25/04/2023
Intervenção na Assembleia Municipal de 25-04-2023
"Comemoramos hoje o 49º aniversário do 25 de abril de 1974, aproximamo-nos do meio século de vivência em liberdade e democracia, como é importante esta data, como é importante manter a memória de lutas e conquistas.
Todos nós amamos a liberdade, mas as dificuldades para a manter são imensas, não podemos baixar a guarda para que os nossos descendentes dela possam usufruir.
Reflitamos hoje sobre este dia e vivamos a liberdade e a democracia pois é tempo de estarmos preparados, dos passos difíceis dados por quantos tornaram possível esta data, temos de os seguir, avançando com passos certos e decididos, consolidando-a sem restrições geográf**as, étnicas ou de género, trabalhando afincadamente para que todos os povos delas possam usufruir.
Sabemos que a democracia é um sistema imperfeito, contudo, é melhor que qualquer outro já experimentado, tal como Winston Churchill político inglês e Nobel da Literatura disse: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.”
Uma semana antes do 25 de abril de 1974 um adolescente assistia conjuntamente com os colegas de escola à visita do Presidente da República ao Baixo Mondego, que decorreu no Castelo de Montemor.
Como era uso nestas situações, todos fomos dispensados da frequência das aulas com a obrigatoriedade de estarmos na receção a sua Excelência e, nas aulas seguintes as explicações do que representava esta figura e quais as suas funções de estado.
Após este episódio, marcante na memória de qualquer jovem em formação, numa quinta feira, dia 25 de abril cumprindo com a rotina, foi para a Escola Preparatória de Montemor, onde circulava a informação que em Lisboa decorria um golpe de estado.
As interrogações existenciais começam, será algo de bom ou não? O que será golpe de estado? O que é Revolução?
Os professores esforçavam-se para nos fazer entender o que se estava a passar e esclarecer as incertezas e preocupações que se levantavam com a chegada de mais notícias relativas ao Movimento das Forças Armadas.
Sem dúvida, mesmo tendo poucos anos de vida aquando do 25 de abril esse adolescente, agora homem maduro continua a guardar na memória como se vivia nesses tempos.
As preocupações dos pais e familiares de rapazes que receavam pela chegada da idade para integrarem as fileiras militares e partirem para o Ultramar.
A tristeza das famílias que tinham alguém que lá estava ou que lá tinha estado e tinha chegado estropiado quer física quer psicologicamente ou que aí tinha perecido.
O trabalho duro de sol a sol no campo à força de braços e com a ajuda das juntas de bois, a troco do que a terra dava ou de parco pagamento.
A luta constante para se terem recursos para saciar a fome e a necessidade de todos, desde tenra idade colaborarem para o sustento familiar.
Os casebres de pedra e as estradas intransitáveis, uma indústria com operários a trabalhar doze horas por dia.
A necessidade de se emigrar a salto para França para “fugir ao serviço militar” ou à procura de dar melhor futuro à família.
As deslocações dentro do país para a Borda d´Água, sazonalmente onde se trabalhava de sol a sol pela permuta dum valor pecuniário negociado por cada angariador, e onde os alojamentos não tinham quaisquer condições.
A formação académica chegava a muito poucos, eramos maioritariamente um país de analfabetos.
As notícias difundidas pelos órgãos de comunicação apenas refletiam o que a censura permitia, para se poder sair fora da caixa e saber algo mais do que se passava no país e no mundo, havia a necessidade de escutar os chamados rádio pirata pela calada da noite e sempre com a preocupação de que se alguém viesse a saber, corria-se o risco de ser denunciado, torturado, preso ou exilado, pois havia uma polícia política, com informadores em toda a parte.
A mulher vivia totalmente dependente do homem, pai ou marido.
A maioria dos partos decorriam em casa e eram assistidos por parteiras sem qualquer formação, o que acarretava problemas de saúde quer para as mães quer para os recém-nascidos. As “creches” eram improvisadas nos locais onde os pais e familiares laboravam.
Com o passar dos dias tomava-se consciência do que realmente estava em movimento, percebe-se que aquela manhã trazia a esperança e a confiança, que o grito de revolta dos capitães de Abril, onde se destaca Salgueiro Maia, cuja pretensão inicial era terminar com a guerra do Ultramar, se desenvolveu para além desse desiderato caminhando para uma revolução que nos trouxe a liberdade e a democracia.
Chegados aos dias de hoje, temos e devemos continuar a respeitar os valores de abril transmitindo-os às novas gerações que não podem esquecer a história e nas quais depositamos a nossa total confiança, para todos termos um futuro melhor.
Temos de continuar abril lutando contra a xenofobia, o racismo, a homofobia os populismos, a corrupção, o medo e o ódio. Temos de acompanhar os novos tempos com o desenvolvimento de novas tecnologias, apostando na inovação e na qualidade como pilares de crescimento sustentado objetivando uma cobertura total de rede móvel e internet de última geração, apostando na inteligência artificial para o desenvolvimento dos organismos e empresas, públicos e privados.
Temos de continuar abril criando condições para que os nossos jovens não tenham de procurar a sua estabilidade noutros países, mas sim onde têm raízes, onde têm os seus interesses e onde querem constituir família e viver apoiados e acarinhados.
Temos que lhe proporcionar um crescimento sustentável de longo prazo que lhe permita responder aos desafios da dupla transição, climática e digital.
Temos de continuar abril com melhor ambiente, saúde, emprego, educação, justiça e apoio social alicerçados numa economia sustentável onde o desemprego terá de tender para zero e onde temos de promover a autonomia das famílias, a integração social dos nossos idosos promovendo o seu bem-estar e independência.
Temos de continuar abril contribuindo para que todos nós tenhamos liberdade e que continuemos a viver em democracia, pois acabados de sair da pandemia cujos efeitos psicológicos negativos ainda se fazem sentir e durante a qual prescindimos da nossa liberdade individual em prol de um bem coletivo, a saúde. Estamos de forma segura a regressar à normalidade, apesar desta, no entanto, não estar isenta de sobressaltos.
Estalou a guerra na Ucrânia em pleno coração da Europa e traz-nos o fantasma de todos os perigos que lhe estão subjacentes nomeadamente as consequências devastadoras no plano humanitário, económico e social, os refugiados, o aumento dos preços nos produtos de primeira necessidade e seu abastecimento, o aumento da inflação e dos juros.
Mas as preocupações também se estendem à política, um ano após o país viver com um governo de maioria absoluta estamos no caminho do colapso social, continuamos sem ver a luz ao fundo do túnel no que concerne a justiça, saúde, educação ação social e emprego, a somar a isto ainda os sucessivos escândalos perpetrados por destacadas figuras da governação, o que cria uma cada vez maior desconfiança nas instituições do estado e na sua autoridade.
A bancada do PPD PSD CDS PP “Unir pela Mudança”, continua na oposição, assim quiseram os eleitores, a nossa postura tem sido e será sempre de seriedade, responsabilidade, atenção e sentido crítico à gestão deste executivo e estaremos atentos também ao que se passa no mundo, no país e no concelho, sempre focados no bem estar e felicidade de todos.
Temos feito e assim continuaremos a fazer as nossas intervenções e propostas de forma construtiva, com o objetivo de beneficiar todos os nossos munícipes, pois só assim cumpriremos os valores de abril.
O nosso Concelho predominantemente agrícola, muito tem sofrido com catástrofes naturais e ultimamente com a seca, com as cicatrizes deixadas pela pandemia e com as consequências da guerra na Ucrânia, os preços dos produtos necessários à sua atividade, combustíveis, energia elétrica, sementes e químicos dispararam de forma brutal o que muito contribui para o desequilíbrio dos orçamentos dos nossos agricultores e das nossas famílias.
Temos de pugnar por um Concelho com menor carga fiscal, onde as empresas e as pessoas se fixem e desenvolvam as suas atividades e que aqui gostem de viver. Onde as Juntas de Freguesia e Associações que desenvolvem o nosso ADN, sejam verdadeiramente apoiadas e acompanhadas.
O nosso Concelho necessita de medidas urgentes e com urgência: vias de comunicação degradadas, a EN 111 que é uma via estruturante do concelho e está descurada, as denominadas estradas do campo a f**arem intransitáveis onde se vão fazendo remendos quando se devia tomar medidas para a sua total manutenção.
Na área da saúde, acompanhamos o panorama nacional e como tal temos graves falhas no que respeita às extensões de saúde, umas fechadas outras sem médicos ou sem pessoal administrativo o que leva a que para aceder a uma consulta de rotina se espere meses, levando muitas das vezes o doente a recorrer ao privado, caso tenha capacidade financeira para tal.
No tocante à Educação, mercê dos atropelos a que os professores têm sido sujeitos, nomeadamente na degradação do seu estatuto social, tem contribuído para um elevado absentismo e a somar, falta de assistentes operacionais o que penaliza fortemente os alunos.
As prometidas intervenções no Rio Mondego para atenuar as cheias, anunciadas pelo Sr. Ministro do Ambiente e da Ação Climática, quando visitou o nosso Concelho em 2019, a realizar no âmbito do Aproveitamento Hidráulico do Mondego e seus afluentes, com uma proposta de investimento de mais de 30 milhões de euros, continuam por se materializar.
A ABMG, empresa intermunicipal das águas e saneamento, criada para se recorrer a fundos comunitários e que em vez disso, demonstra cada vez mais dificuldades tendo de viver recorrendo à banca e às transferências financeiras dos municípios seus constituintes para equilibrar as contas.
E falando em fundos comunitários aguardamos com expetativa o desenvolvimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para sabermos se o nosso Concelho não f**a à margem das reformas e investimentos destinados a repor o crescimento económico sustentado.
Compete-nos a todos nós com responsabilidades políticas, não deixar ninguém para trás, temos de respeitar os princípios e valores de abril, temos a obrigação de tomarmos as opções estratégias necessárias para termos uma sociedade mais próspera e mais justa, onde todos possamos ser felizes.
Na comemoração deste dia, e no contexto dos valores sociais que representa enquanto guia que orienta a nossa vida, termino com as palavras proferidas por Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril de 1974 na Parada da Escola Prática de Cavalaria - Santarém
"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e f**a aqui."
Sejamos todos voluntários responsáveis e façamos a nossa parte para a manutenção da liberdade e da democracia.
Viva o 25 de Abril!
Viva Montemor-o-Velho!
Viva Portugal!"
Vereador Carlos Rodrigues