Armada no Coração

Armada no Coração Um lugar em que todos os que prestaram e prestam serviço na Armada Portuguesa, bem como, os que por Memórias da Marinha e dos seus Homens

03/01/2026
03/01/2026

Bom dia

Bom dia Cagarrada bom ano para aqueles que ainda não tinha cumprimentado
03/01/2026

Bom dia Cagarrada bom ano para aqueles que ainda não tinha cumprimentado

16/12/2025

CONTO DE NATAL
ANOS 60, A BORDO DUMA FRAGATA A V***R
Tínhamos largado da base, no dia 22 de Dezembro, para uma missão inopinada, com regresso previsto para o dia 24. Mas a missão prolongou-se e só viemos a entrar no dia 26.
Na tarde de 24, a azáfama entusiasmante era grande para todos aqueles que tinham saído de quarto ao meio-dia:
Na oficina de máquinas, dois artistas, anunciadores da arte de Joana de Vasconcelos, construíam a árvore de Natal, com ferros velhos, fios de apara do torno-mecânico e desenhos recortados, de uma velha folha-de-flandres, com carrinhos, comboios, estrelas…;
Os sinaleiros decoravam as anteparas, já cansativas do verde-ervilha, com as bandeiras do código de sinais;
Os electristas, com as lâmpadas da iluminação de gala engalanavam, em arraial, o refeitório;
Na cozinha, os cozinheiros e o padeiro esmeravam-se, fazendo milagres com o pouco que tinham.
A bagalhoça (1) que se fazia sentir desde a saída, com o cair da noite começou a abrandar, tornando-se numa noite de calmaria de lua cheia, mercê da arte do Comandante e do seu “Pêro de Alenquer,” o navegador, OU PELA MAGIA DA NOITE NATALÍCIA.
Já sentados, para a noite de consoada, os que tinham “noite de paquete” (2) envergaram o uniforme 3B (3).
O Comandante, homem normalmente muito reservado, contava histórias pitorescas da sua comissão na Índia, quando 2º Tenente, contrastando com o Imediato, sempre muito falador e expansivo que mantinha apenas o seu sorriso envaidecido e orgulhoso com o desempenho natalício da sua guarnição, na maior parte, jovens, muito jovens que nunca tinham sido meninos. Alguns deles, prestes a irem para a guerra, onde o Natal é apenas feito de esperança, sem árvore de Natal decorada com carrinhos, comboios e estrela anunciadora, recortadas de uma velha folha-de-flandres.
Cantámos canções de Natal, intercaladas com um ou outro fado sempre com as saudades de Lisboa.
O Sargento Artilheiro, Ventura, do alto do seu metro e noventa, declamou poesia, com o seu vozeirão bem colocado.
Falámos dos usos e costumes das terras de cada um.
O mais pequenote, com feições a lembrar ainda as de menino, ao sair de quarto, à meia-noite, surpreendeu-nos, qual estrela anunciadora, ao entrar no refeitório, com o corpo e o cabelo ainda a escorrer da chuveirada, rápida, porque num navio a v***r a aguada é um bem precioso e propulsivo, envergando apenas a toalha da ordem a fazer de fralda, com alto choro de bebe, “JÁ NASCI! JÁ NASCI!” Tendo-lhe valido a alcunha de “Menino Jesus” por umas boas décadas.
A consoada prolongou-se até às cinco horas da manhã, de modo a possibilitar a todos que, iam saindo de serviço, tivessem a sua noite de natal.
Todos tiveram um presente individual de natal com duas quadras rimadas e bem-humoradas, elaboradas por um descendente de Bocage.
Só não houve missa do galo, por não termos a bordo nenhum Capelão. Também eles muito envolvidos na guerra e no sofrimento.
Obrigado, Camaradas por essa noite de MAGIA INESQUECÍVEL.
………….
Texto de contracapa: Como quase todos os Contos de Natal são apenas fruto das imaginações férteis, natalícias dos seus autores, este também não foge à regra, até porque nunca naveguei numa Noite de Consoada. Mas se tivesse acontecido tinha sido assim, com mais ou menos vírgulas.

TENHAM UM BOM E FELIZ NATAL, quer a navegar, atracados ou em terra firme. E aqueles e aquelas que vivem perto do mar, olhem-no e tenham um pensamento para com todos aqueles que nele navegam, porque há homens e mulheres para tudo, até para navegar numa NOITE DE CONSOADA.
Tenham, também, um pensamento, uma reflexão, para com todos aqueles, por esse mundo fora, em que NATAL é, ainda apenas, sinónimo de ESPERANÇA, ESPERANDO A ESTRELA ANUNCIADORA DE UM BEBE CHORÃO, porque os reis, ofuscados pelo ouro, não a enxergam nem a querem ver.

Notas de rodapé:
(1) “Bagalhoça”: mar encrespado, alteroso.
(2) “Noite de paquete”: Folga entre o quarto da meia-noite até às 4 da manhã e o quarto seguinte, quarto da alva.
(3) “3B”: Uniforme de saída de licença, de passeio.
Obrigado a todos pela vossa paciência da leitura até ao fim. BEM-HAJAM!

DEAMBULANDO PELA POESIALisboa de marinheiros de partidas e chegadas, de partidas de saudades e de chegadas felizes.Lisbo...
21/10/2025

DEAMBULANDO PELA POESIA
Lisboa de marinheiros de partidas e chegadas, de partidas de saudades e de chegadas felizes.
Lisboa cidade de Amália do seu Amor Marinheiro e do seu Abandonado dos que lutavam todos os dias.
Lisboa de Carlos do Carmo que a eternizou com as suas Canoas do Tejo.
Lisboa de Mariema com o seu fado Lisboa.
Lisboa, da trova do Vento que Passa e o vento nada me diz como vai o meu país… de Manuel Alegre,
Lisboa de Pessoa com as ondas a invadirem as ruas, trazendo na espuma toda a poesia arrastando consigo o sal do mar para temperar os sonetos e alcaxas de fado.
Lisboa da boémia de noite sem dia.
Lisboa, hoje, perdeu parte da sua poesia com ondas de turistas que rebentam a cada esquina.
Lisboa minha velha Lisboa, menina e moça com o Tejo a seus pés…

Carta para o Padre CALM Manuel da Costa Amorim.Padre e meu professor, aqui estou eu, após quase  um ano (16 de outubro) ...
10/10/2025

Carta para o Padre CALM Manuel da Costa Amorim.
Padre e meu professor, aqui estou eu, após quase um ano (16 de outubro) em que nos deixaste, mais pobres, ainda jovem, com algumas simples recordações:
Da tua janela aberta de par em par deixando passar para, a ainda, escura, parada, a luz da solidariedade e camaradagem, como a dizer-nos para entrarmos, porque havia ali sempre uma mão disposta a ajudar, nos dias de Inverno, com a manhã, preguiçosa em chegar, faltosa ao toque da alvorada, quando chegávamos à Escola Naval;
Das duras futeboladas, com as sarrafadas que nos davas e que também sofrias;
Dos bofes a saírem-nos pela boca para te podermos acompanhar, nos crosses matinais;
Das tuas aulas na difícil cadeira de Arte de Comando;
Do teu sorriso sempre rasgado para toda a gente;
Do teu aperto de mão vigoroso;
Dos teus imensos filhos jovens cadetes, dos quais nós, pela nossa idade, éramos, também de algum modo, seus tios o que faz de nós irmãos, da tua (nossa) imensa e querida família naval;
Do teu empenho nas obras de restauro da igreja da Memória e a constituição de uma verdadeira comunidade de vida e de fé à volta da Capela da Base Naval do Alfeite;
Do jardim circundante à capela onde despido das tuas insígnias de Almirante, já doente, desbravavas terreno para cultivares flores, como cultivavas a fé
e da tua alegria e empenho quando embarcavas na Sagres para mais uma viagem de instrução, com os teus alunos cadetes...
Sei que o resultado deste teste irá para a pauta com uns treze valores, porque és exigente, com os teus alunos, tal como foi o resultado do teste que nos desafiaste, com uma simples questão: “Comente a Carta a Garcia”, mas sei que no teu humanismo, da Paz e do Amor entre os Homens e no teu íntimo me darás um vinte (f**a só entre nós)
Obrigado, por tudo, Padre! Obrigado, por tudo, Sr. Almirante Capelão Costa Amorim.
Seu aluno do CFOT – 1993/95

O SARGENTO BORGES «Como é diferente o amor em Portugal!» (da obra literária A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas) que eu...
02/10/2025

O SARGENTO BORGES
«Como é diferente o amor em Portugal!» (da obra literária A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas) que eu, ontem, na minha consulta de neurocirurgia, apeteceu-me fazer o trocadilho para: Como são diferentes as relações entre velhos e novos em Portugal!
Passo a explicar: em 1971, então ainda com 23 anos, fui render o Sargento Ajudante, Borges, que passava à reforma por limite de idade – 70 anos – no cargo da Central eléctrica, que fornecia corrente aos navios da Marinha, na doca de Ponta Delgada. A rendição durou cerca de um mês, por ser muito trabalhosa. Durante esse tempo, eu ia «bebendo» de toda a experiência técnica e de todos os conselhos do Borges, assim como todas as histórias que me ia contando das peripécias da sua vida, e de todos os seus encontros e desencontros amorosos, sempre com um muito apurado sentido de humor, onde, por vezes, mais parecíamos dois «putos» por aquilo que nos ríamos.
Quando ele ia ao médico de sempre, antigo camarada de armas, Dr. Rui Cunha – Médico Naval na 2.ª Guerra Mundial, onde tinha salvo muitas vidas de doentes estropiados pela guerra e que aportavam ao porto de Ponta Delgada –, o bom do médico, ao saber da consulta do Borges, dava logo ordens à sua enfermeira para não aceitar mais doentes para essa tarde. Assim, os dois passavam horas no consultório a rirem-se a bandeiras despregadas das suas histórias e das explicações das maleitas do Borges, sempre com analogias ao comportamento de uma máquina térmica.
O bom do Borges morreu com mais de noventa anos, e mantivemos amizade pelo resto da vida, trocando correspondência quase mensal.

Na foto, almoço de há três anos de militares que fizeram parte das guarnições dos Patrulhas na década de 70.

A PALAVRA DA MINHA VIDATodos nós temos um filme da nossa vida, um tema musical, uma canção ou um livro. Eu também tenho....
28/09/2025

A PALAVRA DA MINHA VIDA

Todos nós temos um filme da nossa vida, um tema musical, uma canção ou um livro. Eu também tenho. E tenho também uma palavra: JUDICIOSO. Não tem som bonito, nem grande signif**ado, e não é uma palavra difícil, mas aconteceu e passo a contar-lhes:
Em Maio de 1967, no estágio final do meu curso de máquinas, um, dois, três no máximo, éramos distribuídos por navio, dos que estavam operacionais. A mim, «como dançava sempre com a mais feia», lá fui sozinho para um draga-minas costeiro, o que impedia a troca de pareceres e a entreajuda, por ter sido a classe de navios menos estudada. Avisados pela Escola para, no relatório, sermos clarinhos como água para militar perceber, sem floreados, e que não aceitariam qualquer expressão e muito menos qualquer termo técnico que não fosse na nossa língua, lá fomos.
Entre navegações, nas poucas horas restantes, fui elaborando o pesado relatório, baseado nos conhecimentos adquiridos na Escola, no navio e em toda a documentação técnica e manuais facilitados pelo Engenheiro, todos em língua inglesa americanizada. No manual dos vários circuitos de ar comprimido, leio: «judicious behaviour».
De princípio, achei estranha a aplicação do vocábulo «judicioso», fui consultar o dicionário da biblioteca do navio e lá estava um dos seus signif**ados: «que procede em acerto». Como a utilização do termo referia-se ao funcionamento combinado de três válvulas electro-pneumáticas, na passagem de comandos da casa da máquina para a ponte e vice-versa, dei razão ao técnico americano e eu, vaidoso, a querer fazer um figurão, escrevi: «(…) o comportamento judicioso entre as três válvulas possibilita (…)».
Dois dias antes de desembarcar, por deferência, entreguei o relatório manuscrito ao jovem Engenheiro do navio, na altura ele era simultaneamente aluno no Instituto Superior Técnico, a frequentar duas ou três cadeiras para ser reconhecido pela Ordem dos Engenheiros, por falta de protocolo entre a Escola Naval com o Ministério e com a Ordem dos Engenheiros. Depois de ele o ler, eu fiquei com a esperança de ter alguma ajuda sobre uma ou outra incorrecção técnica cometida, mas os Engenheiros dos navios tinham sido avisados pela Escola de Máquinas para não haver qualquer ajuda aos alunos. Apenas afinou comigo pela utilização do vocábulo «judicioso». Deixou-me desconfortável, mas, como aluno disciplinado, agradeci-lhe e prometi-lhe que iria manuscrever de novo a folha A4, retirando-lhe a expressão, até porque a seguir descrevia, passo a passo, o funcionamento das válvulas.
Daí por diante, tenho perseguido sempre a palavra, mas tem sido raro encontrá-la nalgum documento, técnico ou não, e só duas vezes encontrei a sua utilização com o mesmo signif**ado que o técnico americano lhe quis dar.
Hoje, nós, figurões, internacionalistas da invasão de palavras de outros dicionários, usamos e abusamos de estrangeirismos, esvaziando o nosso dicionário de muitas palavras e esvaziando o interesse na sua consulta. Melhor seria se nos tornássemos mais internacionalistas na luta pelo meio ambiente, contra as alterações climáticas, pela Amazónia, contra a ganância, contra aquele louco que por lá impera com o seu pequeno dicionário de palavras estranhas, impercebíveis. Mais internacionalistas a favor dos povos de Jorge Amado e de Ferreira de Castro, mais internacionalistas na luta pela Paz em todo o mundo ou se preferirem: «Peace».
Por mim, prefiro PAZ, porque é uma palavra muito bonita, de efeito calmante, e que poderia ser a palavra da minha vida, não fosse a outra, a perseguida.
Nunca mais soube do Engenheiro, mas gostava de estar com ele. Para nos rirmos. Para ele se rir da palavra da minha vida: Judicioso.

UM HOMEM SIMPLESConheci-o quando do meu primeiro embarque no contratorpedeiro Vouga. Ele Sargento-ajudante, Mestre de má...
27/09/2025

UM HOMEM SIMPLES
Conheci-o quando do meu primeiro embarque no contratorpedeiro Vouga. Ele Sargento-ajudante, Mestre de máquinas do navio e eu 2º grumete voluntário. Ele concorria para a escala dos engenheiros na assistência à propulsão e eu de “chegador” às casas das caldeiras Ele com 35 anos e eu com 17.
Encontrávamo-nos, com frequência, depois do almoço antes da formatura para serviços, na quietude da casa das máquinas principais, quando o navio estava atracado ou na maior parte das vezes fundeado ou amarrado à boia no mar da “palha.” Ele para fugir ao ruído do eletrogéneo a Diesel a EB com antepara comum à câmara de Sargentos e eu para fugir à vozearia da pequena coberta do fogo (alojamento do pessoal da máquina) que acomodava mais de 20 homens, para ambos podermos estudar: ele a preparar-se para os exames de admissão ao 1º curso de Oficiais do Serviço Especial encontrando-se na idade limite da admissibilidade e eu a preparar-me para o curso de máquinas de acesso à classe de Sargentos ou para concorrer ao Instituto Industrial. Ainda não tinha decidido. Um dia levava comigo um caderno liceal de exercícios de Química e ele perguntou-me como estava com a Química tendo-lhe respondido que tinha sido a matéria da Escola Industrial que mais tinha gostado e então perguntou-me se lhe poderia dar explicações porque ele estava muito esquecido.
- Claro que sim, Senhor Mestre.
Alardeou no seio dos Sargentos e dos Oficiais que eu era o seu explicador de Química, de tal maneira que o jovem Guarda-marinha Laranjeiro, Engenheiro, desempenhando as funções de segundo de máquinas do navio, cedeu-nos o seu camarote na ainda maior quietude da popa.
As minhas explicações limitaram-se a fazer-lhe recordar os conceitos básicos e a acompanhá-lo nos exercícios deixando que a sua boa inteligência o ajudasse a levar a carta a Garcia. Creio que teve boa nota.
Só dez anos depois nos viemos a encontrar numa Assembleia do MFA, ele Capitão-tenente e eu 1º Sargento. Veio dar-me um grande abraço como a querer abraçar por inteiro o POVO PORTUGUÊS.
Até sempre, Comandante Mendonça!
Até sempre, CAMARADAS!

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A história agora contada parece ser banal, de pouca importância, mas aqueles que viveram aqueles tempos de vida militar dura, com guerra e com uma hierarquia muito rígida, saberão dar-lhe o justo valor.

O Engenheiro Laranjeiro na sua curta vida – já faleceu vai para mais de quarenta anos – manteve sempre um bom relacionamento com Praças e Sargentos, dada a sua boa capacidade de liderança. Com alguns manteve mesmo amizade pessoal e familiar.
Foi o primeiro Engenheiro a chefiar o Serviço de Combate à Poluição no Mar por Hidrocarbonetos, levando-lhe alta tecnologia de saberes químicos e outros, com aquisição dos melhores equipamentos existentes.

O NAVIODedico este pequeno texto aos meus amigos que de água salgada sabem apenas daquela que rebenta nas praias, de pre...
26/09/2025

O NAVIO

Dedico este pequeno texto aos meus amigos que de água salgada sabem apenas daquela que rebenta nas praias, de preferência do Sul, por serem mais quentinhas. Perguntarão eles o que fazem dezenas de marujos empoleirados num navio durante dias e meses O NAVIO
Ora, um navio é uma pequena cidade flutuante que se auto movimenta com sentido de orientação e onde existem todos os serviços que uma cidade pode comportar. Assim temos serviços de: administração; logística, com conservação e armazenamento de alimentos; justiça; meteorologia; restauração, com padaria; distribuição de água quente e fria; produção de água doce; tratamento de efluentes e de resíduos sólidos; produção de energia; lavandaria; conforto e bem-estar com climatização; educação física; bombeiros; comunicações; formação; bibliotecas; oficinas de reparações eléctricas e mecânicas; limpeza; manutenção, poder de defesa e de ataque; protecção e desinfeção contra ameaças nucleares, biológicas e químicas; heliportos, para poder receber aeronaves; vigilância e, nalguns casos, com jornal ou rádio de bordo. Tudo isto é servido com uma boa dose de camaradagem e de desenrascanço. Curioso, ou nem tanto, não tem serviço de finanças.
Na admissão de pessoal, a Marinha não coloca nos requisitos um, dois ou três anos de experiência, como vemos às vezes, estupidamente, na oferta de 1.º emprego nos anúncios de admissão de pessoal de muitas empresas. Também os estagiários são remunerados.
P.S.: Às vezes, pergunto-me se o desenrascanço genuíno dos portugueses não vem da experiência secular e aventurosa dos marinheiros portugueses.

O COMANDANTE ALPOIN CALVÃOConheci-o em 1967 a bordo da Diogo Cão que transportava uma companhia de Fuzileiros para a Gui...
21/09/2025

O COMANDANTE ALPOIN CALVÃO
Conheci-o em 1967 a bordo da Diogo Cão que transportava uma companhia de Fuzileiros para a Guiné da qual ele era o Comandante. Ele 1º tenente e eu Cabo Artífice. Ele com 29 anos e eu ia fazer 20 por aqueles dias, fi-los durante essa viagem.
Eu tinha sido nomeado pelo 1º de Máquinas, Engenheiro Gago Lopes para efectuar algumas reparações aos Mercury’s que eles transportavam, o que aproveitava para fazer nos meus quartos de folga durante o dia. No primeiro dia de reparações, o Ten. Alpoim Calvão aparece-me na tolda com meia caixa de cervejas dizendo-me que ia dar-me uma ajuda, ajuda importante pelo menos para colocar os fora-de-borda dentro do bidon de 200 litros o que ele fazia com grande ligeireza, dada a sua força descomunal, em relação à minha de trinca espinhas. Se ele me desse um murro voava pela borda fora.
Ao fim de algum tempo:
- Carvalho, está na hora de molharmos o bico.
E sentávamos lado a lado sobre um cabeço duplo a bebericarmos. Falávamos de tudo um pouco e de mais alguma coisa. Ao fim de algum tempo apercebi-me que estava ali perante um grande Líder, por aquilo que me tinham ensinado no Curso. Se na altura eu pudesse adivinhar um 25 de ABRIL, tal como foi, via-o como um dos militares heróicos, abnegados e generosos. Talvez no lugar do Salgueiro Maia, mas não foi nada disso que aconteceu, como bem sabem, embora tenha sido convidado pelo então Comandante Pinheiro de Azevedo para aderir ao 25 de ABRIL ele respondeu-lhe que concordava com os dois D’s de democratizar e de desenvolver mas não contassem com ele para o D de descolonizar. Estava bem patente ali a sua paixão por África principalmente Pela Guiné, paixão desajustada conta ciclo com a história progressista dos povos. Digo eu. O SER HUMANO É MUITO COMPLEXO.
Quando da nossa chegada à Guiné, fomos desembarcar os Fusos e o material que levavam na muralha de Bissau e de seguida fomos fundear ao largo por motivos de segurança. Tanto na atracação como no fundear mantivemo-nos sempre em faina e como o meu posto era na Máquina 2, não me despedi dele e também nunca mais o vi nem soube dele até à golpada do 11 de Março e da sua fuga rocambolesca para Espanha.
Muitos anos depois, em pleno governo, de má memória, de Passos Coelho, o nosso Camarada, António Dias, Sargento-mor Fuzileiro, homem marcadamente de esquerda, foi-lhe fazer uma visita a casa já com ele bastante doente e como é natural falavam sempre da situação política do país e a certa altura ele diz-lhe:
- É PRECISO FAZER UM NOVO 25 DE ABRIL.
Estaria arrependido? Não sei.
O SER HUMANO É MUITO COMPLEXO!
Até sempre, Comandante, sem ressentimentos de Março.

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Moita
2860

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