27/04/2026
INTERVENÇÃO SESSÃO SOLENE 25 DE ABRIL 2026 - P*P - Bombarral
Ex.ma Sr.ª Presidente da Assembleia Municipal,
Ex.mo Sr. Presidente da Câmara Municipal,
Ex.mos Sr. Vereadores e Sr.ª Vereadoras,
Ex.mos Membros da Assembleia Municipal,
Ex.mos convidados e convidadas,
Minhas senhoras e meus senhores,
Assinalamos hoje o 25 de Abril, a Revolução que devolveu a liberdade e a democracia ao povo português.
Mas dizer isto, por mais verdadeiro que seja, não chega.
Porque Abril não cabe numa frase.
Não cabe numa data.
Abril é história, sim.
Mas é também presente.
E, sobretudo, é futuro.
Abril enche-nos de respeito — mas também de responsabilidade.
Porque não basta dizer que se quer liberdade.
É preciso construí-la.
Defendê-la.
Exigi-la.
Todos os dias.
Abril começou como um desejo.
Um desejo profundo, colectivo, muitas vezes silenciado, muitas vezes perseguido.
E esse desejo transformou-se na mais bela explosão de liberdade e alegria que o nosso povo viveu.
Uma explosão que encheu ruas, praças, casas e consciências.
Uma explosão que transformou o medo em palavra,
o silêncio em grito,
a resignação em ação.
E que transformou o país por inteiro.
Celebramos hoje esse momento maior da nossa história.
E fazemo-lo num ano particularmente simbólico.
Passam 50 anos sobre a aprovação da Constituição da República Portuguesa.
Uma Constituição que não caiu do céu.
Uma Constituição que não foi concedida.
Uma Constituição conquistada.
Nascida da Revolução.
Nascida da luta.
Nascida do povo.
Uma das mais avançadas e progressistas do mundo.
E, mais do que isso, uma Constituição que, ao longo de cinco décadas, provou ser um pilar essencial para as nossas vidas.
Uma Constituição que protege direitos.
Que consagra justiça social.
Que afirma dignidade.
E que, ainda hoje, continua a ser um instrumento fundamental na defesa dos trabalhadores e das populações.
Comemorar Abril é, por isso, também reafirmar a atualidade da Constituição.
É exigir o seu cumprimento.
Integral.
Sem recuos.
Sem atalhos.
E é assumir, com clareza, que ela está hoje sob ameaça.
Há forças políticas que nunca aceitaram plenamente o projeto de Abril.
Que sempre viram a Constituição como um obstáculo.
Um obstáculo aos seus interesses.
E que, por isso, procuram hoje abrir caminho a revisões que significam retrocessos.
Retrocesso nos direitos políticos.
Retrocesso nos direitos sociais.
Retrocesso naquilo que foi conquistado com tanta luta.
Mas nós dizemos: é preciso defender a Constituição.
Essa é uma tarefa do presente.
Uma condição para termos futuro.
Porque é no respeito pelos seus princípios que se constrói um país mais justo.
Mais democrático.
Ao celebrarmos Abril, não esquecemos quem o tornou possível.
Os Capitães de Abril.
A resistência antifascista.
Os comunistas.
Os democratas.
Os trabalhadores.
A juventude.
E não esquecemos, de forma muito particular, aqueles que aqui, no Bombarral, pagaram um preço alto pela liberdade.
Presos políticos.
Homens e mulheres.
Pessoas comuns.
Mas com uma coragem extraordinária.
A eles devemos mais do que memória.
Devemos continuidade.
Abril foi uma Revolução libertadora e emancipadora.
Mas foi também uma Revolução transformadora.
Transformou a economia.
Transformou a sociedade.
Transformou a cultura.
Transformou a forma de viver.
Trouxe conquistas concretas.
Liberdade de expressão.
Liberdade de organização.
Direito ao trabalho com direitos e salário mínimo.
Direito à saúde.
Direito à educação.
Direito à habitação.
Direito à segurança social.
Trouxe o Serviço Nacional de Saúde.
Que hoje está sobre ataque
Reforçou a Escola Pública.
Construiu o poder local democrático.
Democratizou a economia.
Valorizou o trabalho.
Mas estas conquistas não são garantidas para sempre.
E hoje vemos sinais preocupantes.
Vemos a precarização do trabalho.
Vemos ataques aos direitos laborais.
Vemos tentativas de fragilizar a contratação coletiva e o direito à greve.
Vemos o desinvestimento nos serviços públicos.
Na saúde.
Na educação.
Na segurança social.
Vemos dificuldades crescentes no acesso à habitação.
Vemos o aumento do custo de vida.
Vemos desigualdades que persistem e se aprofundam.
E vemos também uma pressão constante sobre o poder local democrático — uma das grandes conquistas de Abril — através do subfinanciamento e da limitação da sua autonomia.
Não é Abril o responsável por estes problemas.
É, isso sim, o afastamento dos valores de Abril.
São políticas que colocam o lucro acima das pessoas.
Que concentram riqueza.
Que fragilizam direitos.
E, ao mesmo tempo, assistimos a algo que não podemos ignorar.
Tentativas de reescrever a história.
De branquear o fascismo.
De diminuir a importância da Revolução.
Mas a verdade é clara.
O fascismo foi repressão.
Foi censura.
Foi medo.
Foi atraso.
Foi desigualdade.
E Abril foi ruptura.
Libertação.
Dignidade.
Celebrar Abril é afirmar que a liberdade não nasceu por acaso.
Que foi conquistada.
E que tem de ser defendida.
É afirmar que o projecto de Abril continua vivo.
Não como memória.
Mas como caminho.
Um caminho para um Portugal mais justo.
Mais desenvolvido.
Mais soberano.
Sabemos que a história não está fechada.
Que o futuro não está decidido.
E que aquilo que o vai determinar é a ação coletiva.
A luta.
O compromisso.
Dos trabalhadores.
Do povo.
Dos democratas.
É com essa consciência que hoje aqui estamos.
É com essa consciência que celebramos Abril.
E é com essa confiança — firme, tranquila, determinada — que dizemos:
Abril não terminou.
Abril continua.
E Abril vencerá.
Viva o 25 de Abril!
Daniel Azevedo
Bombarral, 25 Abril de 2026