Topias Urbanas é um projecto duracional situado (Nov.2016-Set. 2017), que parte do contexto (da situação) em que se desenvolve, antes de mais da relação com o território em que actua, Chelas e Vale de Chelas; tendo em conta a posição a partir da qual age, enquanto projecto de investigação artística que emerge do convite de uma instituição cultural pública, o Teatro Maria Matos. O vasto pedaço de c
idade com que o projecto se relaciona localiza-se na proximidade do Bairro de Alvalade, onde fica o teatro. Contudo, simultaneamente está-lhe imensamente distanciado: é separado do tecido urbano de Lisboa por uma série de fronteiras geográficas, sociais, culturais, simbólicas; sendo muitas vezes imaginado por quem não o habita como periferia ou ilha no tecido de Lisboa. A urbanização deste território transformou-o num arquipélago de bairros de habitação social até agora separados social e culturalmente do tecido da cidade. As representações dominantes destes bairros criaram imagens distópicas apresentando-os como enclaves de risco, territórios associados tanto à violência e criminalidade como à pobreza e exclusão social. Imagens distantes e distorcidas que tornam invisível a heterogeneidade e potencialidade desta grande área de Lisboa e daqueles que a habitam. Entendemos o espaço como uma complexa teia de relações que continuamente se entretece; fruto de uma multiplicidade de gestos quotidianos que se intersectam, justapõem e contrapõem; e da sua articulação variável com geometrias alargadas de forças diferenciadas. Como se concretiza, em cada lugar, o desafio da coexistência que todos os espaços nos colocam? Como podem o uso e a habitação fazer das condicionantes com que nos confrontam, condições? Por outro lado, como somos afectados por esse espaço que nos interpela? O espaço é de facto o locus do político. Por isso as imaginações sociais e políticas têm sido recorrentemente associadas à imaginação de espacialidades específicas: utopia, distopia, heterotopia, a tríade de topias que emergiu em relação de tensão. Tríade que o projecto recupera, repensando as suas significações e questionando a sua potência. Não tanto o discurso da Utopia como idealização abstracta e totalizante do espaço social, modelo que quando concretizado conduziu várias vezes a distopias associadas a formas de controlo e classificação do espaço e do tempo, dos corpos e das suas relações afectivas e políticas. No entanto, interessa o facto destes projectos de controlo terem sempre sido desobedecidos ou ignorados pela emergência de Heterotopias, súbitas inversões da ordem imposta sobre o território em que o espaço e o tempo, incorporando a potência da abertura e transformação, adquirem a qualidade de limiares. O que Topias Urbanas propõe então é resgatar a noção de Utopia como força múltipla para uma reinvenção do espaço através do fazer situado, contingente e inacabado. Já não Utopia no singular, mas utopias activas, práticas que introduzem brechas no presente através das quais outros futuros podem ser imaginados. Partindo de um conjunto de práticas para a escuta e (re)conhecimento de Chelas, Topias Urbanas tem vindo a ensaiar, em colaboração com os seus habitantes, mapear colectivamente aquele território. Explorando como nele se concretiza o desafio da coexistência que todos os espaços nos colocam, como se relaciona com o resto da cidade, os indícios nele manifestos de geografias e histórias alargadas, desdobrando memórias e desejos dos seus habitantes. Como objectivo, o desejo de contrapor às representações habituais destes bairros, o encontro com as práticas, as formas de convivência e coabitação, necessariamente dissensuais, que o compõem. Mais ainda, a vontade de encontrar, em conjunto com os seu habitantes, formas reconfigurar e valorizar os espaços e momentos heterotópicos que já lá estão, em Utopias Activas que abram brechas para a (re)imaginação de formas de estar e habitar outras. Topias Urbanas culminará em Setembro de 2017, num evento com a duração de três dias, com a apresentação de um conjunto de percursos experienciais para um encontro micro-performativo com os bairros, integrando caminhadas mais ou menos guiadas pautadas por uma dimensão de jogo; instalações urbanas, performances, projecções de vídeo, instalações sonoras, e um conjunto de encontros e conversas. Joana Braga
Ficha técnica
Ficha artística:
Curadoria e Coordenação de projeto: Joana Braga
Criação: Ana Riscado, Joana Braga, Sofia Borges
Pesquisa de campo: Ana Riscado, António Brito Guterres, Joana Braga, Sofia Borges
Design: Inês Veiga
Assistência vídeo: Marianna Vas
Produção executiva: Ana Riscado, Joana Braga
Desenho Inicial: Fernanda Eugénio e Joana Braga
Curadoria e Coordenação de projeto de Novembro 2016 a Fevereiro 2017: Fernanda Eugénio e Joana Braga
Colaboração na pesquisa de campo e co-criação de Novembro a Dezembro 2016: Ana Dinger, Inês Veiga
produção: Topias Urbanas, AND Associação de Arte e Pesquisa, Maria Matos Teatro Municipal
apresentação no âmbito da rede Create to Connect com o apoio do Programa Cultura da União Europeia
Agradecimentos: Associação de Moradores do Bairro Marquês de Abrantes, Biblioteca de Marvila, Centro de Promoção Social da PRODAC SCML, Rancho Folclórico de Cinfães, Adriano, Aníbal, Eugénio, Fábio André, Fátima, Filipe, Gracinda Dias, Idálio, Iuri Pinheiro, João Pedro, José Fonseca, Lena, Mafalda, Manuel Ferreira, Marco, Miguel Carneiro, Octávio, Paulo Flor, Pedro Dias Silva, Samuel Silva, Vítor.