21/08/2025
UM DESASTRE COMUNICACIONAL EM DEZ PASSOS
✍️ Rui Rocha, no Público
1.º As férias
As imagens de um primeiro-ministro refastelado na praia, de férias, enquanto o país ardia há já várias semanas foram um erro crasso. O primeiro-ministro não deve estar no teatro das operações, mas deve estar no comando político, suspendendo as férias quando o país enfrenta uma situação de calamidade.
2.º O jantar com Marcelo
A imagem do Presidente da República e do Primeiro-ministro a beber cervejas numa esplanada reforçaram a perceção de alheamento da realidade de ambos. Num país consumido pelos incêndios, a reunião não podia assemelhar-se a uma patuscada entre dois amigos. Aos dois faltou sentido de Estado.
3.º A festa do Pontal
O próprio nome do evento deveria ter alertado para o tremendo tiro no pé que seria insistir numa festa enquanto as televisões transmitiam imagens de labaredas. Não se festeja com parte do país em sofrimento.
4.º O início do discurso do Pontal
Péssimo, procurando vitimização e tentando culpar as televisões por estrem a pôr lado a lado as imagens do incêndio e as imagens da folia. As televisões não inventaram os dois factos. Ambos estavam a acontecer em simultâneo.
5.º O anúncio do regresso da Fórmula 1
Se o início foi péssimo, o que se seguiu não foi melhor. Lembram-se do episódio em que António Costa afirmou que a final da Liga dos Campeões seria uma recompensa para os profissionais de saúde? Pois. Esteve ao mesmo nível de desconexão da realidade.
6.º O atraso no pedido de auxílio à Europa
Ninguém entende que umas horas antes do Pontal não houvesse motivo para o pedido de auxílio e umas horas depois esse pedido tivesse sido formalizado. Ninguém entende porque o Governo foi incapaz de explicar o que mudou de um momento para o outro, dando ideia de que foi preciso esperar pelo fim da festa para pedir ajuda.
7.º A ida à Proteção Civil
Numa situação de calamidade, a comunicação não pode ser feita por um secretário de Estado na presença da ministra. E a comunicação não poderia f**ar a cargo da ministra na presença do primeiro-ministro. A liderança política assume-se nos momentos difíceis, não é matéria técnica de um secretário de Estado.
8.º A conferência de imprensa sem direito a perguntas
O que parece é. Se um ministro não permite perguntas é porque não está preparado ou não quer responder. Se não está preparado para responder ou não o quer fazer, não está em condições de exercer as suas funções.
9.º O “vamos embora”
É possível tornar ainda pior o sinal de fragilidade dado por uma conferência de imprensa sem perguntas? É. Terminando a conferência de imprensa em registo de fuga.
10.º O “estamos todos esgotados”
A cereja no topo do bolo do desastre comunicacional. Percebe-se a necessidade do primeiro-ministro de mostrar empatia e de se incluir no sofrimento coletivo, mas é impossível incluir-se no grupo dos que estão esgotados depois das imagens das férias, da jantarada com Marcelo Rebelo de Sousa, da festa do Pontal e dos anúncios da Fórmula 1.
O apuramento sobre as responsabilidades da calamidade que atingiu o país ainda terá de ser feito e a dimensão das tragédias pessoais, sendo já relevante, está muito longe do que aconteceu em 2017. No entanto, já é possível afirmar que não se via tamanho alheamento da realidade, uma desconexão tão grande com as pessoas, um desastre comunicacional deste calibre desde o ano mais trágico dos fogos florestais em Portugal.
👉 No Público: https://www.publico.pt/.../desastre-comunicacional-dez...