12/09/2026
O OURO ESCONDIDO
ANTES DE AQUAE FLAVIAE
Muito antes dos Romanos, já os habitantes desta terra guardavam uma relação com o ouro.
No Museu da Região Flaviense encontra-se uma peça que parece, à primeira vista, uma antiga jóia: vários fios de ouro enrolados e unidos em sucessivas voltas. Mas a sua história é bem diferente.
Conhecida como Argolas de fio de ouro, esta peça pertence à Idade do Bronze Final, muitos séculos antes da presença romana em Chaves. São vários aros de ouro, de diferentes espessuras e diâmetros, unidos de forma irregular.
Essa irregularidade é precisamente uma das pistas mais importantes: tudo indica que o ouro não estava destinado a ser usado como adorno, mas terá sido guardado como metal precioso, uma reserva de riqueza ou matéria-prima para futura transformação.
Museu da Região Flaviense
213 GRAMAS DE OURO.
Encontrada no Forte de São Francisco, em Santa Maria Maior, esta pequena concentração de ouro atravessou mais de dois milénios até chegar aos nossos dias.
Foi aqui que nasceu Aquae Flaviae, o grande município romano associado às águas termais e ao imperador Vespasiano. A cidade cresceu junto ao Tâmega, ligada pelas estradas romanas a Braga e Astorga, tornando-se um importante centro do território.
A exploração mineira romana em Chaves e Trás‑os‑Montes:
A presença romana em Trás‑os‑Montes não se limitou às termas, às vias e à administração. Esta região era, para Roma, um território de recursos, especialmente metais. O ouro pré‑romano encontrado em Chaves encaixa numa paisagem mais ampla de exploração mineira que os Romanos desenvolveram com grande intensidade.
Os Romanos exploraram ouro em várias zonas de Trás‑os‑Montes, com destaque para:
Jales e Gralheira (Vila Pouca de Aguiar) — um dos maiores complexos mineiros romanos do Noroeste peninsular.
Tresminas — famoso pelas galerias profundas, sistemas de drenagem e pela monumentalidade das cortas abertas na rocha.
Ervededo e Oura — áreas próximas de Chaves onde se encontram vestígios de lavagem de sedimentos auríferos.
Técnicas de exploração:
Os Romanos aplicaram métodos avançados para a época:
Ruina montium — técnica hidráulica que usava grandes quantidades de água para desmoronar encostas e libertar sedimentos auríferos.
Galerias subterrâneas — escavadas com precisão, ventiladas e drenadas.
Canalizações e aquedutos mineiros — alguns com quilómetros de extensão, conduzindo água para lavagem e separação do ouro.
Ligação a Aquae Flaviae:
A exploração mineira contribuiu para a prosperidade do município romano:
O ouro era enviado para centros administrativos e fiscais, reforçando o papel de Aquae Flaviae como polo regional. As vias romanas que cruzavam Chaves facilitavam o transporte do metal.
A presença de militares e engenheiros mineiros explica parte da urbanização precoce da região.
Importância estratégica:
O ouro de Trás‑os‑Montes era considerado de boa qualidade e integrava o sistema económico romano.
A região tornou‑se um ponto de articulação entre: Recursos naturais, Infraestruturas romanas, Administração Imperial, Povoações locais já habituadas ao valor do metal, como demonstra o achado das argolas de ouro.
É talvez essa a parte mais fascinante desta peça exposta no Museu da Região Flaviense.
Ela não nos conta apenas uma história sobre riqueza. Conta-nos que, muito antes das termas, da ponte, das estradas e do esplendor de Aquae Flaviae, já existiam neste território pessoas que conheciam o valor do ouro — e que decidiram escondê-lo, guardá-lo e preservá-lo.
Hoje, aquelas voltas de ouro permanecem no Museu como uma pequena janela aberta sobre um passado muito distante de milhares de anos.
Um tesouro escondido.
Uma história que continua a brilhar em Chaves.
Chaves - Junta Freguesia de Santa Maria Maior