11/04/2023
Patricia CiprianoPatricia Cipriano
LawyerLawyer
A Comissão de Inquérito à TAP deixa-nos confrangidos, apoucados e receosos pelo futuro do país.
Se tivesse que formar convicção sobre o assunto, socorrer-me-ia, dentro do que foi a prova testemunhal de Christine Ourmières-Widener e Alexandra Reis, do depoimento da primeira.
Isto porque, foi claro, espontâneo, racional, pormenorizado, livre, e, assente em factos verificáveis através de outros elementos de prova.
Christine foi a única a falar verdade porque, pura e simplesmente, não depende da teia de conexões do PS, para continuar a sua vida num outro país, mais evoluído, e, seguramente governado por gente que sabe exatamente quais são os seus poderes e deveres .
Já Alexandra Reis, qual "Carmelita" recém-saída do convento , apresenta-se excessivamente calma, ponderando cada resposta, cada palavra, cada suspiro.
Quando precisa, faz algumas pausas para pensar nas respostas (a mim ensinaram-me a deixar cair algo, quando preciso de uns segundos para refletir),afirmando que, em tempo algum, falou com quem quer que fosse, sobre a matéria que levou à celebração do "acordo de renúncia " ao cargo que exercia na TAP.
Também não explica com clareza, porque é que pediu 1.300.000€ de indemnização, quando afinal, até estava disposta a sair sem qualquer compensação, se o Governo lhe pedisse para o fazer.
Acresce que, se me afigura contrário às regras da normalidade e da experiência, dizer que aceitou o cargo de Secretária de Estado do Tesouro, sem informar o Ministro das Finanças da situação que a levou a sair da TAP e a receber uma choruda indemnização.
Se for verdade, Alexandra Reis não se comportou com lealdade e transparência nessa altura e, por maioria de razões, não estará também agora a fazê-lo perante a comissão .
O que ressalta à saciedade dos seus esclarecimentos, é que há uma enorme preocupação e cuidado para não se cobrir de mácula o atual Ministro das Finanças, e, por conseguinte, o atual PM.
Tentativa falhada, porque hoje o país acordou menos tolerante.
A pobreza afeta três milhões de portugueses, a crise da habitação será dificilmente resolvida no tempo que precisamos, a inflação não nos dá tréguas e a subida dos juros sufoca de morte as famílias com crédito habitação.
De facto, qualquer um de nós, percebeu que o setor empresarial do Estado está minado, que os jogos de bastidores são repugnantes e lesivos do erário público, e que, há um grupo restrito de pessoas que vêm enriquecendo à nossa custa, com todo o sacrifício que isso implica.
Quando é visível, por um sem número de casos que assolaram a governação do país, a influência do Governo no regular funcionamento das instituições democráticas, o Presidente da República não pode (ou não deve) ficar indiferente. E nem se diga que não há alternativas, porque não podemos manter uma situação que coloca em causa a democracia, apenas porque temos receio do futuro.
Se queremos ser verdadeiros cidadãos, está na hora de exercermos verdadeiramente a cidadania.