09/02/2025
DOMINGO V DO TEMPO COMUM
I Leitura: Is. 6,1-8
HOMILIA.- “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo.
Toda a Terra está cheia da sua Glória”
Hoje é o próprio profeta Isaías quem nos descreve a sua vocação para o serviço do ministério apostólico. Numa das suas idas ao Templo de Jerusalém, lugar da presença de Deus e tem uma aparição divina: “Eu vi, diz ele, o Senhor sentado num trono alto e dominante e o Seu manto cobria o santuário. Diante d’Ele estavam os Serafins, que bradavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo. Toda a Terra está cheia da Sua glória”. A voz dos Serafins era tão forte que fazia estremecer as colunas e o Templo encheu-se de fumo. Na Escritura, a nuvem é sempre símbolo da presença de Deus que se manifesta mas que, ao mesmo tempo oculta o Seu rosto. Tal é o Mistério de Deus.
Vê-se o profeta envolvido no mistério da presença divina e sente-se perdido no meio de tão grande mistério. Comparando-se com Deus, acha-se indigno, impuro, manchado, perdido perante a santidade de Deus: “Ai de mim, que estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros”. Mas um Serafim tomou uma brasa que tirara do altar, tocou-lhe os lábios e disse-lhe: “O teu pecado foi tirado, as tuas culpas foram perdoadas”. Purificado e santificado, o profeta sente-se transformado. Crê que agora é digno de se pôr ao serviço de Deus. “Ouvi então a voz do Senhor que dizia: “Quem hei-de enviar?” E eu respondi: “Eis-me aqui: podeis enviar-me”.
Esta visão de Isaías refere-se em primeiro lugar à santidade de Deus. O profeta vê a Deus presente no Templo de Jerusalém. Por isso quer que o Templo e a cidade sejam dignos de albergar esta presença. Mas como Deus é Santo, tudo quanto toca tem de ser santo também. Ele terá de ser santo para ser o profeta dum povo de santos. Deus quer que cada um de nós seja santo, como nos diz no livro do Levítico: “Sede santos, porque Eu sou Santo” (Lev.11,44; 19,2; I Ped. 1,16). Cada um de nós purifique-se dos seus pecados para ser a morada de Deus. “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que já não vos pertenceis? Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus~, no vosso corpo” (I. Cor. 6, 19-20; 3,16). Temos, pois, o gravíssimo dever de nos tornarmos santos.
Santificado, o profeta sente-se enviado por Deus, sente a vocação de ser missionário. Deus chama e o profeta diz-se inteiramente disponível. A vocação é sempre um dom de Deus, mas espera uma resposta pronta, livre, decidida, alegre, sem reservas: entrega generosa e total ao serviço de Deus: “Eis-me aqui”. Com a certeza de que Deus estará com ele tanto nas horas alegres como nas horas sombrias. Partir como missionário requer desenraizar-se, desinstalar-se, abandonar uma vida cómoda e sem sobressaltos, confiados unicamente na força da palavra de Deus. Desfalecer, duvidar, vacilar, seria uma ofensa Àquele que nos envia. Procure cada um viver em santidade e responder à voz de Deus, porque a todos chama para algum serviço no Seu Reino.
II Leitura: I Cor. 15,1-11
HOMILIA.- ”Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras”
Havia na Comunidade de Corinto alguns que duvidavam da ressurreição dos mortos. Ora, a ressurreição é uma verdade central da fé cristã. A fé cristã tem como fundamento a Ressurreição de Cristo. Se não há ressurreição, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé. Mas convencido como está da ressurreição de Jesus, Paulo passa a expor-lhes o Evangelho, centrado na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Eu transmiti-vos em primeiro lugar o mesmo que eu recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia; apareceu a Pedro, depois aos Onze; em seguida, a mais de quinhentos irmãos juntos; apareceu também a Tiago e depois a todos os Apóstolos; e, finalmente, apareceu-me também a mim, que sou o menor dos Apóstolos, porque persegui a Igreja de Deus. Mas obtive a graça da conversão e a graça em mim não foi inútil”. Pelo contrário, ela deu-me tanta força que tenho trabalhado tanto ou mais que todos os outros juntos. Não é que os frutos deste trabalho sejam mérito meu, mas da graça divina. Isto é o que vos ensinamos. Isto é o que vós deveis crer e seguir.
Centrados no Evangelho que Paulo e os Apóstolos pregaram também nós o devemos aceitar alegremente e ser fiéis a Cristo que nos chama a abraçar o Evangelho da salvação. Temos nesta leitura de Paulo, um intento de apresentação do núcleo fundamental da fé cristã: 1.- O anúncio da morte de Cristo; 2.- Conforme estava predito nas Escrituras; 3.- O acontecimento da Ressurreição; 4.- As testemunhas da Ressurreição; 5.- A chamada à conversão. E esta fé, não a inventa ele, recebeu-a da Comunidade que se formou a partir da Ressurreição e da descida do Espírito Santo.
Reduzida ao essencial, a fé que Paulo recebeu da Comunidade cristã assenta essencialmente no mistério pascal da morte, sepultura e ressurreição de Cristo. Mas indica também o seu efeito principal: Cristo morreu na cruz para o perdão dos pecados. E a sua ressurreição implica para nós um novo estilo de vida: mortos para o pecado e vivos para Deus.
Os intelectuais modernos dão, por vezes, mais crédito às luzes da Razão ou às provas empíricas do que à revelação transmitida pelos evangelistas e, por isso, a fé na Ressurreição de Cristo, é abalada. Mas o cristão sabe que o mistério de Cristo está situado muito acima da Razão os das Ciências, não, porém, em contradição com elas. É que Jesus de Nazaré assume plenamente o mistério da contingência humana (nascimento, vida, morte e ressurreição), realizando assim a aspiração fundamental de todo o coração humano a caminhar para a Fonte e a Meta da sua plena realização, que é Deus. Como a morte de Jesus na Cruz não foi apenas a de um homem condenado mas a do Filho de Deus que viveu toda a Sua vida unido ao Pai, assim ela se transformou no meio mais perfeito do encontro entre Deus e o homem e na correspondência mais exacta da resposta humana à intervenção divina.
É deste Mistério que a Eucaristia é memorial: ”Anunciamos, Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus”. Procuremos vivê-la com o espírito de ressuscitados: mortos para o pecado e vivos para Deus.
Evangelho: Lc. 5,1-11
HOMILIA: “Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca”.
“Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens”
1.- Havia Jesus passado algum tempo a pregar na Judeia, quando ao voltar para a Galileia dirige um convite formal a Pedro e aos seus companheiros para aderirem a Ele de maneira mais estreita e comprometida. Até então eles tinham-se mostrado abertos e interessados nos ensinamentos de Jesus, mas sem aquela adesão dos discípulos que seguem o seu mestre sem abandonarem a sua vida profissional. Desta vez, a chamada é para que se decidam a deixar as suas famílias, a sua profissão, as suas ocupações habituais, a fim de se consagrarem a um ministério muito diferente e especial, se tornarem Seus discípulos a tempo inteiro, para O seguirem e viverem com Ele, como resposta a uma chamada definitiva.
2.- Que circunstâncias rodearam esta chamada de Jesus dirigida aos Seus primeiros Apóstolos? Estava o Senhor rodeado duma enorme multidão, que O escutava absorta e ávida de ouvir a Sua palavra, na margem do lago de Genesaré. Jesus falava à vontade, com maior liberdade do que nas sinagogas, onde começava a ser vigiado pelos seus opositores. Notemos o desejo de ouvir a Palavra de Deus mostrado pela multidão. No nosso mundo materialista e secularizado, em que tanta gente rejeita a voz de Deus e da Igreja, é uma lição a reter. Mas, enquanto Jesus se entretinha com a multidão, reparou que ali perto havia uns barcos ancorados na praia. Os pescadores tinham descido dos barcos e lavavam as redes. Um dos barcos era propriedade de Simão Pedro. Jesus pediu autorização para subir para o barco e disse a Pedro que o afastasse um pouco da praia, para melhor poder instruir a multidão. E, do barco, continuou a ensinar a toda aquela gente.
3.- Terminada a pregação, Jesus disse a Simão: “Faz-te ao largo e vós lançai as redes para a pesca”. Simão e os outros companheiros tinham passado toda a noite a pescar e não tinham apanhado nada. Podemos imaginar a desilusão, a sensação de fracasso e de desânimo daqueles homens, depois duma noite de sono perdido. As probabilidades duma pesca abundante eram ainda menores durante o dia do que durante a noite. Mas, não perdiam nada com arriscar, já que Jesus o pedia. Já noutras vezes tinham presenciado coisas extraordinárias realizadas pelo Mestre. Pedro disse então a Jesus: “Mestre, andámos a pescar durante toda a noite e não apanhámos nada; mas, já que TU o mandas, deitarei as redes”.
“Já que Tu o mandas”. A confiança de Pedro foi recompensada. A pesca foi tão abundante que teve de chamar os companheiros para o ajudarem. É assim mesmo. A confiança em Deus produz sempre resultados inesperados e espectaculares. Quando Deus se empenha numa tarefa, o milagre aparece.
4.- Perante tão insólito acontecimento, Pedro mudou totalmente de atitude e de comportamento. Vergado pela presença do poder divino que o Mestre lhe mostrara, deitou-se a Seus pés, reconheceu que não era digno de tal privilégio e exclamou: “Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador”. Admirável confissão do homem que tem a certeza de estar na presença de Deus. Pedro confessa abertamente a sua indignidade, porque sabe que o Senhor veio para destruir o pecado e fazer com que Deus reine no coração de todos os homens. Diante da santidade divina, a única confissão que o homem pode fazer é a de ser consciente de que é pecador e indigno de tão grande graça. Todos os grandes convertidos da história, como S. Paulo, Santo Agostinho, S. João de Deus, Santo Inácio de Loiola, São Francisco Xavier, Paul Claudel, Garcia Morente e tantos outros, narram a mesma sensação de serem tocados pelo Deus vivo e não lhe poderem resistir. Como remate e como paga, Jesus disse-lhe. “Desde agora serás pescador de homens”. Ser pescadores de homens é participar na empresa da salvação de quantos se viram naufragados no mar das águas revoltas do pecado e da maldade. E o mesmo diz a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. A Igreja é a Instituição encarregada da missão da salvação e para essa missão conta com homens revestidos da função de Apóstolos.
5.- Há que destacar a prontidão com que Pedro e os seus companheiros deixaram as redes e seguiram Jesus: “Reconduzidos os barcos a terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus”. Quando Deus chama, não podemos atar-nos a nada. Jesus responderá noutra ocasião a alguém que lhe diz: “Senhor, eu quero seguir-te, mas deixa-me ir primeiro sepultar meu pai”. Jesus respondeu: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. E a outro, que se cansou de O seguir, replicou: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o reino de Deus” (Lc. 9,59-62). O chamamento de Deus exige homens decididos e prontos para enfrentar todos os contratempos.
6.- Foi assim que Jesus chamou estes Seus primeiros discípulos e os associou ao seu ministério apostólico para a instauração do Reino de Deus entre os homens. Eles nunca mais esquecerão este encontro, que marcou as suas vidas para sempre. Todos os Apóstolos serão pescadores de homens, mas o Senhor revela que confiará a Pedro uma missão especial. No futuro, escolhê-lo-á para chefe da sua Igreja e fará dele a pedra fundamental do Colégio Apostólico. Todos serão Apóstolos, mas Pedro irá ao leme da barca que é a Igreja, que navegará pelo mar alto da história, para levar o Evangelho até aos confins do mundo. O Papa e os Bispos serão os sucessores e continuadores dos Apóstolos.
José Palos Fernandes
Redentorista