27/05/2026
Segurança em Cabo Delgado exige abordagem sociológica e fim da economia da guerra, dizem especialistas
Participantes defendem a necessidade de um novo paradigma para a resolução do conflito em Cabo Delgado, alertando que abordagens puramente militares e o silêncio institucional têm falhado em responder às causas da insurgência. A mesa-redonda sobre a situação de segurança na província teve lugar no dia 12 de Maio de 2026, em Maputo, no processo do Diálogo Nacional Inclusivo implementado pela Comissão Técnica (COTE), contando com o Joaquim Manjate como orador e a moderação de Domingos Gundana.
Na sua apresentação, Joaquim Manjate defendeu que a solução para Cabo Delgado passa por uma abordagem assente na sociologia da guerra e na inteligência cultural, e não apenas no uso da força. Na sua visão, a primeira grande medida deve ser a quebra do "tabu" em torno do conflito, permitindo a entrada livre da imprensa na província para garantir a transparência. O orador denunciou ainda a existência de uma economia que se alimenta do conflito, onde patentes militares e empresários locais lucram com a manutenção da instabilidade. “Neste momento, estamos mergulhados num problema. Militares e empresários estão a fazer dinheiro com a guerra em Cabo Delgado. Os comandantes estão todos negociantes. É preciso parar com as causas e separar o problema das pessoas que se estão a aproveitar da situação”, salientou.
Durante a discussão, participantes apontaram que a crise no norte do país é agravada pelo desconhecimento das dinâmicas históricas e transfronteiriças da região, pela exclusão económica dos jovens que perdem o acesso ao garimpo informal para as multinacionais, e pela desinformação digital nas redes sociais, que gera pânico e afasta a juventude da defesa da pátria. Os intervenientes sublinharam que a proliferação de projectos e organizações não governamentais sem controlo do Governo e a falta de formação profissional local impedem que a população beneficie dos megaprojectos de gás e rubis, alimentando um sentimento de revolta que facilita o aliciamento dos jovens pela insurgência.
Por sua vez, o vice-presidente da COTE, Alberto Ferreira, destacou a urgência de responder ao ceticismo generalizado com propostas concretas de emancipação juvenil e infraestruturas resilientes, sublinhando que a pacificação deve superar as antigas lógicas político-partidárias em nome da soberania nacional. “Já não nos vestimos de partidos políticos, vestimo-nos de que somos moçambicanos. Cada moçambicano é chamado hoje a dizer a sua voz e fazer-se sentir efectivamente”, considerou.
Fundação MASC IMD - Instituto para Democracia Multipartidária