Paróquia Nossa Senhora de Fátima Castelo Branco

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DOMINGO V DO TEMPO COMUM  I Leitura: Is. 6,1-8 HOMILIA.- “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo.Toda a Terra está c...
09/02/2025

DOMINGO V DO TEMPO COMUM
I Leitura: Is. 6,1-8

HOMILIA.- “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo.
Toda a Terra está cheia da sua Glória”

Hoje é o próprio profeta Isaías quem nos descreve a sua vocação para o serviço do ministério apostólico. Numa das suas idas ao Templo de Jerusalém, lugar da presença de Deus e tem uma aparição divina: “Eu vi, diz ele, o Senhor sentado num trono alto e dominante e o Seu manto cobria o santuário. Diante d’Ele estavam os Serafins, que bradavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor do Universo. Toda a Terra está cheia da Sua glória”. A voz dos Serafins era tão forte que fazia estremecer as colunas e o Templo encheu-se de fumo. Na Escritura, a nuvem é sempre símbolo da presença de Deus que se manifesta mas que, ao mesmo tempo oculta o Seu rosto. Tal é o Mistério de Deus.

Vê-se o profeta envolvido no mistério da presença divina e sente-se perdido no meio de tão grande mistério. Comparando-se com Deus, acha-se indigno, impuro, manchado, perdido perante a santidade de Deus: “Ai de mim, que estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros”. Mas um Serafim tomou uma brasa que tirara do altar, tocou-lhe os lábios e disse-lhe: “O teu pecado foi tirado, as tuas culpas foram perdoadas”. Purificado e santificado, o profeta sente-se transformado. Crê que agora é digno de se pôr ao serviço de Deus. “Ouvi então a voz do Senhor que dizia: “Quem hei-de enviar?” E eu respondi: “Eis-me aqui: podeis enviar-me”.

Esta visão de Isaías refere-se em primeiro lugar à santidade de Deus. O profeta vê a Deus presente no Templo de Jerusalém. Por isso quer que o Templo e a cidade sejam dignos de albergar esta presença. Mas como Deus é Santo, tudo quanto toca tem de ser santo também. Ele terá de ser santo para ser o profeta dum povo de santos. Deus quer que cada um de nós seja santo, como nos diz no livro do Levítico: “Sede santos, porque Eu sou Santo” (Lev.11,44; 19,2; I Ped. 1,16). Cada um de nós purifique-se dos seus pecados para ser a morada de Deus. “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que já não vos pertenceis? Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus~, no vosso corpo” (I. Cor. 6, 19-20; 3,16). Temos, pois, o gravíssimo dever de nos tornarmos santos.
Santificado, o profeta sente-se enviado por Deus, sente a vocação de ser missionário. Deus chama e o profeta diz-se inteiramente disponível. A vocação é sempre um dom de Deus, mas espera uma resposta pronta, livre, decidida, alegre, sem reservas: entrega generosa e total ao serviço de Deus: “Eis-me aqui”. Com a certeza de que Deus estará com ele tanto nas horas alegres como nas horas sombrias. Partir como missionário requer desenraizar-se, desinstalar-se, abandonar uma vida cómoda e sem sobressaltos, confiados unicamente na força da palavra de Deus. Desfalecer, duvidar, vacilar, seria uma ofensa Àquele que nos envia. Procure cada um viver em santidade e responder à voz de Deus, porque a todos chama para algum serviço no Seu Reino.


II Leitura: I Cor. 15,1-11

HOMILIA.- ”Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras”

Havia na Comunidade de Corinto alguns que duvidavam da ressurreição dos mortos. Ora, a ressurreição é uma verdade central da fé cristã. A fé cristã tem como fundamento a Ressurreição de Cristo. Se não há ressurreição, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé. Mas convencido como está da ressurreição de Jesus, Paulo passa a expor-lhes o Evangelho, centrado na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Eu transmiti-vos em primeiro lugar o mesmo que eu recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia; apareceu a Pedro, depois aos Onze; em seguida, a mais de quinhentos irmãos juntos; apareceu também a Tiago e depois a todos os Apóstolos; e, finalmente, apareceu-me também a mim, que sou o menor dos Apóstolos, porque persegui a Igreja de Deus. Mas obtive a graça da conversão e a graça em mim não foi inútil”. Pelo contrário, ela deu-me tanta força que tenho trabalhado tanto ou mais que todos os outros juntos. Não é que os frutos deste trabalho sejam mérito meu, mas da graça divina. Isto é o que vos ensinamos. Isto é o que vós deveis crer e seguir.

Centrados no Evangelho que Paulo e os Apóstolos pregaram também nós o devemos aceitar alegremente e ser fiéis a Cristo que nos chama a abraçar o Evangelho da salvação. Temos nesta leitura de Paulo, um intento de apresentação do núcleo fundamental da fé cristã: 1.- O anúncio da morte de Cristo; 2.- Conforme estava predito nas Escrituras; 3.- O acontecimento da Ressurreição; 4.- As testemunhas da Ressurreição; 5.- A chamada à conversão. E esta fé, não a inventa ele, recebeu-a da Comunidade que se formou a partir da Ressurreição e da descida do Espírito Santo.

Reduzida ao essencial, a fé que Paulo recebeu da Comunidade cristã assenta essencialmente no mistério pascal da morte, sepultura e ressurreição de Cristo. Mas indica também o seu efeito principal: Cristo morreu na cruz para o perdão dos pecados. E a sua ressurreição implica para nós um novo estilo de vida: mortos para o pecado e vivos para Deus.

Os intelectuais modernos dão, por vezes, mais crédito às luzes da Razão ou às provas empíricas do que à revelação transmitida pelos evangelistas e, por isso, a fé na Ressurreição de Cristo, é abalada. Mas o cristão sabe que o mistério de Cristo está situado muito acima da Razão os das Ciências, não, porém, em contradição com elas. É que Jesus de Nazaré assume plenamente o mistério da contingência humana (nascimento, vida, morte e ressurreição), realizando assim a aspiração fundamental de todo o coração humano a caminhar para a Fonte e a Meta da sua plena realização, que é Deus. Como a morte de Jesus na Cruz não foi apenas a de um homem condenado mas a do Filho de Deus que viveu toda a Sua vida unido ao Pai, assim ela se transformou no meio mais perfeito do encontro entre Deus e o homem e na correspondência mais exacta da resposta humana à intervenção divina.
É deste Mistério que a Eucaristia é memorial: ”Anunciamos, Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus”. Procuremos vivê-la com o espírito de ressuscitados: mortos para o pecado e vivos para Deus.

Evangelho: Lc. 5,1-11

HOMILIA: “Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca”.
“Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens”

1.- Havia Jesus passado algum tempo a pregar na Judeia, quando ao voltar para a Galileia dirige um convite formal a Pedro e aos seus companheiros para aderirem a Ele de maneira mais estreita e comprometida. Até então eles tinham-se mostrado abertos e interessados nos ensinamentos de Jesus, mas sem aquela adesão dos discípulos que seguem o seu mestre sem abandonarem a sua vida profissional. Desta vez, a chamada é para que se decidam a deixar as suas famílias, a sua profissão, as suas ocupações habituais, a fim de se consagrarem a um ministério muito diferente e especial, se tornarem Seus discípulos a tempo inteiro, para O seguirem e viverem com Ele, como resposta a uma chamada definitiva.

2.- Que circunstâncias rodearam esta chamada de Jesus dirigida aos Seus primeiros Apóstolos? Estava o Senhor rodeado duma enorme multidão, que O escutava absorta e ávida de ouvir a Sua palavra, na margem do lago de Genesaré. Jesus falava à vontade, com maior liberdade do que nas sinagogas, onde começava a ser vigiado pelos seus opositores. Notemos o desejo de ouvir a Palavra de Deus mostrado pela multidão. No nosso mundo materialista e secularizado, em que tanta gente rejeita a voz de Deus e da Igreja, é uma lição a reter. Mas, enquanto Jesus se entretinha com a multidão, reparou que ali perto havia uns barcos ancorados na praia. Os pescadores tinham descido dos barcos e lavavam as redes. Um dos barcos era propriedade de Simão Pedro. Jesus pediu autorização para subir para o barco e disse a Pedro que o afastasse um pouco da praia, para melhor poder instruir a multidão. E, do barco, continuou a ensinar a toda aquela gente.

3.- Terminada a pregação, Jesus disse a Simão: “Faz-te ao largo e vós lançai as redes para a pesca”. Simão e os outros companheiros tinham passado toda a noite a pescar e não tinham apanhado nada. Podemos imaginar a desilusão, a sensação de fracasso e de desânimo daqueles homens, depois duma noite de sono perdido. As probabilidades duma pesca abundante eram ainda menores durante o dia do que durante a noite. Mas, não perdiam nada com arriscar, já que Jesus o pedia. Já noutras vezes tinham presenciado coisas extraordinárias realizadas pelo Mestre. Pedro disse então a Jesus: “Mestre, andámos a pescar durante toda a noite e não apanhámos nada; mas, já que TU o mandas, deitarei as redes”.
“Já que Tu o mandas”. A confiança de Pedro foi recompensada. A pesca foi tão abundante que teve de chamar os companheiros para o ajudarem. É assim mesmo. A confiança em Deus produz sempre resultados inesperados e espectaculares. Quando Deus se empenha numa tarefa, o milagre aparece.

4.- Perante tão insólito acontecimento, Pedro mudou totalmente de atitude e de comportamento. Vergado pela presença do poder divino que o Mestre lhe mostrara, deitou-se a Seus pés, reconheceu que não era digno de tal privilégio e exclamou: “Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador”. Admirável confissão do homem que tem a certeza de estar na presença de Deus. Pedro confessa abertamente a sua indignidade, porque sabe que o Senhor veio para destruir o pecado e fazer com que Deus reine no coração de todos os homens. Diante da santidade divina, a única confissão que o homem pode fazer é a de ser consciente de que é pecador e indigno de tão grande graça. Todos os grandes convertidos da história, como S. Paulo, Santo Agostinho, S. João de Deus, Santo Inácio de Loiola, São Francisco Xavier, Paul Claudel, Garcia Morente e tantos outros, narram a mesma sensação de serem tocados pelo Deus vivo e não lhe poderem resistir. Como remate e como paga, Jesus disse-lhe. “Desde agora serás pescador de homens”. Ser pescadores de homens é participar na empresa da salvação de quantos se viram naufragados no mar das águas revoltas do pecado e da maldade. E o mesmo diz a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. A Igreja é a Instituição encarregada da missão da salvação e para essa missão conta com homens revestidos da função de Apóstolos.

5.- Há que destacar a prontidão com que Pedro e os seus companheiros deixaram as redes e seguiram Jesus: “Reconduzidos os barcos a terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus”. Quando Deus chama, não podemos atar-nos a nada. Jesus responderá noutra ocasião a alguém que lhe diz: “Senhor, eu quero seguir-te, mas deixa-me ir primeiro sepultar meu pai”. Jesus respondeu: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”. E a outro, que se cansou de O seguir, replicou: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o reino de Deus” (Lc. 9,59-62). O chamamento de Deus exige homens decididos e prontos para enfrentar todos os contratempos.

6.- Foi assim que Jesus chamou estes Seus primeiros discípulos e os associou ao seu ministério apostólico para a instauração do Reino de Deus entre os homens. Eles nunca mais esquecerão este encontro, que marcou as suas vidas para sempre. Todos os Apóstolos serão pescadores de homens, mas o Senhor revela que confiará a Pedro uma missão especial. No futuro, escolhê-lo-á para chefe da sua Igreja e fará dele a pedra fundamental do Colégio Apostólico. Todos serão Apóstolos, mas Pedro irá ao leme da barca que é a Igreja, que navegará pelo mar alto da história, para levar o Evangelho até aos confins do mundo. O Papa e os Bispos serão os sucessores e continuadores dos Apóstolos.
José Palos Fernandes
Redentorista

APRESENTAÇÃO DO SENHOR NO TEMPLO(2 de Fevereiro)I Leitura: Mal.3,1-4“Vou enviar o meu mensageiro para desimpedir o camin...
01/02/2025

APRESENTAÇÃO DO SENHOR NO TEMPLO
(2 de Fevereiro)

I Leitura: Mal.3,1-4
“Vou enviar o meu mensageiro para desimpedir o caminho diante de Mim”
II Leitura: Heb.2,14-18
“Misericordioso e fiel para expiar os pecados do povo”
Evangelho: Lc.2,22-40
“Todo o filho primogénito do s**o masculino será consagrado ao Senhor”

HOMILIA.- “Luz para iluminar as nações e glória do povo de Israel”

1.- A festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo:
A festa da “Apresentação do Menino Jesus no Templo” é, ao mesmo tempo, uma festa do Senhor e de sua Mãe Maria, uma “celebração do mistério da salvação, realizado por Cristo, ao qual a Virgem esteve intimamente unida, como Mãe do Servo de Javé, como executora duma missão referida ao Antigo Israel e como modelo do novo povo de Deus que é a Igreja, continuamente provado na fé e na esperança pelo sofrimento e pela perseguição” (Paulo VI. Marialis Cultus 7).
Maria e José acodem ao Templo para cumprir o que estava preceituado na lei de Moisés: todo filho primogénito, nascido numa família, devia ser consagrado ao Senhor: “Todo o primogénito dos teus filhos será também resgatado por ti. E quando o teu filho, um dia, te perguntar o que isso significa, responderás: é que o Senhor fez-nos sair do Egipto, da casa da escravidão, com a sua mão poderosa. Como o Faraó se obstinava em não querer deixar-nos partir, o Senhor matou todos os primogénitos do Egipto, desde os primogénitos dos homens e até aos dos animais. Este é o motivo porque ofereço ao Senhor em sacrifício todos os primogénitos e resgato todo o primogénito dos meus filhos. Será um sinal na tua mão e um memorial na tua fronte, visto que o Senhor nos fez sair do Egipto com a sua mão poderosa” (Ex.13,13-16). E toda a mulher que fosse mãe, devia purificar-se quarenta dias depois do parto, oferecendo ao Senhor, no Templo, um cordeiro ou duas pombas: “Quando terminar o tempo da sua purificação, apresentará ao sacerdote, à entrada da tenda da reunião, um cordeiro de um ano, como holocausto, e uma pomba ainda nova ou uma rola, como sacrifício expiatório... Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombinhas, uma para o holocausto e outra para o sacrifício expiatório; e o sacerdote fará a expiação por ela e será purificada” (Lev.12,6-8).
Malaquias, numa visão profética, contempla este dia e exclama: “Eis o que diz o Senhor: Há-de entrar no seu Templo o Senhor, por Quem ansiais, o Anjo da Aliança por Quem suspirais... Ele é como o fogo do fundidor e como a lixívia dos lavandeiros. Sentar-se-á para fundir e purificar. Há-de purificar os filhos de Levi, como se apuram o ouro e a prata, para que possam oferecer ao Senhor um sacrifício justo” (Mal.3,1-3). Foi esta profecia que Lucas recolheu no seu Evangelho: “Naquele tempo, ao chegarem os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de O apresentarem ao Senhor. Assim está escrito na Lei do Senhor: “Todo o filho primogénito será consagrado ao Senhor”. Deviam também oferecer em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, conforme a lei do Senhor” (Lc.2,22-24).
Nestes costumes antigos viu a Igreja primitiva e com ela toda a tradição posterior, a figura de Maria que oferecia ao Pai o seu Filho primogénito para expiação dos pecados dos homens, e como modelo para a toda a comunidade cristã no culto que havia de oferecer a Deus.
Escreve Paulo VI na sua Encíclica “Marialis Cultus”: “A Igreja, guiada pelo Espírito, vislumbrou no cumprimento das leis relativas à oferenda dos primogénitos e à purificação da mãe, um mistério de salvação, relacionado com a história da salvação:
- Viu a continuação da oferenda fundamental que o Verbo encarnado fez de Si mesmo ao Pai, ao entrar neste mundo: “Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas preparaste-Me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então Eu disse: Eis que venho – como está escrito de Mim no livro – para fazer, ó Deus, a tua vontade. (Sal.39,7-9). Tendo dito primeiro: “Não quiseste sacrifícios, as ofertas e os holocaustos pelo pecado e não os recebeste com agrado, apesar de oferecidos segundo a Lei”; disse em seguida: “Eis que venho para fazer a tua vontade”. Aboliu o primeiro culto, para estabelecer o segundo. Em virtude desta vontade é que somos santificados pela oblação do corpo de Jesus, feita duma vez para sempre” (Heb.10,5-10);
- Viu proclamada a universalidade da salvação, porque Simeão, ao saudar o Menino como “luz das nações e glória do seu povo, Israel” (Lc.2,32), reconhecia n’Ele o Messias, o Salvador de todos;
- Compreendeu a referência profética à paixão de Cristo: as palavras de Simeão, que uniam num só vaticínio o Filho, “sinal de contradição (Lc.2,34), com a Mãe, a quem uma espada havia de trespassar a alma (Lc.2,35), haveriam de cumprir-se no Calvário;
- Mistério de salvação, pois o episódio da Apresentação orienta nos seus vários aspectos para o acontecimento salvífico da Cruz;
- A mesma Igreja, sobretudo a partir da Idade Média, percebeu no coração da Virgem que leva o Menino a Jerusalém para 0 apresentar ao Senhor, uma vontade de consagração que transcendia o significado ordinário deste rito” (MC.20.1).

2.- Simeão reconhece no Menino Jesus o Messias:
As palavras de Simeão contêm, numa primeira parte (Lc.2,25-32), uma proclamação solene de Jesus como Messias Salvador. Simeão e Ana encarnam as esperanças e os anseios de todo um povo, que suspirava pela chegada do Messias. O velho e santo Simeão foi naquele dia ao Templo. Ao presenciar a cerimónia da purificação de Maria e da oferenda que Ela fazia do seu Filho a Deus, iluminado pelo Espírito Santo, compreendeu que aquela oblação não era como as outras e que o Menino era, de facto, o Messias. Então, cheio de alegria, “Simeão recebeu o Menino nos braços, bendisse a Deus e exclamou: “Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, podeis deixar ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a Salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: Luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo”. E, estreitando-0 nos braços, não pode conter a alegria que lhe vai na alma e rompe neste canto de gozo e gratidão: “Agora, Senhor, podeis deixar partir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a Salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: Luz para se revelar às nações e glória do meu povo Israel” (Lc.2,28-31). Jesus é, pois, o Salvador, a Luz das nações e a Glória do povo eleito de Deus.
Neste canto de Simeão escutamos a realização da profecia de Malaquias. O Mensageiro vem ao Templo para criar uma nova expressão religiosa e renovar um culto que estava em franca decadência. Cristo Jesus é agora a nova maneira de Deus estar com o seu povo, como antigamente o fora a Arca da Aliança e a Nuvem da Glória de Javé. Ele é o novo Templo onde habita Deus: “Respondeu Jesus aos judeus: “Destruí este templo e Eu reedificá-lo-ei em três dias”. “Mas Ele falava do templo do seu corpo. Por isso quando ressuscitou dos mortos, recordaram-se os discípulos do que tinha dito, acreditaram na Escritura e na palavra que Jesus dissera” (Jo.2,19.21-22). É também Aquele que vem inaugurar o novo culto, “em espírito e verdade”, como disse à samaritana: “Vai chegar a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão a Deus em espírito e verdade, pois são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores em espírito e verdade é que 0 devem adorar” (Jo.4,23-24).

3.- Jesus, pedra de escândalo para judeus e discípulos:
Simeão fala agora a Maria para lhe lembrar o que o seu Filho terá de sofrer. Muitos hão-de acolhê-l’O mas outros hão-de rejeitá-Lo. O Filho de Maria será pedra de escândalo para uns e salvação para outros. Escândalo significa fazer cair a alguém no mal, no crime, no que é indigno da pessoa humana. O escândalo, na vida moral e religiosa, precipita na condenação quem o comete.
Já o Antigo Testamento mostra que até o próprio Deus pode ser tomado como causa de escândalo para Israel: “Ele é a pedra de escândalo e a rocha que faz cair as duas casas de Israel...Muitos tropeçarão, cairão e serão esmagados” (Is.8,14s). Ao longo dos tempos muitos serão os que se revoltam contra Deus e O culpam das desgraças que caem sobre eles. Escandalizam-se de Deus, que põe à prova a fé e a obediência deles. Mas os males que acontecem ao homem não são da vontade de Deus e sim, fruto dos seus pecados; a causa dos males que acontecem ao homem não está em Deus, mas no próprio homem.
Jesus aparece aos olhos dos sacerdotes, dos saduceus, dos escribas e dos fariseus como sinal de contradição. Dizia-se enviado de Deus, mas foi rejeitado e combatido porque subvertia a Lei de Moisés, fazia-se Senhor do Sábado e abolia o Templo. Apresentava-se como Salvador de todos e era causa de endurecimento do coração de muitos: “Este menino está posto para queda e levantamento de muitos em Israel e para sinal de contradição” (Lc.2,34). Na verdade, muitos endureceram o seu coração e escandalizaram-se de que Ele se apresentasse como o Messias, cumpridor das profecias do Antigo Testamento. Na Sua pessoa e na Sua vida tudo parece escandaloso. Ele, o “filho do carpinteiro” que quer salvar o mundo, não mediante um messianismo que aniquile os inimigos políticos (Jo.6,15), mas pela paixão e morte na cruz (Mt.16,21). Até os próprios discípulos se escandalizam e abandonam o Mestre. Não podem compreender que tenha de morrer na Cruz e os abandone: “A partir daquele dia, Jesus começou a fazer ver aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar. Tomando-O à parte, Pedro começou a repreendê-l’0, dizendo: “Deus te livre de tal Senhor. Isso não te há-de acontecer”. Ele, porém, disse a Pedro: “Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mt.16,21-23).

Outro motivo de escândalo foi a promessa da Eucaristia: “Duras são estas palavras: quem pode escutá-las?... A partir de então muitos dos seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele” (Jo.6,66). E, finalmente, durante a sua Paixão, todos o abandonaram: “Depois do canto dos salmos saíram para o monte das Oliveiras. Disse-lhes então Jesus: “Esta noite, todos vós vos escandalizareis por minha causa, porque está escrito: “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho dispersar-se-ão. Mas, depois da minha ressurreição, preceder-vos-ei na Galileia”. Tomando a palavra, Pedro respondeu-lhe: “Ainda que todos se escandalizem de Ti, eu nunca me escandalizarei”. Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade te digo que esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes” (Mt.26,30-35). As dúvidas só se dissiparam definitivamente quando falaram e comeram com Ele depois da Ressurreição (Mt.26,31s) e sobre eles desceu a força do Espírito Santo.

João diz-nos em que consiste o escândalo do Evangelho: Jesus é um homem igual aos outros (Jo.1,4), sabe-se a sua origem (Jo.1,46; 6,42; 7,27) e ninguém compreende que queira remir-nos pela morte na Cruz (Jo.6,53) e pela ascensão para junto do Pai (Jo.6,62). Todos os seus ouvintes tropeçam nos três grandes mistérios da sua vida: Encarnação, Paixão e Ascensão. Uns aceitam-n’O na fé e na obediência, outros escandalizam-se e abandonam-n’O. Mas o pecado destes é cometido contra a luz e por isso não tem justificação: “Se Eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não teriam pecado. Mas agora não têm desculpa do seu pecado. Aquele que Me odeia, odeia também o meu Pai. Se não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado; mas não só as viram, como Me odiaram a Mim e a Meu Pai. Mas isto é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: “Odiaram-Me sem motivo” (Jo.15,22-25) (Conf. Sal.24,19; 68,5).
Ao apresentar-se Jesus aos judeus, colocou-os na contingência de se pronunciarem a favor ou contra Ele: “Bem-aventurados os que não se escandalizarem em Mim” (Mt.11,6). A própria comunidade cristã aplicou a Jesus a profecia de Isaías, que fala de Deus. Ele é a “pedra de escândalo”, mas também a “pedra angular” (I Ped.2,7s; Rom. 9, 32s; Mt. 21,42). Cristo é, ao mesmo tempo, fonte de vida e causa de morte: “Somos para Deus o bom odor de Cristo entre os que se salvam e os que se perdem. Para uns, odor que da morte conduz à morte; para outros, odor que da vida conduz à vida” (II Cor. 2, 15-16). O mesmo Jesus era escândalo para Paulo, antes da sua conversão. Mas uma vez convertido, afirma energicamente que não quer desvirtuar a Cristo crucificado, “porque a linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós” (I Cor.1,8); com efeito, Cristo é, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (I Cor.1,23).

A sabedoria humana não pode compreender que Deus queira salvar o mundo por meio dum Cristo odiado, perseguido, humilhado, flagelado, torturado, crucificado. Só o Espírito de Deus é que dá ao homem um raio de luz e de fé para poder compreender o valor supremo do escândalo da Cruz e reconhecer nele a mais sublime sabedoria: “Porque, o que é tido como loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é tido como fraqueza é mais forte que os homens... O que é louco segundo o mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios, e o que é fraco segundo mundo é que Deus escolheu para confundir os fortes. O que é vil e desprezível no mundo é que Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são. Assim, ninguém se vangloriará diante de Deus” (I Cor.1,25-29).

4.- Uma espada trespassará a tua alma:
Simeão dirige-se agora a Maria: “Uma espada trespassará a tua alma a fim de se revelarem os pensamentos de muitos corações” (Lc.2,35). Depois da mensagem da proclamação de Jesus como Messias, agora é o coração da Mãe que é chamado a tomar parte no drama da Cruz. Como diz o Concílio Vaticano II: “Maria avançou também na peregrinação da fé e perseverou fielmente na união com o seu Filho até à Cruz, junto da qual, pela força de Deus, se manteve de pé (Jo.19,25), sofrendo profundamente com o seu Unigénito e associando-se com entranhas de mãe ao seu sacrifício, consentindo amorosamente na imolação da vítima que ela mesma havia gerado” (LG.58). Deste modo não foi um instrumento passivo nas mãos de Deus, antes cooperou na salvação dos homens com fé e obediência livre” (LG.56).

5.- Ana e Simeão, os simples de Israel:
A profetiza Ana vem somar-se à voz de Simeão. Também ela mostra a fé dos simples do povo que aguardavam a libertação de Israel. “Estando presente naquela ocasião, começou a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Israel” (Lc.2,38).
Simeão e Ana pertencem ao grupo daqueles a quem o Pai revela o mistério de Cristo e do Reino. Ambos descobrem Cristo quarenta dias depois do seu nascimento, como já O tinham descoberto os pastores de Belém e os Magos do Oriente, esse mesmo Cristo que continuava e continua oculto para os sábios, os arrogantes, os soberbos, os orgulhosos e auto-suficientes deste mundo e de todos os tempos. Porém, se tu escutares a Cristo e O buscares de todo o coração, não duvides nem tenhas receio: Ele já está contigo.

6.- Jesus continua a ser sinal de contradição em todos os tempos:
Este é o dilema de fundo: Ser por Jesus ou contra Jesus. O tempo veio dar razão à profecia de Simeão. Cristo e a sua mensagem continuam a ser sinal de contradição. E sê-lo-ão até ao fim dos tempos. Cristo e a sua mensagem continuam a ser contestados e dividem os homens. Uns adoptam uma atitude de fé, outros de incredulidade. Reacendeu-se ultimamente o confronto entre os que são a favor e os que são contra. Desencadeou-se recentemente uma campanha do ateísmo militante que diz: “Provavelmente Deus não existe, não te preocupes, goza vida”. Mas logo os crentes responderam: “Sim, Deus existe, entrega-te a Ele”. Vêm depois aqueles para quem Deus não conta na vida: uma multidão imensa de agnósticos, indiferentes e abstencionistas que, simplesmente, não sentem a necessidade de Deus, passam bem sem Ele e vivem como se Deus não existisse.
Não é fácil prescindir de Deus. A pergunta sobre Deus é a questão mais debatida e mais agitada na história dos homens e, muitas vezes, são os próprios ateus que a formulam, porque não podem dormir em paz sem O combater. Mas ai daqueles que entrarem em guerra com Deus. Têm a batalha perdida. Os homens poderão alardear do poder das suas mentes, das conquistas da ciência e da técnica, das revoluções e mudanças da história, do progresso material que conseguem alcançar, mas o mistério de Deus volta sempre às suas preocupações. É que “Deus não morreu”, como proclamava Nietzsche: pelo contrário, Ele é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ómega de tudo quanto existe e tudo lhe está sujeito.
Como Cristo, também a Igreja será sinal de contradição e escândalo para o mundo. O ódio e a perseguição serão para muitos cristãos ocasião de queda e abandono da sua fé (Mt.24,10). Mas para outros será ocasião de fidelidade heróica, se necessário até ao martírio. Jesus preveniu os discípulos para que não sucumbissem. “Disse-vos estas coisas para não sucumbirdes. Excluir-vos-ão das sinagogas, e aproxima-se a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar um serviço a Deus. Procederão assim por não terem conhecido nem o Pai nem a Mim. Mas disse-vos isto para que quando chegar aquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito, e não vo-lo disse desde o
princípio porque estava convosco” (Jo.16,1-4).

7.- “Ai daquele por quem vier o escândalo”
O homem é escândalo para os seus irmãos quando trata de os arrastar para longe de Deus. Aquele que abusa da debilidade do seu irmão ou do poder que tem sobre ele para o fazer pecar e o desvia do recto caminho, é réu da queda desse irmão. Deus detesta os príncipes que arrastam o povo para abandonar a Yavé (I Re. 14,16; 15,30.34; 21,22-25) e os que o quiseram afastar da verdadeira fé (II Mac.4,7), mas elogia os que resistiram ao escândalo para se manterem fiéis à Aliança (Jer.35).
Jesus fala da gravidade do escândalo quando desviamos de Deus algum dos mais inocentes, como as crianças: “Ai daquele por quem vier o escândalo. Melhor lhe fora que lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e o lançassem ao mar” (Mt.18,6). Embora os escândalos aconteçam, - Jesus diz que sempre haverá escândalos -, há que repudiá-los e impedi-los por todos os meios: “Se o teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora” (Mt.5,29s; 18,8).
Todavia, não há que perturbar as consciências débeis ou mal formadas, como diz S. Paulo: “Guardai-vos de que a liberdade de que gozais se torne ocasião de escândalo para os débeis” (I Cor. 8, 9; Rom.14,13-15.20). A liberdade cristã só é autêntica se estiver animada da caridade “(Gal. 5, 13). A minha fé só é verdadeira se servir para fortalecer a fé dos meus irmãos (Rom. 14,1-23).

8.- O mundo moderno precisa de Cristo:
O mundo de hoje precisa duma nova Evangelização: Nova nos critérios, nos métodos e nos meios para transmitir e mensagem de sempre: Cristo e o seu Evangelho de salvação integral. Para evangelizar é que Cristo veio ao mundo: “Vamos a outra parte, às aldeias mais próximas, para pregar também ali, porque para isso vim” (Mc.1,38). E Paulo dizia de si mesmo: “Se anuncio o Evangelho não tenho de que me gloriar, pois que me é imposta esta obrigação: “Ai de mim se não evangelizar”. Se o fizesse espontaneamente, obteria recompensa; mas não sendo de maneira espontânea, é um cargo que me está confiado” (I Cor.9,16-17).
A condição do homem actual requer uma verdadeira “inculturação da fé” de modo que esta fecunde a cultura e a vida, e encarne a alma e o sentir de todos os povos, e o Espírito crie uma comunhão que molde ao mesmo tempo a Igreja, os diferentes povos e as diversas culturas (GS.58.3; LG.13.3).
A fé não deve ser imposta, mas proposta. Isso não quer dizer que o cristão negligencie o dever de empenhar-se a sério em levar os seus irmãos a converterem-se ao Evangelho e a viverem uma fé capaz de impregnar todas as culturas e transformar as respectivas sociedades. Todos os povos serão atraídos para Cristo e os cristãos forem capazes de apresentar um convincente testemunho de vida, responsabilidade cívica e solidariedade, um amor libertador e o contágio da sua esperança.

9.- Um desafio para os cristãos de hoje:
Um desafio está constantemente diante dos nossos olhos: Como anunciar Deus ao mundo de hoje, um mundo secularizado, dominado pelo pluralismo ideológico e por uma mentalidade naturalista, materialista, positivista e emancipada de toda a crença? Vivemos numa era de mudanças rápidas, profundas e universais. Estas mudanças são tão bruscas e radicais que semeiam a mais espantosa confusão e desorientação. Como ninguém tem a certeza de possuir a verdade absoluta, gera-se um clima de dúvida, há avanços e recuos, as pessoas vacilam, ficam desorientadas, vivem uma moral relativista, ditada pela situação e pelos interesses. Os cristãos têm todos de saber aproveitar esta situação de crise para purificar a sua fé e, ao mesmo tempo, devem ganhar confiança de que a luz não lhes faltará porque têm a Deus da sua parte, e Deus é a Luz, que brilha em Cristo e no seu Evangelho. Num momento em que os Apóstolos sentiram a agitação das águas do mar e a força da tempestade, Cristo disse-lhes: “Não temais: Sou Eu”. É de Cristo que nos vem a confiança, é em Cristo que está toda a nossa esperança. É do Espírito que nos vem a força para vencer os poderes deste mundo que lutam contra Deus e o seu Enviado, Jesus Cristo, nosso Salvador. Temos de saber aproveitar os êxitos e os fracassos, as luzes e as sombras, as derrotas e as vitórias, as desilusões e as esperanças, para ajudar a construir um mundo que seja casa de todos e felicidade para todos.

José Palos Fernandes
Redentorista

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