12/06/2026
Direito a ter tempo
O Grupo Cultural e Desportivo de Armil completou 48 anos no último dia 6 de junho. São 48 anos onde o espírito de comunidade e a dedicação das diferentes Direções, associados e amigos fizeram parte da educação de muitos jovens, e menos jovens, de Armil. Em nome do P*P, aproveito para parabenizar este projeto, filho de Abril, que carrega em si os valores do associativismo popular, apaixonado e intergeracional. Um projeto que enriquece a freguesia e o concelho, provando que o associativismo é ator principal de um futuro melhor que se vai escrevendo todos os dias.
Celebraram o aniversário organizando a 4.ª edição do Armil Cup. O torneio de futebol contou com quase duas centenas de atletas e viu passar largas centenas de visitantes, familiares e amigos. Ali se testemunhou a verdadeira dinâmica do GCD de Armil, com dezenas de pessoas envolvidas na organização, desde o responsável pelo grelhador ao do lanche dos atletas, passando pelo insuflável, pelo bar, pelas fotos, pela publicação dos resultados e pela entrega de prémios. Todos contavam. Quando existe tal envolvência, o resultado não poderia ser outro. Um torneio com uma qualidade brutal, que tem vindo a ser aprimorada de ano para ano.
Este ano, mesmo enfrentando um constrangimento gigante devido aos problemas no seu campo de jogos, a organização avançou, num ato de pura persistência, para o campo do Silvares. Nada grita mais alto do que o sucesso deste torneio para que a Câmara Municipal priorize, finalmente, o arranjo do campo de jogos de Armil. Aliás o P*P irá questionar o atual executivo da Câmara sobre a situação do campo.
No fim do dia, os organizadores podiam estar fisicamente exaustos, mas todos os participantes saíam com um sorriso gigante por terem feito parte do acontecimento. É difícil diferenciar o sorriso dos vencedores do dos vencidos quando todos se sentem bem-vindos e parte de algo maior.
O GCD de Armil demonstra-nos a importância e a força do Trabalho da comunidade. Mais do que isso, relembra à Câmara Municipal que as associações são muito mais do que cenários para visitar em vésperas de campanha eleitoral. São forças vivas, que precisam de apoios e de reconhecimento pelo trabalho ímpar que realizam.
Por fim, o que ali ficou demonstrado é que o direito a ter tempo, tempo para levar os filhos ao futebol, tempo para que cada dirigente, treinador ou dinamizador se possa dedicar à sua paixão. Tempo que está seriamente ameaçado por este Pacote Laboral. Quando o tempo livre e a estabilidade dos Trabalhadores são postos em causa, os movimentos associativos abanam nos seus alicerces. Estas associações não funcionam com empregados a tempo inteiro. Funcionam com a envolvência da gente da freguesia.
Vejamos o exemplo concreto do Banco de Horas individual. O treinador da equipa A é “convidado” a f**ar mais umas horas na fábrica ou no escritório, o pai do atleta da mesma equipa recebe o mesmo “convite”. Nessa semana, cancelam-se os treinos. O treinador da outra equipa, também ele Trabalhador por conta de outrem, tem de esticar também o horário, outro Treino desmarcado e assim a continuidade dos jogos f**a comprometida. Qual é a alternativa? Avançar para a profissionalização de todo o desporto de base? Deixar cair o que se construiu nos últimos 50 anos, mesmo sabendo que este associativismo é a alma mais viva da nossa região?
A conciliação da vida profissional com a vida familiar está em jogo e esta é uma Luta do nosso Povo, do Associativismo, dos Sindicatos, da Igreja, de TODOS.
Aliás, em agosto de 2015 o Papa Francisco dizia:
“Uma sociedade que não defende o tempo livre dos seus trabalhadores, que não permite o descanso para estar em comunidade e em família, torna-se escrava da produtividade. O tempo livre é uma conquista da dignidade humana.”
"Não podemos permitir que o trabalho e a busca pelo lucro financeiro devorem o tempo da família, as relações humanas e os ritmos da vida. A obsessão pela eficácia económica destrói o tecido social."
Ora, não havendo dúvida da justa reivindicação, “O que faz falta é avisar a malta”, “O que faz falta é animar a malta”, “O que faz falta é acordar a malta”.
Para isso venham mais Armil Cup, venham mais sardinhadas e romarias erguidas pela comunidade. O direito ao lazer e ao tempo livre são conquistas das nossas gentes. Que continue a resistência. As associações que vivem do trabalho dos seus dirigentes e amigos compreendem perfeitamente o que está em cima da mesa.
Simão Fernandes
P*P