15/09/2026
Todas as crianças têm direito a ser crianças. Por muito tempo! Têm direito a correr, a rir, a falar alto e a sujar-se. Têm direito à surpresa e ao espanto. Ao “mau feitio”, a ser respondonas e a todos os porquês. E a ter “bicho carpinteiro”, “língua de perguntador” e a ver os intestinos das coisas.
Todas as crianças têm o dever ser um bocadinho “mal educadas”; de vez em quando. E a ser impossíveis. A esgotar a paciência e a tirar do sério as pessoas de quem mais gostam. A função principal das crianças é educar os pais! E, para tanto, precisam de lhes pôr problemas e fazer de conta que são difíceis. Porque doutra maneira nunca os ajudariam a ser bons pais.
Todas as crianças têm direito a famílias barulhentas e um tudo-nada desarrumadas. Daquelas que se comovem e esbracejam nas festas, no meio do escuro, só porque o orgulho que têm nas suas crianças faz do coração dos pais um presépio colorido. E têm, ainda, direito a pais que não sejam, sobretudo, 5G. Daqueles que querem fazer tudo certinho, sem erros nem dúvidas. E têm direito a ter avós e tios. E um comboio de pessoas que contrariem, delicadamente, as regras e que façam de cada criança uma casa enorme de pessoas que as amem mais, ainda, sempre que se enganam,
Todas as crianças têm direito ao erro. E têm a obrigação de ter dúvidas; muitas dúvidas! E a não ter todas as respostas na ponta da língua. E a não aprender depressa e da mesma maneira. E a ver as suas necessidades educativas especiais a ser descobertas pela escola, até que com cada pequeno nó naquilo que ainda não descobriram se faça um escadote, uma janela ou uma nuvem irrequieta que nunca se canse de voar.
E têm, ainda, direito a escolas que não as queiram sempre sossegadas, atentas e caladas. Daquelas que lhes dão recreios e pessoas que lhes contem histórias. E que as “ponham de castigo” com a cabeça no ar. E usem toda essa luz para que façam com cada professor um “gangue de pessoas bondosas”, com rebeldia e boas maneiras.
Todas as crianças têm direito a ser “só” crianças. E a não ser preciso que haja quem nos lembre os seus direitos. Porque por detrás duma criança feliz está um adulto que, entretanto, descobriu com ela a sua felicidade.