitação em Portugal, com aumentos de 16,8% em 2025 e com a Península de Setúbal já acima dos 2.500€/m². Em Sines, esta pressão sente-se de forma particularmente intensa, impulsionada pela procura associada aos megaprojetos industriais e tecnológicos.
É absolutamente necessário garantir habitação para os cerca de 10 mil trabalhadores que se estimam necessários nos próximos anos, mas também para as pessoas que já cá vivem e que, hoje, têm cada vez mais dificuldade em encontrar uma habitação condigna a preços suportáveis. Nesse contexto, parece-me inevitável assumir a habitação pública como uma prioridade estratégica.
Vejo também com preocupação a possibilidade de criação de estruturas que, na prática, acabem por se substituir às competências das Câmaras Municipais.
No ano em que se comemoram os 50 anos do poder local, a mera possibilidade de revisitação deste modelo do passado é, para mim, inaceitável. Não existe nenhuma entidade melhor preparada para defender os interesses do concelho do que a Câmara Municipal. O que os municípios precisam não é de ser substituídos nas suas atribuições e competências, mas sim de mais meios técnicos, maior capacidade de resposta e instrumentos eficazes de apoio ao ordenamento do território e à gestão urbanística.
Outro tema que considero essencial é o modelo de licenciamento dos projetos PIN.
Faz sentido discutir formas de acelerar procedimentos, mas isso não pode significar desligar os projetos das necessidades reais do território onde se instalam.
Como foi também defendido por Juan Landeira, da Alvarez & Marsal, os grandes investimentos devem incorporar uma verdadeira lógica de responsabilidade social e territorial, construída em articulação com os atores locais e regionais, desde logo os municípios.
A discussão dos impactos ambientais destes projetos ficou fora do âmbito da conferência, mas constitui naturalmente uma das matérias que mais preocupa os sinienses e que exige acompanhamento rigoroso por parte do município.
Sines está a atravessar uma transformação profunda e é precisamente nestes momentos que mais falta faz conhecer bem o território, perceber os impactos das decisões tomadas e garantir que o desenvolvimento não acontece à margem de quem cá vive."