02/05/2022
DISCURSO DO 25 de ABRIL
Caros concidadãos,
Celebramos o dia 25 de abril de 1974, celebramos hoje uma Revolução.
Foi, na verdade, todo um processo.
O dia 25 de abril foi um golpe militar que teve o mérito de abrir o caminho a uma mudança radical do sistema vigente.
A Ditadura assentava em grande parte no apoio dos militares e só eles tinham o poder de mudar o regime. Oficiais subalternos, curtidos por uma longa guerra colonial, determinados, organizados, plenamente conscientes da sua missão histórica, planearam e executaram brilhantemente uma operação militar. Implicou a movimentação de cerca de 5 mil militares por todo o país.
O que se seguiu é que já não estava nos planos de ninguém.
Esse processo ter-se-á iniciado muito antes, antes mesmo da 1.º reunião do MFA, em 1973, quando se tornou cada vez mais evidente que se formava uma dissonância cada vez mais radical entre os novos tempos e a natureza do regime de Salazar.
Terá terminado, talvez no dia 25 de novembro de 1975, ou em 1976, talvez no dia 2 de abril, com a aprovação da nova Constituição da República, talvez no dia 25 de abril, com as primeiras eleições legislativas, talvez no dia 27, com a eleição de António Ramalho Eanes como Presidente da República, ou com a tomada de posse do 1.º governo constitucional.
Os que viveram esse período sabem que foi um tempo muito rico de acontecimentos, efervescente, exaltante para muitos.
É cada vez mais difícil explicar às pessoas que não o viveram que aquilo que se conta hoje sobre a Revolução f**a sempre muito aquém da vivência que Portugal experimentou durante a convulsão daqueles dias.
A memória falha muito. Está estudado que a memória é de pouca confiança e adultera-se com a passagem do tempo. Passados quase 50 anos exige-se mais História-ciência.
Se repararem, quando há uma mudança de regime algures, a primeira coisa que muda na escola é o programa de História. Recorda quem frequentou a 4.ª classe antes do 25 de abril que a História que se aprendia então soava ao que era: pura manipulação ideológica, no meio de verdades, meias mentiras e completas efabulações.
Assistimos há pouco tempo a algo semelhante quando Putin fez aquela alocução em que justificou a invasão da Ucrânia. Foi verdadeiramente um momento orwelliano.
George Orwell foi um autor inglês que escreveu, entre outras obras, a distopia 1984. Nele antecipava um mundo dominado por uma ditadura totalitária. Um dos vários instrumentos que usava era a manipulação da memória coletiva, cujo relato dos factos ia mudando conforme as conveniências estratégicas do governo.
No nosso regime democrático, a História que se aprende também está sujeito a muitas tentativas de manipulação.
Na verdade, veicula-se nos meios de comunicação factos tidos como históricos que mais não são do que ficções. É impressionante como a propaganda se sobrepõe ao conhecimento histórico e entra no discurso oficial que se assiste nas televisões e se lê nos jornais.
As comemorações dos 50 anos do 25 de abril corre o risco de vir a ser um desses momentos de pura manipulação, o que é pena, porque se poderia aproveitar para clarif**ar bastante uma boa parte dos acontecimentos do processo revolucionário.
De qualquer forma, uma nova geração de historiadores, mais descomprometida, com recurso a novas formas de análise, tem dado novas perspetivas interessantes à História do século XX.
A memória coletiva é um elemento fundamental da identidade de um povo. Uma sociedade democrática tem o dever de debater a sua História de uma forma diferente daquela que se pratica nos regimes autoritários ou entre os grupos de fanáticos que por aí pululam.
Da mesma forma que vimos a democracia a funcionar numa pandemia, confiando na ciência, apesar das hesitações, do medo e da desinformação, também devemos ser exigentes para com o desenvolvimento do conhecimento histórico, como forma de construir uma consciência da nossa entidade coletiva de forma esclarecida. Percebemos nos últimos dois anos da importância da verdade na mobilização da população em torno de uma causa comum.
A verdade é uma das bases da democracia.