27/04/2026
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal, demais membros da Mesa, Senhor Presidente da Câmara, Senhores Presidentes de Junta, vereadores, deputados municipais, autoridades, convidados, minhas senhoras e meus senhores,
É com honra e sentido de responsabilidade que participamos nesta sessão evocativa do 25 de Abril, símbolo maior da liberdade, da democracia e da dignidade do povo português.
Saúdo todos os presentes, em especial os antigos titulares de cargos autárquicos aqui presentes, cuja dedicação contribuiu para o desenvolvimento do nosso concelho. A sua presença enriquece esta celebração.
I - Recordamos hoje a Revolução de 25 de Abril de 1974, o “dia inicial inteiro e limpo”, que pôs fim a um regime autoritário marcado pela ausência de liberdades, censura, repressão e guerra colonial. Liderada pelo Movimento das Forças Armadas, esta revolução abriu caminho à democracia, culminando na Constituição de 1976 e na consagração dos direitos fundamentais.
Mas mais do que um acontecimento político, abril representa uma profunda transformação coletiva: a passagem do medo à liberdade, da opressão à esperança. O cravo vermelho tornou-se símbolo dessa mudança — sinal de paz, coragem e renovação, traduzindo a capacidade de transformar a força destrutiva em força criadora.
Celebrar abril é, por isso, mais do que recordar o passado. É reafirmar um compromisso com a liberdade, a justiça e a participação cívica. É reconhecer que a democracia exige memória, vigilância e continuidade.
Que esta sessão seja um momento de reflexão e de renovação desse compromisso. Porque celebrar abril é, acima de tudo, continuar abril.
II- Que ecos da Revolução dos Cravos se fizeram sentir em Resende desde 1974, e de que forma marcaram o seu percurso, identidade e desenvolvimento?
Em Resende, terra voltada ao Douro e moldada pelo trabalho, abril chegou como promessa de dignidade, voz e futuro. Uma terra que conheceu dificuldades, mas nunca deixou de acreditar.
Hoje evocamos abril olhando para Resende como símbolo de progresso, esperança e comunidade. Mais do que um momento nacional, o 25 de Abril teve impacto direto no concelho, ainda que as mudanças iniciais tenham sido lentas, marcadas por limitações estruturais e resistência.
No início dos anos 70, Resende vivia essencialmente da agricultura, com indústria pouco desenvolvida. A emigração e o êxodo rural provocavam envelhecimento e perda demográfica. As infraestruturas eram escassas, com serviços concentrados e acessibilidades difíceis.
Com a revolução, iniciou-se uma nova etapa: eleições livres em 1976, maior participação cívica e uma administração mais próxima. Apesar de gradual, a mudança foi estrutural.
Segundo o historiador J. C. Duarte, após uma comissão administrativa inicial, as primeiras eleições trouxeram novas lideranças. Destaca-se o contributo de Brito de Matos, que investiu em vias de comunicação, infraestruturas e na ligação entre comunidades, incluindo a construção da Ponte da Ermida.
A partir de 2001, com nova liderança de António Borges, o concelho conheceu transformações profundas, enfrentando desafios como o envelhecimento e a saída de jovens. Apostou-se na valorização do património, cultura e identidade local, com promoção turística, apoio a iniciativas culturais e investimento em inovação.
No plano económico, destacou-se o setor agroalimentar, com produtos como a cereja e o vinho, e o turismo sustentável ligado ao Douro, com intervenções nas fluvinas de Aregos, Porto de Rei e Barrô. Simultaneamente, reforçaram-se serviços essenciais, educação, habitação e condições de fixação da população.
A projeção externa do concelho ganhou relevância através do marketing territorial e parcerias, afirmando Resende no contexto regional e nacional.
O apoio ao associativismo, desporto, folclore, bandas e bombeiros fortaleceu a coesão social e preservou a identidade cultural. Esta visão contribuiu para uma comunidade mais participativa e unida.
Resende de hoje reflete investimento em saúde, educação, apoio social e infraestruturas, bem como valorização de recursos estratégicos como as termas de Aregos. Outras lideranças deram continuidade a este percurso, consolidando projetos e dinamizando o território.
Ao longo de décadas, o desenvolvimento promovido criou bases sólidas para o futuro. Espera-se agora que novas lideranças deem continuidade a uma estratégia integrada, capaz de gerar impacto económico duradouro e melhorar a qualidade de vida.
Para continuar a evoluir, Resende precisa equilibrar tradição e inovação: valorizar o território, fixar jovens, investir na digitalização, melhorar acessibilidades e reforçar a sua atratividade.
O grande desafio mantém-se: fazer de Resende um lugar onde se viva com qualidade, se trabalhe com dignidade e se visite com prazer — fiel ao espírito de abril.
Senhor Presidente, minhas senhoras e meus senhores
Caros concidadãos
Hoje, muitos sentem que há desigualdades persistentes (salários, acesso à habitação), existe desconfiança nas instituições políticas, o individualismo cresceu face ao sentido de comunidade, a participação cívica é mais fraca do que o entusiasmo revolucionário de 1974, ou seja, não é que abril tenha “falhado” — é que ele não é um ponto de chegada, é um processo.
Mostrar aos jovens que a liberdade não é uma coisa abstrata nem ‘garantida’ sem alarmismo, mas com honestidade: a democracia exige participação, e a abstenção, desinformação ou desinteresse têm consequências, ou seja: o 25 de Abril não está “feito” — está em manutenção.
É preciso traduzir o “espírito de abril” para hoje através do ativismo climático, defesa de direitos sociais, voluntariado, participação local. Isso liga o passado a ações concretas no presente.
No fundo, a chave é esta: — não ensinar o 25 de Abril como memória, mas como responsabilidade.
Num contexto marcado por desafios como a desinformação, o afastamento dos cidadãos da política e o crescimento de discursos extremistas, os ideais de abril recordam a importância da participação cívica, do pluralismo e do respeito pelos direitos humanos. Mais do que um marco histórico, o Dia da Liberdade que comemoramos hoje, é um símbolo vivo que apela à responsabilidade de preservar e aprofundar a democracia todos os dias.
Em suma, o maior desafio da democracia portuguesa é este: ela depende de cidadãos que escolham, de forma consciente e responsável, participar, questionar e agir. Sem isso, a liberdade torna-se apenas formal, e não verdadeiramente vivida.
Perante os desafios colocados por forças políticas grosseiras e turbulentas como o CHEGA, a resposta não pode ser o afastamento nem o silêncio, mas sim o reforço consciente e ativo da democracia. A liberdade exige cidadãos informados, críticos e participativos, capazes de confrontar ideias com rigor e não com simplificações ou reações impulsivas.
Mais do que rejeitar discursos, importa compreender as suas causas e responder-lhes com soluções que respeitem os direitos fundamentais e promovam a justiça social. Só assim será possível preservar uma democracia viva, autêntica e fiel aos valores de abril, onde a responsabilidade individual se traduz num compromisso coletivo com o futuro.
Para concluir, caros amigos e concidadãos, gostaria que ficássemos com esta imagem: Tal como não conseguimos olhar diretamente para o sol sem ficarmos ofuscados, também o poder pode cegar — tanto quem o exerce como quem o observa. Por isso, exige-se vigilância, sentido crítico e responsabilidade, para que a sua luz não se transforme em ilusão, mas antes em serviço claro ao bem comum em liberdade e respeito pela diferença.
Viva a liberdade
Viva Resende
(Extrato da intervenção do Dr. Casimiro Veloso, Deputado do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Resende)