29/05/2026
Nichos de nivação, vulgo geleiras ou neveiros
O maciço culminante da Serra alberga formas de relevo, de origem crionival, em pretéritos ambientes periglaciários. Locais, onde o efeito conjugado da exposição, do substrato e da topografia foram, e são, determinantes para a persistência tardia da neve e, até há poucas décadas, para a perenidade do gelo no planalto cimeiro.
A presença de nevados, por períodos longos, em locais sombrios e abrigados dos ventos dominantes, levou à génese de concavidades em forma de co**ha. Designadas por nichos de nivação e localmente por geleiras (neveiros) são de extensão reduzida e surgem embutidos em vertentes e/ou áreas aplanadas, onde a neve se demora.
A sazonalidade do gelo-degelo leva à alteração do substrato e à dinâmica e transporte dos sedimentos, depositando-se, os materiais mais finos na base do nicho contribuindo para a formação de solo, retenção de humidade e manutenção do nível freático elevado.
Estas áreas mal drenadas permitem a instalação de prados e turfeiras. A vegetação colonizadora e a turfa possuem condutividade térmica baixa, reduzindo o aquecimento do solo no verão e favorecendo o arrefecimento no Inverno, convertendo estes biótopos no último reduto, de plantas raras e ameaçadas, como o carriço-da-estrela (Carex lucennoiberica), planta criticamente ameaçada e, em Portugal, restrita à Estrela.
Relatos de agosto de 1800, do último quartel de 1800 e do primeiro de 1900 atestam a perenidade do gelo e corroboram os trabalhos do geólogo Lautensach (1929 e1932):
“Vimos nos picos mais altos, nas fendas das rochas e nos vales, considerável quantidade de neve com 100 a 200 passos de comprimento e 10 a 12 pés de espessura, e que não podiam derreter este ano; porque o calor só é sentido nesses locais por algumas horas; as manhãs são frescas e as noites muito frias. A neve não se encontra sobre os planaltos mais elevados, mas sim nos precipícios. Os pastores disseram-nos que a neve costuma ficar o ano todo nos vales, …no entanto, ninguém se lembrava de ter visto uma quantidade tão considerável……como este ano.”
“…passava um homem, vindo da Serra, que trazia às costas um grande bloco de neve, com destino ao Club da Covilhã, que a emprega para preparar os refrescos. …ganha 1$000 réis diários,… e vae buscar a neve à Gelleira, único local em que se encontra o gelo n’esta éphoca…”.
“Um pouco abaixo, ao Covão das Portas, encontraram a geleira: único ponto onde n’esta epocha se encontra a neve. Alí a vimos n’uma extensão de uns 12 m por 4 m de largo com uma espessura de 0,46 cm. Estávamos sobre a neve no dia 15 de agosto de 1904 e a temperatura que era até então de 40 ºC passou imediatamente a 29 ºC.”.