20/04/2026
20 de abril de 2026
180° aniversário de nascimento de:
Serpa Pinto – de seu nome completo Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto – nascido no concelho de Cinfães, é o mais conhecido dos exploradores da África portuguesa e uma das figuras mais consensuais da nossa História, relacionada com a segunda metade do século XIX.
Não teve uma vida longa: nascido em 1846, veio a falecer em 1900; realizou a travessia científica e exploratória de Benguela a Manguato, ou seja, no sentido noroeste-sudeste da África ocidental para a África oriental, no período que vai de 12/11/1877 a 31/12/1878; sonhou – de acordo com as tendências nacionalistas da época – unir territorialmente Angola a Moçambique naquilo que ficou conhecido como o “mapa cor-de-rosa”; foi, mais tarde, cônsul português em Zanzibar, realizando a exploração do Lago Niassa até Quelimane, em 1884; foi Governador de Cabo Verde entre 1894/1897, planeando e executando obras de desenvolvimento colonial que não eram assim tão habituais à época.
Cinfães fez dele, justamente, a sua figura cimeira: por ter aqui nascido, por ter mantido com a sua terra uma ligação afetiva que o tempo não desvaneceu e que os seus descendentes mantiveram.
A viagem exploratória de Serpa Pinto decorre de 12/11/1877 até 31/12/1878, ou seja, ao longo de quase 14 meses.
Serpa Pinto vai para África em 1877, conjuntamente com Brito Capelo; Roberto Ivens junta-se-lhes em Luanda.
Em Janeiro/1878, Brito Capelo e Ivens comunicam-lhe que não continuarão a acompanhá-lo; Serpa Pinto decide continuar sozinho.
A viagem começou em Benguela, prosseguindo em direção ao Bié, Mavanda, Lialui (onde foi bem recebido pelo rei Lobossi), navegando pelo Zambeze até se dirigir a Embarira, Lexuma, seguindo até às cataratas de Muzi-ca-Tunia (no Zambeze) cujo reconhecimento fez, Deica, atravessando o deserto do Kalaari, e terminando no Manguato (onde chegou a 31/12/1878).
De Xoxon, capital do Manguato, Serpa Pinto seguirá para o Transval, mais propriamente, para Pretória; daqui, dirige-se para Durban onde embarca com destino a Portugal.
Durante grande parte da sua viagem, Serpa Pinto viveu momentos difíceis no ambiente sertanejo africano, perdeu o contacto por períodos dilatados com o seu país de origem e com as zonas urbanizadas de África que o poderiam auxiliar, a tal ponto que esse desaparecimento provocou, na Metrópole, verdadeira angústia superada, apenas, pelo seu reaparecimento quando – a 12/2/1879 – o telégrafo deu a notícia da sua chegada a Pretória.
Toda essa viagem exploratória – nas condições em que foi feita – dará a Serpa Pinto o estatuto de um verdadeiro “Herói Nacional”.
A viagem teve o objetivo já referido: mapear, o melhor possível, o espaço africano que Portugal pudesse reivindicar como seu – porque o ocupava efetivamente – segundo os parâmetros que seriam definidos em Berlim.
Serpa Pinto não pretendia senão dar a Portugal as ferramentas concretas que pudessem legitimar a propriedade do território ocupado; ou seja, as suas teses coincidiam com aquelas que eram defendidas por um dos nossos principais intelectuais desse tempo, Luciano Cordeiro.
Em 1881 foi editado o seu livro: Como eu atravessei a África” , onde relata todas as peripécias que teve de atravessar, descreve paisagens e modos de vida dos povos com que contactou. Esta obra, pela sua importância foi logo traduzida para 11 línguas.
Foi Governador de Cabo Verde entre Janeiro/1894 e Novembro/1897 – sendo a última função importante que Serpa Pinto desempenhou.
E fê-lo com visão de estado: mandou construir em S. Vicente um edifício para hospital cuja falta se fazia sentir na cidade do Mindelo; protegeu as indústrias do sal e do café; criou, nas ilhas, a Secção de Agrimensura, o Tribunal Militar e a Administração geral dos Correios; e promoveu a vacinação geral contra a varíola.
Regressado a Portugal, foi-lhe concedido o título de Visconde por duas vidas; e terminou a sua carreira militar como General de Brigada.
Foi agraciado com as seguintes condecorações: Legião de Honra de França; Ordem de Leopoldo III da Bélgica; Comenda de Ordem do Brasil; Medalha de Ouro oferecida pelos portugueses residentes em Pernambuco; Cruz Humanitária da Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro; Medalha de Ouro da Caixa de Socorros D. Pedro V (Brasil); Comenda da Ordem do Medjec da Turquia; Medalha de Ouro das Sociedades de Geografia de Londres e de Paris, de Marselha e de Itália. Foi ainda Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada; Cavaleiro da Ordem de Cristo; (duas vezes) Medalha de Ouro da Sociedade de Geografia de Lisboa (16-6-1879) e (13-12-1886); Medalha de Honra, em ouro, oferecida pela Sociedade Comercial de Lisboa; Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Évora; Medalha de Ouro criada pela Lei de 31 de Maio de 1880, para os Exploradores Africanos; Conselheiro de Sua Majestade D. Luís e D. Carlos e seu ajudante de campo; Senhor da ilha de Wamise, concedida por aforamento, por carta régia de 7-6-1890. Recebeu ainda a Carabina d´El Rei, espingarda especial oferecida por D. Luíz antes de partir para África em 1877; uma Espada de Honra, oferecida pela Colónia Portuguesa de Santos (Brasil); e Espada de Honra oferecida pelo pessoal da Empreza do Teatro Alegria.
Os seus trabalhos no continente africano valeram-lhe ser admitido como sócio das Sociedades de Geografia de Londres, Paris, Berne, Anveres, Madrid, Itália; Societé Belge de Geographie, da grande Academia Francesa, da Academia de Ciências de Paris, da Academia Espano- Portuguesa de Toulouse e da Nedeclandsch Aararijecks Kundig Genootsccap e Membro Honorário da Societé Neuchateloise de Geografie.
No Brasil foi sócio correspondente do Gabinete Português de Leitura de Pernanbuco; Sócio Honorário do Instituto Arqueológico e Goegráfico Pernambucano; do Liceu Literário Português; do Retiro Literário Português; do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro; do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e do Gabinete Português de Leitura da Baía; Sócio ativo da Sociedade Portuguesa de Beneficência 16 de Setembro, Baía e Patrono da Associação de Socorros Familiares de Homenagem a Serpa Pinto, fundada em sua honra em 1881.
Em Portugal foi eleito sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Sociedade Democrática Recreativa; Sócio Honorário da Associação Comercial de Lisboa e do Centro Comercial do Porto e Patrono do Grémio Serpa Pinto (antigo Clube Progressista).
Em 1884 foi nomeado consul de 1ª classe em Zanzibar e nesse mesmo ano organiza nova expedição científica ao Lago Niassa, a fim de encontrar o melhor porto para a saída de produtos daquela importante região moçambicana. Cumprida esta e outras missões regressa a Lisboa, em 1886, onde é recebido pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em solene recepção no Teatro São Carlos, com a presença da família real e altas individualidades civis e milatares.
A visão que, à época, a Europa e os ocidentais tinham dos países e povos colonizados em nada se assemelhava à dos dias de hoje.
Nesse tempo, a expansão política e territorial do Ocidente era vista como consequência lógica de causas que a legitimavam, a saber – e desde logo – a supremacia cultural e o domínio militar que os europeus tinham sobre os povos dos outros continentes.
A ideia de “missão”, indexada a esse modo de ver, induzia uma mentalidade muito diferente daquela que norteia, hoje, o pensamento deste século e o de grande parte do século passado; a descolonização foi, neste capítulo, o momento nodal que consagrou a visão igualitária dos povos e de todos os homens.
Isso mesmo está, afinal, expresso numa das obras maiores da nossa literatura, “A Ilustre Casa de Ramires” de Eça de Queirós: a ida, para África, de Gonçalo Mendes Ramires, o Fidalgo da Torre e principal personagem do romance, é a forma de superar, num território novo e virgem, a vida chocalheira que por cá levava, transmutando-a num projeto inovador e nobre que valha a pena viver.
Ou seja, a África como redenção da pequenez diária que, aqui, se vivia.
Como assim, Serpa Pinto foi, por força de tudo isto, um dos Homens que no seu tempo estiveram no centro da História.
Viveu os entusiasmos europeus abertos pela Conferência de Berlim, deu tudo para que o seu país tivesse uma palavra importante no concerto das nações europeias, pôs os seus conhecimentos científicos ao serviço da Pátria e da comunidade internacional, teve uma relação ímpar com os povos africanos por onde passou e deixou marcas, morreu cedo demais sem tempo para perceber que os interesses conflituantes das potências europeias se adulteravam mais no apaziguamento que os laços dinásticos facilitavam do que no interesse dos seus próprios povos.
Deixou-nos o legado importante que o seu tempo sonhou e que nos cabe perpetuar.