25/04/2026
Discurso de Arnaldo Oliveira, Líder do Grupo Municipal do Movimento 2030, na sessão solene da Assembleia Municipal de Ovar, evocativa dos 52 anos do 25 de abril de 1974
Comemoramos hoje o quinquagésimo segundo aniversário do 25 de abril de 1974: uma data marcante e de enorme simbolismo para Portugal e para os portugueses. Mesmo os que não testemunharam há 52 anos este dia incontornável da nossa história, como é o meu caso, ainda hoje beneficiam dos seus efeitos. Apesar da sua inequívoca importância, os que não viveram os acontecimentos desse dia e dos meses que se seguiram podem ser levados a menorizar a sua relevância ou mesmo a estar sujeitos à deturpação ou ao enviesamento do seu signif**ado, o que é perigoso e não deveria acontecer.
Enalteça-se ou critique-se o que sucedeu entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975; abril é um marco fundamental na transição para a liberdade e a democracia.
Pessoalmente, reconheço a importância do 25 de novembro, mas considero que, na sua génese, esteve e continuará a estar o 25 de abril de 1974. Esse dia foi o culminar dos primeiros passos rumo à liberdade, embora ainda hoje tenhamos um caminho importante a percorrer. Ainda temos muito a fazer para construir uma sociedade verdadeiramente democrática. Liberdade e democracia não são a mesma coisa, mas ambas implicam direitos e deveres.
Temos razões para comemorar, para recordar e para enaltecer o que de bom foi feito, mas também para não esquecer os erros cometidos. Devemos aprender com a história e não reescrevê-la nem deturpá-la. As ameaças à democracia vêm hoje de mais lados, com maior intensidade e cada vez mais elaboradas. Os populismos e a demagogia germinam e constituem uma verdadeira ameaça à democracia. As ditaduras nunca chegam de tamancos; chegam de pantufas.
Por outro lado, assiste-se hoje, mais do que nunca, a tentativas de colar todo um partido ou projeto político, seja ele qual for, às atitudes incorretas e aos atos irresponsáveis ou criminosos de um subconjunto de militantes ou de eleitos, postura adotada por vários quadrantes da nossa sociedade como arma de arremesso.
Deixou-se de discutir ideias e projetos para o nosso futuro, para discutir pessoas e fait divers.
Tudo isto é agravado quando parte da comunicação social e certos agentes da justiça parecem ter agendas políticas próprias. Há quem esteja na política como se estivesse numa claque, transformando-a numa luta de egos e num reality show. No entanto, se analisarmos com atenção, verif**amos que nem os bons estão todos de um lado, nem os maus todos do outro.
Teremos uma democracia mais robusta quando a saúde, a educação, a segurança e a justiça funcionarem de facto. Aqui, há muito ainda por fazer.
O sucesso, a felicidade e o mérito reforçam a democracia. O ressentimento, o ressabiamento, a frustração e os complexos são uma ameaça à mesma.
A pluralidade e a diversidade de partidos são um aspeto que devemos valorizar e potenciar, mas estamos atualmente a assistir ao surgimento de novos partidos e movimentos, por vezes com motivações obscuras ou difíceis de compreender.
Onde deveriam existir motivações para prestar um bom serviço à sociedade, com lideranças sérias, empenhadas e estratégias em prol do nosso futuro, por vezes vemos apenas ambições meramente pessoais e mesquinhas ou a necessidade de protagonismo ou de sobrevivência política. Os líderes perpetuam-se por vezes demasiado tempo, outras vezes caindo rapidamente por canibalização interna, e sem tempo suficiente para demonstrar o seu valor. A democracia também começa pelo pluralismo interno e pela diversidade de opiniões dentro de um partido. O seguidismo cego em torno de um líder é a receita para o fracasso individual e coletivo.
Há também uma crescente dificuldade em atrair novas pessoas para os partidos, de modo a que a renovação seja um processo natural e contínuo. Em certos casos, há inclusivamente uma desmobilização, o que signif**a que alguns partidos políticos estão a f**ar desprovidos, em qualidade e em quantidade, de quadros e de recursos humanos competentes. Mas não nos iludamos: os partidos e movimentos são essenciais.
São a primeira linha de participação política e cívica, de reflexão, de discussão e até de seleção dos mais capazes. Mas não devem ser escolas de doutrina e de formatação em torno de um líder que não o é, porque não tolera ser questionado. Se os partidos e movimentos não dispuserem de pessoas capazes e com espírito crítico em número suficiente, o leque de escolhas f**a limitado. É urgente começarmos a escolher os melhores, em vez dos menos maus.
Se consideramos que o sistema está podre, corrupto e caduco, a melhor forma é mudá-lo por dentro, porque, por fora, nada conseguiremos.
É muito nobre um cidadão integrar um partido político com o qual se identif**a e começar, por aí, um processo democrático, primeiro interno (e sem caciquismos) e depois externo, sujeitando-se a eleições.
Os partidos políticos não são estanques nem imutáveis; são aquilo que os seus militantes quiserem que sejam e, muito importante, são a forma de fazer uma triagem de quem tem postura, capacidade, vontade e vocação para a causa pública.
Demonizar os partidos de nada serve. O caminho passa por ampliar as suas bases e quadros com capacidade, espírito crítico, visão e estratégia.
Falemos agora da democracia e da realidade do nosso concelho. Tivemos as últimas eleições autárquicas há cerca de meio ano. O tempo de campanha eleitoral já passou. Esta é a altura de dar tempo ao atual Executivo Camarário para trabalhar, apresentar obra e resultados positivos para bem do nosso desenvolvimento social, económico, ambiental e cultural.
O nosso papel enquanto oposição responsável é muito importante. Devemos estar atentos, participativos, disponíveis e vigilantes, e nunca fazer o que se pode chamar de politiquice ou baixa política.
Se o Executivo atual cumprir bem o mandato, todos beneficiaremos. Em 2029, os eleitores terão novamente a oportunidade de julgar o trabalho realizado e ponderar as alternativas. Por isso, Senhor Presidente da Câmara, Senhoras e Senhores Vereadores, desejo-vos um excelente mandato, assim como a todos nós, membros desta assembleia municipal.
O vosso sucesso, Senhor Presidente, será o nosso sucesso. De nossa parte, teremos uma atitude atenta, responsável, proativa, colaborativa e exigente.
A responsabilidade pela democracia é de todos, do Executivo, mas também da oposição. Passa pela forma como respeitamos as pessoas no contacto presencial e nas redes sociais. Devemos expressar a nossa opinião, mas também saber ouvir. Devemos colher os louros do nosso trabalho, mas também assumir as nossas responsabilidades e culpas.
A democracia não é um projeto; é um desígnio, porque projetos têm duração limitada; desígnios são sonhos e objetivos que requerem empenho e dedicação constantes.
Viva o 25 de Abril!
Viva a Liberdade!
Viva a Democracia!
Viva o nosso território e as suas gentes!
Viva Portugal!