DANDO VOZ AOS POETAS

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DAVID MOURÃO-FERREIRA, «SECRETA VIAGEM»Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com ...
22/05/2026

DAVID MOURÃO-FERREIRA, «SECRETA VIAGEM»

Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo nono poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.

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SECRETA VIAGEM

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

***


FONTES: Poema – Mourão-Ferreira, David (2006). «Obra Poética», 5.ª ed. Barcarena: Editorial Presença. 44. | Imagem – Google Imagens


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NOTA SOBRE O AUTOR


David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 – 16 de junho de 1996).

Escritor, poeta, professor, tradutor, dirigente de várias entidades culturais, colaborador mediático.

Filho de pai democrata, David Ferreira, cujas investidas antifascistas afetaram a estabilidade familiar durante a sua infância (este chegou mesmo a ser despedido da Biblioteca Nacional, onde ocupava o cargo de secretário do diretor, Jaime Cortesão) e influíram no seu posicionamento ideológico, e de mãe alentejana, cujas origens lhe permitiram cultivar um certo imaginário rural. Encaminhado pelo filósofo Agostinho da Silva (que convenceu os pais a aceitar a sua vocação literária), licenciou-se em Filologia Românica com uma tese sobre a obra de Sá de Miranda, em 1951, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde viria a ser professor. Para além da docência e da escrita (de tal forma importante, que o autor falava no “ofício de escreviver”), desempenhou os cargos de secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores, secretário de Estado da Cultura (no âmbito do qual assinou o despacho que deu origem à Companhia Nacional de Bailado), vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, presidente do Pen Club Português e diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian. No domínio da imprensa escrita, destacou-se por ter sido um dos fundadores das folhas poéticas «Távola Redonda», dirigido o jornal «A Capital», bem como a revista «Colóquio/Letras», e participado na «Seara Nova» (privando desde muito cedo com vários escritores do grupo relacionado com esta publicação, ao qual o pai também pertenceu, nomeadamente José Rodrigues Miguéis, António Sérgio e Aquilino Ribeiro, entre outros) e assinado uma coluna de crítica de poesia no «Diário Popular». Foi também responsável, no meio televisivo e radiofónico, por vários programas de âmbito literário («Hospital das Letras», «Imagens da Poesia» e «O Dom de Contar») e constituiu presença assídua em colóquios, debates e conferências em Portugal e no estrangeiro, como ensaísta, crítico ou poeta. Mercê das relações com a indústria musical que estabeleceu durante o seu primeiro casamento com uma sobrinha de Valentim de Carvalho (note-se que possuía uma forte ligação à vida famíliar, tendo tido dois filhos deste casamento, que por sua vez lhe deram onze netos), contribuiu com letras para alguns fados de Amália (entre os quais o famosíssimo «Barco Negro»); Camané, por exemplo, viria também, posteriormente, a utilizar composições do autor na sua música. Em reconhecimento do trabalho que realizou, foi condecorado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e recebeu o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

Literariamente, a sua vasta obra dividiu-se pela poesia (começou a publicar em 1950, ano de que data a primeira coletânea de poesias, «A Secreta Viagem»), pelo conto, pelo romance (numa fase tardia da vida, estreou-se com «Um Amor Feliz», premiado pela A.P.E.), pelo teatro e pelo ensaio. Influenciado por Garrett, Régio, Octavio Paz e T.S. Eliot, era avesso a movimentos ou correntes e não se filiou em nenhum dos que vigoravam na sua época (afirmou a este respeito: «Não reivindico nenhum rótulo e, em princípio, não aceito mesmo nenhum dos que me têm posto. Todos somos diferentes. E essas diferenças do universo íntimo refletem-se, naturalmente, ao nível da linguagem, diferenças lexicais, correspondentes a formas específicas de aspiração. O espírito de um autor, de um poeta, não se coaduna com as limitações terminológicas»). Os temas que se destacam na sua obra poética serão, entre outros, a mulher, o amor e o erotismo, a morte, o tempo, a cidade e a paisagem, a escrita e a angústia existencial. Do ponto de vista do estilo, que muitos consideram de rigor clássico, destacam-se o grande labor em torno do ritmo e da musicalidade e o recurso à aliteração, à metáfora e à antítese.


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COMENTÁRIO AO POEMA

O poema «SECRETA VIAGEM» constitui parte integrante do volume homónimo «Secreta Viagem», primeiro livro de poemas de David Mourão-Ferreira, dado à estampa em 1950, e versa sobre o tema do amor.

Formalmente, trata-se de um texto composto por um total de dezasseis versos, agrupados em quatro quadras. Em termos de métrica, encontramos um predomínio do hendecassílabo e, no que respeita à rima, verifica-se um padrão regular, refletido no esquema ABAB.

Quanto à estrutura interna, o poema figura-se-nos divisível em duas partes: uma primeira, que se prolonga da primeira à terceira estrofe, em que o sujeito poético elabora o seu estado de abandono e desorientação; e uma segunda e última parte, contida na derradeira quadra, em que o sujeito se resigna face ao seu destino.

A primeira parte começa com a localização da narração que se irá seguir, um «barco», um «navio», em que o sujeito da enunciação e do enunciado foram abandonados, o que gerou desânimo (atente-se no valor metafórico dessa localização, que sugere a ideia de refúgio e/ou veículo para enfrentar um ambiente potencialmente hostil, o mar): «No barco sem ninguém, anónimo e vazio, / ficámos nós os dois, parados, de mão dada… / Como podemos só dois governar um navio? Melhor é desistir e não fazermos nada!» De seguida, temos a introdução de um elemento maravilhoso, uma vez que, nesta «secreta viagem», os sujeitos sofrem uma metamorfose, passando de seres «reais» a seres «de madeira», num processo que contém em si uma dimensão antitética, com a oposição entre movimento e estatismo, entre visão e cegueira, uma existência aprazível e uma existência atormentada. Estas ideias são sugeridas metonimicamente por vários elementos, entre os quais teremos de destacar «a madeira» e os «olhos», que, juntamente com o particípio passado «esculpidos» e a referência à «lenda», parecem remeter para um universo escultórico e insinuar que o «barco abandonado» poderá, na realidade, ser uma metáfora da relação entre o ‘’eu’ e o ‘tu’ (veja-se o valor expressivo da pontuação, que reflete a pungência do discurso do sujeito de enunciação): «Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, / tornamo-nos reais, e de madeira, à proa… / Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos… / Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa… // Aparentes senhores de um barco abandonado, / nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem… / Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado, / se justifica, enflora, a secreta viagem!»

Na segunda parte, temos a confirmação da ideia veiculada pela metáfora do «barco». Consumado o processo acima descrito (repare-se no valor semântico do advérbio «Agora»), o ‘’eu’ afirma a inevitabilidade da sua união com o ‘tu,’ inferiorizada face a tudo o resto num tom quase hiperbólico, ao ponto de ser relativizada a importância de um final trágico ou feliz, através, respetivamente, das imagens «Desfeitos num rochedo» e «salvos na enseada»: «Agora sei que és tu quem me fora indicada. / O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos. / – Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, / a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.»

Concluímos então que, neste poema de David Mourão-Ferreira, o Mar surge como um elemento no qual e contra o qual se projeta a união entre o ‘eu’ e o ‘tu’. Dicotomicamente, é razão e desafio para essa união, pois, ao mesmo tempo que os conduz, também os ameaça e os dissolve. Mais importante que a incerteza do destino, porém, é a certeza da união de ambos na intemporalidade.

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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 19 de junho, sexta-feira. Até lá!





R. M.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, «O MAR»Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação...
17/04/2026

ANTÓNIO RAMOS ROSA, «O MAR»

Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo oitavo poema, da autoria de António Ramos Rosa, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.

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O MAR

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!


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FONTES: Poema – António Ramos Rosa (2020). «Obra Poética II». Lisboa: Assírio & Alvim. 250. | Imagem – Google Imagens


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NOTA SOBRE O AUTOR


António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de outubro de 1924 — Lisboa, 23 de setembro de 2013).

Poeta, escritor, tradutor, professor/explicador de línguas, administrativo e comercial.

Por motivos de saúde, não concluiu o ensino secundário. Exerceu, como dissemos, as funções de empregado de escritório e comercial, as quais lhe desagradavam por inibirem a sua veia criativa (o célebre poema «O Funcionário Cansado» é prova disto), até que eventualmente se passou a dedicar exclusivamente à atividade literária. Esteve envolvido no Movimento de Unidade Democrática, que se opunha à ditadura salazarista, e por esse motivo chegou a estar preso por três meses. Casou com a poetisa Agripina Costa Marques, e juntos tiveram uma filha.

Para além de poeta, destacou-se enquanto ensaísta (um dos seus trabalhos, «Incisões Oblíquas: estudos sobre poesia portuguesa contemporânea», de 1987, foi agraciado com o prémio Jacinto do Prado Coelho, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários), colaborador de periódicos (entre muitos outros, fundou e colaborou com a revista «Árvore», que propunha um novo ideário poético e se tornou incómoda para o regime, sendo proibida pela censura a partir do quarto número) e tradutor (verteu para português autores de renome como Camus, Gide, Foucault, Brecht, Stendhal e Yourcenar, e a sua antologia de Paul Éluard, «Algumas das Palavras» recebeu, em 1976, o prémio de Tradução da Fundação de Hautevilliers).

A sua profusa obra poética (a primeira obra, «O Grito Claro», data de 1958 e foi seguida por várias dezenas de obras, até à última publicação, «Numa folha, leve e livre», no ano da sua morte), caracterizada por simplicidade vocabular (com predomínio do nome e do adjetivo face ao verbo) e depuração e liberdade formais e estilísticas (que sublinham a importância da mancha gráfica, a par do valor fónico), versa sobre temas como a denúncia da alienação, a palavra como cosmogonia e o amor e o desejo. Para Ramos Rosa, o poema era, mediante o uso da palavra, o espaço privilegiado para a questionação e/ou busca de algo por desvendar, para a criação, e não para a representação de algo pré-existente, nomeadamente no que se refere às relações entre o homem e a realidade em que se insere. A crítica desde cedo reconhece o valor da lírica ramos-rosiana, tendo-lhe sido atribuídas numerosas distinções de prestígio ao longo da sua carreira (nem todas aceites: o autor recusou o Prémio Nacional de Poesia atribuído pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo, em 1971, decisão a que não terá sido alheia a sua oposição ao regime ditatorial).

Em reconhecimento do seu contributo para a Cultura Portuguesa, foi tornado Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’lago da Espada (1992) e condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1997).


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COMENTÁRIO AO POEMA

O poema «O MAR» constitui parte integrante do volume poético «Facilidade do Ar», publicado por António Ramos Rosa em 1990, e versa sobre o tema do Mar.

Formalmente, o poema é constituído por vinte e um versos, agrupados numa estrofe bárbara. Predomina o verso livre ou verso branco, ou seja, não há rima definida, o que confere ao poema uma maior fluidez expressiva. Quanto à métrica, o poema pode ser caracterizado como versilibrista, o que significa que não segue uma métrica fixa, permitindo que a forma poética se ajuste ao conteúdo. Esta liberdade formal sugere que o conteúdo do poema, mais do que a forma, é o principal orientador da expressão poética, espelhando, de certa forma, o movimento livre e imprevisível do mar.

Relativamente à estrutura externa, o texto pode ser dividido em duas partes: uma primeira, que se prolonga do primeiro ao décimo primeiro verso, em que se descrevem as ondas do mar e se narra o seu movimento; e uma segunda, entre os versos décimo segundo e vigésimo primeiro, em que o ‘eu’ lírico se dirige às ondas e ao mar.

Na primeira parte, o ‘eu’ centra-se nas ondas, para, metonimicamente, descrever o mar. Nos quatro versos iniciais, o movimento ondular é narrado de forma extensa, sendo equiparado a um ritual amoroso, sugerido pelas formas verbais que sugerem movimentos de natureza cubicular, a saber, «descansam», «abrem-se», «caem», bem como pelos lexema «lábios» e «amorosamente» e pela locução «gesto nupcial», que parecem contribuir para introduzir uma dimensão sensual no texto (atente-se na aparente personificação das ondas): «Ondas que descansam no seu gesto nupcial / abrem-se caem / amorosamente sobre os próprios lábios / e a areia». Temos, depois, uma enumeração de metáforas que constroem um universo de antíteses relativo ao mar, que exprimem a sua natureza dualística, oscilando entre estatismo e movimento, som e silêncio, nascimento e morte, etc. (veja-se como se destacam as sinestesias, que conferem ao poema uma intensidade sensorial): «ancas verdes violetas na violência viva / rumor do ilimite na gravidez da água / sussurros gritos minerais inércia magnífica / volúpia de agonia movimentos de amor / morte em cada onda sublevação inaugural». No fim desta parte, dois versos aludem à inseparabilidade entre mar e terra, sendo que o primeiro “ama” a segunda, e ao paradoxo representado pelas ondas, simultaneamente efémeras mas eternamente repetidas: «abre-se o corpo que ama na consciência nua / e o corpo é o instante nunca mais e sempre».

A segunda parte contém uma sucessão de apóstrofes, marcadas pelas anáforas com a interjeição «Ó», que exprimem a admiração do ‘eu’ perante a grandiosidade duplícita do mar, expressa, uma vez mais, com metáforas que aludem a dicotomias como «silêncio» vs. «explosões», «amor» vs. «desamor», «múltiplo» vs. «uno» e, não menos importante, permanência vs. desmoronamento (veja-se como as metáforas introduzem uma forte componente visual no poema, sobretudo nos primeiros versos, com as referências antropomórficas «seios e nuvens» e as «cabeças espumosas»): «ó seios e nuvens que na areia se despenham / ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas / ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões / ó eternidade do mar ensimesmado unânime / em amor e desamor de anónimos amplexos / múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes / ó mar ó presença ondulada do infinito / ó retorno incessante da paixão frigidíssima / ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente / ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!»

Concluímos então que, no poema «O MAR», de Ramos Rosa, o mar surge representado através de metáforas e imagens sensoriais que ajudam o sujeito lírico a compor uma entidade complexa e ambivalente. Simultaneamente pacífico e violento, antiquíssimo e renovado, transitório e eterno, o mar exerce sobre o sujeito poético um fascínio avassalador que, por contraste, sublinha a efemeridade da experiência humana.

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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 22 de maio, sexta-feira. Até lá!





R. M.

SEBASTIÃO DA GAMA, «VERSOS AO MAR»Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a pub...
20/03/2026

SEBASTIÃO DA GAMA, «VERSOS AO MAR»

Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo sétimo poema, da autoria de Sebastião da Gama, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.

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VERSOS AO MAR

Ai!,
o berço da tua voz,
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar;
e hás-de passar, ó Mar!,
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas comovidas,
pra que sintas por mim as minhas dores
e eu sinta só o bálsamo nas feridas.
Como se fosses tu a minha Mãe...
Como se fosses tu a minha Noiva...

E hás-de contar-me histórias velhas
de Marinheiros...
Histórias de Sereias e de Luas
que se perderam por ti...
E se a Morte vier há-de quedar,
toda encantada, a ouvir-te,
e, sem ânimo já de me levar,
sorrindo, voltará por seu caminho
(não na sentimos vir, nem ir, tão de mansinho
se passou tudo, Mar!), voltará de mansinho,
pé ante pé, pra não nos perturbar,

mas saudosa da tua voz de berço...

‘Forte de Santa Maria, 3-4.Abr. 1945’


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FONTES: Poema – GAMA, Sebastião da (2024). «O Inquieto Verbo do Mar». Lisboa: Assírio & Alvim. 17-18. | Imagem – Google Imagens


Observação: a transcrição respeita a ortografia apresentada na fonte.


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NOTA SOBRE O AUTOR


Sebastião Artur Cardoso da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, 10 de abril de 1924 — Lisboa, 7 de fevereiro de 1952).

Poeta e professor.

Licenciou-se em Filologia Românica, em 1947, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Trabalhou como professor na Escola Industrial e Comercial Veiga Beirão de Lisboa, na Escola Industrial e Comercial de Setúbal (atualmente chamada Escola Secundária Sebastião da Gama) e na Escola Industrial e Comercial de Estremoz.

No plano temático da sua obra poética, destacam-se as agruras causadas pela tuberculose renal, patologia que o atormentou desde tenra idade e que o vitimaria precocemente, aos vinte e sete anos, e a exaltação do local em que vivia, a Serra da Arrábida, que constituia um sinal de beleza divina, apaziguador da sua perturbação. À semelhança de Frei Agostinho da Cruz (comparação que Ruy Cinatti, de resto, estabelecera já em 1944, no exemplar do poeta azeitonense de «Nós não somos deste mundo», ao escrever a dedicatória «Ao jovem sucessor de Frei Agostinho, Sebastião da Gama, afectuosamente»), tornou-se também um cantor da Arrábida, intitulando-se o seu livro de estreia, de 1945, «Serra-Mãi [sic]» (esta obra, de resto, abre precisamente com dois versos de Frei Agostinho). Não poderemos ignorar, ainda, o facto de encontrarmos na sua obra um exemplo de superação da dicotomia entre engajamento social e liberdade criativa, predominante durante a vigência do Neorrealismo, afirmando em 1946, em carta a David Mourão-Ferreira, que «a arte é a vida, nos seus matizes múltiplos, posta em beleza, não a política, não a religião, não a moral postas em beleza; que o artista verdadeiro apenas responde às vozes que chamam dentro de si - o que não quer dizer que essas vozes não tenham sido caldeadas em muitas vozes exteriores». Hernâni Cidade, seu professor na Faculdade de Letras, afirmou, em termos gerais, que a sua obra «é de poeta pela graça de Deus, ser em amoroso, fraternal convívio com as almas e com as coisas, fazendo da vida um permanente anseio de comunicação simpática, de alegre dádiva.»

Além de publicar volumes de poesia, colaborou, entre outras publicações, com as revistas «Mundo Literário», «Árvore» e «Távola Redonda» e legou-nos um «Diário», publicado postumamente em 1958, documento de interesse não só para as Ciências da Educação, pelas reflexões que encerra sobre a carreira docente a partir da sua experiência como professor estagiário na Escola Veiga Beirão, mas também para as Ciências Literárias, pelas revelações sobre a sua identidade como pessoa e escritor.

A importância do legado de Gama teve fortes consequências a nível local. Uma carta da sua autoria a várias personalidades ilustres, datada de 1947, a pedir a defesa da Serra da Arrábida, acabou por dar origem, no ano seguinte, à primeira associação ecologista do país, a LPN - Liga para a Protecção da Natureza. Mais recentemente, em 1999, foi inaugurado em Vila Nogueira de Azeitão o Museu Sebastião da Gama, dedicado à sua vida e obra. Em 2008 recebeu, postumamente, o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade de Setúbal. É promovido também, por iniciativa de Juntas de Freguesia da zona, o Prémio de Poesia Nacional de Poesia Sebastião da Gama.


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COMENTÁRIO AO POEMA


O poema «VERSOS AO MAR» constitui parte integrante de «Serra-Mãi» [‘sic’], o primeiro livro publicado por Sebastião da Gama, em 1945, e versa sobre o tema do Mar.

Formalmente, trata-se de um texto constituído por trinta versos, agrupados numa quadra, uma quintilha, uma nona, uma estrofe bárbara de onze versos e um monóstico; predomina o verso branco, sendo a rima residual, e, quanto à métrica, pode caracterizar-se como versilibrista, propriedade que sugere o predomínio do conteúdo sobre a forma.

Relativamente à estrutura externa, a composição afigura-se-nos divisível em duas partes: uma primeira, correspondente à quadra inicial, em que se explica a relação entre sujeito de enunciação e sujeito do enunciado, o Mar, e uma segunda, que se prolonga pelo resto do poema, em que se apresenta uma representação do futuro com base na relação existente entre as entidades.

Na primeira parte, o ataque com a interjeição «Ai!» denuncia o caráter confessional do texto e sugere desde logo a relação de proximidade entre os sujeitos de enunciação e do enunciado, depois materializada na metáfora do «berço», associada à «voz» e ao «jeito de mão» trazido pelas «ondas» — que, de resto, contribuem para a personificação do «Mar»: «Ai!, / o berço da tua voz, / e esse jeito de mão que tens nas ondas, / Mar!»

Na segunda parte, a conjugação «Quando» sugere um espaço temporal subsequente e condicional, em que, face à sua fraqueza, expressa pela queda sobre as «conchas», metonímia do Mar, o sujeito de enunciação antecipa o aconchego trazido pelo «Mar», metaforizado como a «Mãe»: «Quando eu cair exausto / sobre as conchas da praia e fique ali / doente e sem ninguém, / hás-de ser tu quem me trate, / quero que sejas tu a minha Mãe.» A ideia expressa na metáfora materna, desenvolvida de seguida com lexemas do campo semântico da infância, com função metonímica, como sejam «embalar», «berço» e «febre», é reiterada com uma comparação e estendida ao universo amoroso, com uma comparação anafórica à «Noiva» (sugerida já anteriormente pela componente erótica patente na metonímia das «mãos piedosas»): «Há-de embalar-me a tua voz de berço, / pra que a febre me deixe sossegar; / e hás-de passar, ó Mar!, / pelo meu corpo em chaga, / as tuas mãos piedosas comovidas, / pra que sintas por mim as minhas dores / e eu sinta só o bálsamo nas feridas. / Como se fosses tu a minha Mãe... / Como se fosses tu a minha Noiva...» De seguida, a faceta de «Noiva» surge ainda associada a uma componente magnética e fantasiosa, sugerida pelo ato de contar histórias maravilhosas (atente-se nas metonímias dos «Marinheiros», «Sereias» e «Luas») e na capacidade de dissuadir a própria «Morte» — aqui personificada — de cumprir a sua missão perante o magnetismo do «Mar», afastando-se, porém, também rendida aos encantos da «voz de berço» daquele: «E hás-de contar-me histórias velhas / de Marinheiros... / Histórias de Sereias e de Luas / que se perderam por ti... / E se a Morte vier há-de quedar, / toda encantada, a ouvir-te, / e, sem ânimo já de me levar, / sorrindo, voltará por seu caminho / (não na sentimos vir, nem ir, tão de mansinho / se passou tudo, Mar!), voltará de mansinho, / pé ante pé, pra não nos perturbar, // mas saudosa da tua voz de berço...»

Concluímos então que, neste poema, o «Mar» surge como uma entidade multifacetada, assumindo os papéis de mãe, curadora, noiva e narradora de histórias maravilhosas. Para Sebastião da Gama, sabemos, o mar foi uma presença vital, indissociável da sua breve biografia; uma presença vital, que acalmava, curava e até transcendia a morte — constatações que terá registado, como se vê, junto à datação do poema, na sua estadia no «Forte de Santa Maria» [da Arrábida, onde funcionava a Estalagem de Santa Maria e viveu o autor].




R. M.

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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 17 de abril, sexta-feira. Até lá!

ALEXANDRE O’NEILL, «CANÇÃO»  Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicaç...
27/02/2026

ALEXANDRE O’NEILL, «CANÇÃO»


Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo sexto poema, da autoria de Alexandre O’Neill, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.


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CANÇÃO

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sois
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem


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FONTES: Poema – O’NEILL, Alexandre (1982). «Poesias Completas: 1951/1981». Lisboa: IN-CM. 34. | Imagem – Google Imagens

Observação: A transcrição do poema respeita a grafia original.


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NOTA SOBRE O AUTOR


Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões (Lisboa, 19 de dezembro de 1924 — Lisboa, 21 de agosto de 1986).

Escritor, poeta e tradutor.

Nascido na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, era filho de José António Pereira de Eça O'Neill de Bulhões, bancário descendente de irlandeses, e Maria da Glória Vahia de Barros de Castro, dona de casa, e neto paterno da escritora Maria O'Neill, de origem aristocrática. Ainda jovem, foi premiado pela sua escrita no Colégio Valsassina e chegou a publicar versos no «Flor do Tâmega», um jornal de Amarante, embora a família não apoiasse o seu interesse pela literatura. O seu percurso profissional, porém, teria sempre que ver com a escrita: paralelamente à carreira literária, passou por empregos como escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio, foi colunista em periódicos como o «Diário de Lisboa», «A Capital» e o «Jornal de Letras» e acabou por dedicar-se à redação publicitária, criando vários slogans memoráveis como «Há mar e mar, há ir e voltar». Fixou-se na zona do Príncipe Real e recebeu o prémio da Associação de Críticos Literários, em 1981, por «Poesias completas: 1951-1981». Teve ainda dois casamentos, dos quais resultaram dois filhos, ambos sem descendência.

Desde cedo demonstrou interesse pelo Surrealismo: em 1947, afirmou na sua correspondência possuir os manifestos de Breton e começou a experimentar, com Cesariny e Mário Domingues, novas técnicas literárias que desagregavam a lógica e promoviam a plurissignificação textual («Cadáveres Esquisitos» e «Diálogos Automáticos»); em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, de que fariam parte figuras como Cesariny, José-Augusto França, António Pedro e Vespeira, entre outros, que se reuniriam na Pastelaria Mexicana para cultivar a oposição à corrente neorrealista e ao regime salazarista, até à saída de Cesariny, em 1948, que resultaria na formação do Grupo Surrealista Dissidente. Em 1949, a propósito da Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, O'Neill publicou um dos primeiros números dos Cadernos Surrealistas, «A Ampola Miraculosa», obra composta por imagens e legendas sem nexo entre si, que viria a ser considerada paradigma do Surrealismo português.

Apesar da extinção dos grupos surrealistas e do seu afastamento de grupos e tertúlias, O’Neill continuou a assumir-se como cultivador daquela estética no volume poético subsequente, «Tempo de Fantasmas», quer explicitamente, no «Pequeno Aviso do Autor ao Leitor», quer implicitamente, em poemas como «Diálogos Falhados» ou «A Central das Frases», ou até mesmo em motivos tipicamente surrealistas como a bicicleta ou a máquina de costura. Integra esta obra o célebre poema «Um Adeus Português», baseado na sua impossibilidade de se juntar a Nora Mitrani em Paris (e, ditariam as circunstâncias, de a voltar a ver por completo), depois de se apaixonarem durante uma vinda desta a Lisboa para ministrar uma palestra sobre Surrealismo, por lhe ter sido negado o passaporte após um interrogatório na PIDE. Ainda que nunca tenha feito parte de nenhum partido político, O’Neill continuaria a ser vigiado pela PIDE, sobretudo após ter estado preso durante vinte e um dias por ter ido esperar Maria Lamas, no seu regresso do Congresso Mundial da Paz em Viena. Com a obra seguinte, «No Reino da Dinamarca», teria o seu reconhecimento como poeta, e não mais pararia de editar até quase ao seu desaparecimento, que ocorreria aos sessenta e um anos, na sequência de alguns problemas de saúde de natureza vascular que o atormentaram na fase final da vida.

Deixou-nos poesia, contos, crónicas, antologias de outros poetas e traduções. De caráter vanguardista, nomeadamente pela incorporação de aspetos surrealistas e para-concretistas, evidentes no uso lúdico do léxico, no seu bestiário e nos «inventários» surrealistas, e apresentando uma forte componente satírica relativamente à cultura nacional, que pretendia desconstruir a mitificação neorrealista do proletariado através da denuncia da mesquinhez e do absurdo da vida vistos sem dramatismo e ultrapassados com recurso ao humor e à ironia (vejam-se a paródia discursiva e social, bem como o uso da gíria, do calão e até de neologismos), os seus escritos exploram temas como o amor, o sonho, a solidão, a passagem do tempo e a morte, os quais, não raro, conduzem a um sentimento de revolta e medo (cf. «O Poema Pouco Original do Medo»). Em reconhecimento da qualidade da sua obra, recebeu em 1982 o prémio da Associação de Críticos Literários e em 1990, a título póstumo, foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Para além da literatura e da colaboração com periódicos como a revista «Almanaque», será de reconhecer ainda o seu trabalho em outros domínios artísticos, nomeadamente na música (escreveu a letra para o famoso fado «Gaivota», de Amália), na televisão (onde participou em vários programas), no teatro e no cinema (para que escreveu vários guiões).


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COMENTÁRIO AO POEMA


O poema «CANÇÃO» constitui parte integrante da obra «TEMPO DE FANTASMAS», o primeiro livro de poesia de Alexandre O’Neill, editado em 1951, e versa sobre o tema da liberdade.

Formalmente, estamos perante um texto composto por dezasseis versos, agrupados em quatro quadras. No que respeita à métrica, verifica-se o predomínio do heptassílabo; quanto à rima, o texto apresenta verso branco, o que parece sugerir um predomínio do conteúdo sobre a forma.

Relativamente à estrutura interna, o poema afigura-se-nos como um único bloco em que o sujeito poético manifesta o seu desejo de mudança face ao mundo e aos seus pares.

No início, torna-se claro o esquema em torno do qual o poema se alicerça, a saber, uma série de alusões a elementos naturais, associados a qualidades e, em muitos casos, também a partes do corpo. A primeira ocorrência relaciona-se com «a última estrela / da avareza da noite», sugestiva de uma condição pessimista, que deve dar lugar à «esperança» a «arder em nosso peito» (a antítese estabelecida entre a «noite» e a «estrela», bem como a referência ao fogo, através do verbo «arder», reforçam a oposição apresentada): «Que saia a última estrela / da avareza da noite / e a esperança venha arder / venha arder em nosso peito». De seguida, temos uma nova transição, desta feita dos «rios da paciência da terra» para o «mar», cuja dimensão é mais propícia à «aventura» por oposição aos «rios da paciência», que ocasiona uma ideia de condicionalismo e de resignação face ao mesmo, porventura relacionada com a condição negativa identificada na primeira estrofe, a abandonar em prol de uma postura mais aventureira (é de interesse atentar não só na antítese, que continua aqui, agora baseada na dimensão, com a oposição «rio» vs. «mar», mas também no estabelecimento do jogo entre os quatro elementos, ar e fogo, com a «estrela», e a «terra» e a água, com o «rio» e o «mar»): «E saiam também os rios / da paciência da terra / É no mar que a aventura / tem as margens que merece». Depois disto, uma última referência aos «sois / que apodreceram no céu / dos que não quiseram ver», ou seja, «sois» que não emitiam luz, servindo apenas aqueles que, propositadamente, «não quiseram ver», e, portanto, merecem ser punidos ou, pelo menos, expiar os seus pecados (a caminhada «de joelhos» sugere-o metonimicamente): «E saiam todos os sois / que apodreceram no céu / dos que não quiseram ver / — mas que saiam de joelhos». Por fim, um apelo à ação e a afirmação de que a mudança poderá ser efetuada com ações concretas: «E das mãos que saiam gestos / de pura transformação / Entre o real e o sonho / seremos nós a vertigem».

Podemos então concluir que, neste poema de O’Neill, marcado por uma forte herança surrealista — de que não se consegue libertar apesar da sua demarcação do movimento — patente, entre outras coisas, na exploração do inconsciente, do irracional e do onírico, este último associado à realidade, o Mar surge como uma metáfora da liberdade e possibilidade face a um cenário marcado pela falta de visão e pela complacência — porventura, uma representação metonímica da realidade do Estado Novo, marcada pelo medo, pelo fechamento e pela resignação.





R. M.


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P.S.: Por motivos pessoais e familiares, as nossas publicações passaram a ter periodicidade mensal, ficando previstas para a última sexta-feira do mês (caso tal não seja exequível, anteciparemos ou adiaremos a publicação em função das restrições de calendário). Assim, contamos regressar no dia 20 de março, sexta-feira. Até lá!

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