27/11/2025
Perdemos a BA 61. O que mais estamos dispostos a perder?
“Ver passar os comboios” é uma expressão que todos reconhecemos. Na Pampilhosa, porém, deixou de ser apenas uma metáfora. Tornou se uma imagem dolorosamente real. Na madrugada de domingo, pouco depois das duas, a locomotiva BA 61 saiu em silêncio da estação onde durante décadas foi um símbolo da nossa identidade ferroviária. A população não soube de nada. E não foi por descuido. Tudo indica que a operação foi preparada ao detalhe para evitar contestação e garantir uma transferência discreta para o Entroncamento, de onde dificilmente regressará.
Esta partida escondida pela noite não é apenas o percurso final de uma máquina.
É o espelho de muitos anos de desinteresse político e de submissão ao poder central. Foi assim no passado e continua a ser assim hoje. Ao longo de vários mandatos, diferentes executivos municipais, quase sempre liderados pelo Partido Socialista, deixaram que a BA 61 se deteriorasse sem qualquer plano real de recuperação. Mas também a oposição falhou ao longo dos anos ao não exigir explicações nem assumir a defesa firme deste património. O abandono acabou por ser coletivo. A locomotiva enferrujou ao mesmo ritmo que a vontade política de a proteger.
Houve um movimento cívico que tentou defender o nosso património ferroviário. Ainda assim, como tantas vezes acontece, alguns viram nesses movimentos uma oportunidade de promoção pessoal em vez de um compromisso verdadeiro com a comunidade. Enquanto tudo isto acontecia, o tempo avançava devagar, quase com a mesma lentidão das antigas locomotivas a v***r, demasiado devagar para quem esperava ação.
É também lamentável perceber como os nossos autarcas continuam a aceitar sem resistência as orientações vindas de Lisboa, sem exigirem compensações que defendam os interesses locais. Durante a campanha autárquica houve momentos de tensão entre candidatos, mas não devemos esquecer que muitos dos protagonistas já ocuparam cargos políticos sob a mesma cor partidária.
Mudam as caras, mas permanece a dependência em relação ao poder central. Por tudo isto, deixo um apelo direto aos munícipes. Participem. Marquem presença nas assembleias municipais e nas assembleias de freguesia, seja presencialmente ou através das transmissões online. Exijam transparência, fiscalização e debate. Só assim, nas próximas eleições, a escolha deixará de ser decidida por quem distribui mais brindes ou promete mais obras. A democracia
local precisa de cidadãos atentos, informados e exigentes.
A BA 61 partiu. Mas a responsabilidade não deve partir com ela. Que este episódio sirva de alerta para que o concelho não continue apenas a ver passar comboios enquanto perde, pouco a pouco, os símbolos que o definem.
Gonçalo Lopes