22/05/2026
DAVID MOURÃO-FERREIRA, «SECRETA VIAGEM»
Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo nono poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.
***
SECRETA VIAGEM
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.
***
FONTES: Poema – Mourão-Ferreira, David (2006). «Obra Poética», 5.ª ed. Barcarena: Editorial Presença. 44. | Imagem – Google Imagens
***
NOTA SOBRE O AUTOR
David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 – 16 de junho de 1996).
Escritor, poeta, professor, tradutor, dirigente de várias entidades culturais, colaborador mediático.
Filho de pai democrata, David Ferreira, cujas investidas antifascistas afetaram a estabilidade familiar durante a sua infância (este chegou mesmo a ser despedido da Biblioteca Nacional, onde ocupava o cargo de secretário do diretor, Jaime Cortesão) e influíram no seu posicionamento ideológico, e de mãe alentejana, cujas origens lhe permitiram cultivar um certo imaginário rural. Encaminhado pelo filósofo Agostinho da Silva (que convenceu os pais a aceitar a sua vocação literária), licenciou-se em Filologia Românica com uma tese sobre a obra de Sá de Miranda, em 1951, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde viria a ser professor. Para além da docência e da escrita (de tal forma importante, que o autor falava no “ofício de escreviver”), desempenhou os cargos de secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores, secretário de Estado da Cultura (no âmbito do qual assinou o despacho que deu origem à Companhia Nacional de Bailado), vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, presidente do Pen Club Português e diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian. No domínio da imprensa escrita, destacou-se por ter sido um dos fundadores das folhas poéticas «Távola Redonda», dirigido o jornal «A Capital», bem como a revista «Colóquio/Letras», e participado na «Seara Nova» (privando desde muito cedo com vários escritores do grupo relacionado com esta publicação, ao qual o pai também pertenceu, nomeadamente José Rodrigues Miguéis, António Sérgio e Aquilino Ribeiro, entre outros) e assinado uma coluna de crítica de poesia no «Diário Popular». Foi também responsável, no meio televisivo e radiofónico, por vários programas de âmbito literário («Hospital das Letras», «Imagens da Poesia» e «O Dom de Contar») e constituiu presença assídua em colóquios, debates e conferências em Portugal e no estrangeiro, como ensaísta, crítico ou poeta. Mercê das relações com a indústria musical que estabeleceu durante o seu primeiro casamento com uma sobrinha de Valentim de Carvalho (note-se que possuía uma forte ligação à vida famíliar, tendo tido dois filhos deste casamento, que por sua vez lhe deram onze netos), contribuiu com letras para alguns fados de Amália (entre os quais o famosíssimo «Barco Negro»); Camané, por exemplo, viria também, posteriormente, a utilizar composições do autor na sua música. Em reconhecimento do trabalho que realizou, foi condecorado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e recebeu o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Literariamente, a sua vasta obra dividiu-se pela poesia (começou a publicar em 1950, ano de que data a primeira coletânea de poesias, «A Secreta Viagem»), pelo conto, pelo romance (numa fase tardia da vida, estreou-se com «Um Amor Feliz», premiado pela A.P.E.), pelo teatro e pelo ensaio. Influenciado por Garrett, Régio, Octavio Paz e T.S. Eliot, era avesso a movimentos ou correntes e não se filiou em nenhum dos que vigoravam na sua época (afirmou a este respeito: «Não reivindico nenhum rótulo e, em princípio, não aceito mesmo nenhum dos que me têm posto. Todos somos diferentes. E essas diferenças do universo íntimo refletem-se, naturalmente, ao nível da linguagem, diferenças lexicais, correspondentes a formas específicas de aspiração. O espírito de um autor, de um poeta, não se coaduna com as limitações terminológicas»). Os temas que se destacam na sua obra poética serão, entre outros, a mulher, o amor e o erotismo, a morte, o tempo, a cidade e a paisagem, a escrita e a angústia existencial. Do ponto de vista do estilo, que muitos consideram de rigor clássico, destacam-se o grande labor em torno do ritmo e da musicalidade e o recurso à aliteração, à metáfora e à antítese.
***
COMENTÁRIO AO POEMA
O poema «SECRETA VIAGEM» constitui parte integrante do volume homónimo «Secreta Viagem», primeiro livro de poemas de David Mourão-Ferreira, dado à estampa em 1950, e versa sobre o tema do amor.
Formalmente, trata-se de um texto composto por um total de dezasseis versos, agrupados em quatro quadras. Em termos de métrica, encontramos um predomínio do hendecassílabo e, no que respeita à rima, verifica-se um padrão regular, refletido no esquema ABAB.
Quanto à estrutura interna, o poema figura-se-nos divisível em duas partes: uma primeira, que se prolonga da primeira à terceira estrofe, em que o sujeito poético elabora o seu estado de abandono e desorientação; e uma segunda e última parte, contida na derradeira quadra, em que o sujeito se resigna face ao seu destino.
A primeira parte começa com a localização da narração que se irá seguir, um «barco», um «navio», em que o sujeito da enunciação e do enunciado foram abandonados, o que gerou desânimo (atente-se no valor metafórico dessa localização, que sugere a ideia de refúgio e/ou veículo para enfrentar um ambiente potencialmente hostil, o mar): «No barco sem ninguém, anónimo e vazio, / ficámos nós os dois, parados, de mão dada… / Como podemos só dois governar um navio? Melhor é desistir e não fazermos nada!» De seguida, temos a introdução de um elemento maravilhoso, uma vez que, nesta «secreta viagem», os sujeitos sofrem uma metamorfose, passando de seres «reais» a seres «de madeira», num processo que contém em si uma dimensão antitética, com a oposição entre movimento e estatismo, entre visão e cegueira, uma existência aprazível e uma existência atormentada. Estas ideias são sugeridas metonimicamente por vários elementos, entre os quais teremos de destacar «a madeira» e os «olhos», que, juntamente com o particípio passado «esculpidos» e a referência à «lenda», parecem remeter para um universo escultórico e insinuar que o «barco abandonado» poderá, na realidade, ser uma metáfora da relação entre o ‘’eu’ e o ‘tu’ (veja-se o valor expressivo da pontuação, que reflete a pungência do discurso do sujeito de enunciação): «Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, / tornamo-nos reais, e de madeira, à proa… / Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos… / Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa… // Aparentes senhores de um barco abandonado, / nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem… / Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado, / se justifica, enflora, a secreta viagem!»
Na segunda parte, temos a confirmação da ideia veiculada pela metáfora do «barco». Consumado o processo acima descrito (repare-se no valor semântico do advérbio «Agora»), o ‘’eu’ afirma a inevitabilidade da sua união com o ‘tu,’ inferiorizada face a tudo o resto num tom quase hiperbólico, ao ponto de ser relativizada a importância de um final trágico ou feliz, através, respetivamente, das imagens «Desfeitos num rochedo» e «salvos na enseada»: «Agora sei que és tu quem me fora indicada. / O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos. / – Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, / a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.»
Concluímos então que, neste poema de David Mourão-Ferreira, o Mar surge como um elemento no qual e contra o qual se projeta a união entre o ‘eu’ e o ‘tu’. Dicotomicamente, é razão e desafio para essa união, pois, ao mesmo tempo que os conduz, também os ameaça e os dissolve. Mais importante que a incerteza do destino, porém, é a certeza da união de ambos na intemporalidade.
*
P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 19 de junho, sexta-feira. Até lá!
■
R. M.