05/06/2026
UMA LABAREDA INFATIGÁVEL
“Afinal, não caminhamos debalde! Moralmente o triunfo sorri-nos. Trabalhadores modestos da obra de salvação dolorosa que Deus impôs à Europa, testemunhámos intrepidamente, das linhas de fogo às estradas do exilio, a sinceridade e a elevação da cruzada a que nos votáramos plenamente. (…)
Por nós, Portugal não morrerá! Não por nós, - caducos indivíduos de um momento, pó viajante que não demorará a juntar-se ao pó das gerações que transitaram! Mas pelo fermento que se agita nas nossas palavras, que se incendeia nos nossos corações e imprime às nossas artérias um «alerta» heroico e harmonioso. (…)
E seja o nosso brado um só, ao fincarmos, (…), um novo marco nas andanças em que a vida se nos abrasa e nos consome, - tal como uma labareda infatigável, crescendo sempre! - «Mais longe, muito mais longe ainda!».
Ninguém nos consegue subtrair à voz misteriosa que nos atira para além dos horizontes quotidianos e das contingências cobardes da nossa carne perecedoura. «Mais longe, muito mais longe ainda!». A semente que a nossa juventude espalhou na limpidez cristianíssima da manhã por sobre a gleba caída em poder de infiéis, - essa semente, aspergida, já lá vão dez anos, com o gesto lento, mas seguro, dos semeadores de Millet, frutif**a, basta e vigorosa, debaixo da graça permanente do Céu.
Não nos iludamos com a mentira convencional das aparências! É para nós de ciência certa que o Portugal bastardo em que nos debatemos tem de morrer inevitavelmente, para que o verdadeiro Portugal ressurja, sob o olhar benéfico do Senhor Deus dos Exércitos e das batalhas.”
António Sardinha, A Prol do Comum