04/10/2022
“Imagine-se duas liteiras ou coches vindas de direções diferentes. Ninguém se sentia obrigado a ceder passagem. O conde porque era mais importante que o barão, o comerciante porque era mais rico do que o outro…
(…)
Na Rua do Salvador, mesmo ao pé das Portas do Sol, em Alfama, há uma inscrição numa parede que pode passar despercebida aos mais distraídos, mas que é de grande importância histórica. A placa de mármore é, nem mais nem menos do que o mais antigo sinal de trânsito de Lisboa e do mundo (o único que sobreviveu dos 24 mandados colocar por ordem do rei D. Pedro II).
Em 1668, Lisboa era a capital vibrante (…) A ela afluíam a nobreza e os mercadores, que tinham de partilhar as estreitas ruas com os habitantes da cidade.
Em tempos em que a honra era frequentemente lavada com sangue, as disputas de trânsito podiam tornar-se um caso sério e a meio da artéria, a Rua do Salvador estreita consideravelmente. (…).
A Rua do Salvador (…) no século XVII fazia parte do percurso que ligava o castelo à zona ribeirinha da cidade de Lisboa e era uma das mais concorridas da cidade. E ainda por cima, era utilizada por quem tinha afazeres junto da corte.
Entre os cocheiros, os liteiros e os lacaios que transportavam os senhores era comum rebentar uma acesa discussão que não poucas vezes terminava em pancadaria.
Para evitar que os conflitos estalassem, D. Pedro II ordena então que quem viesse a subir a colina em direção ao castelo teria prioridade sobre quem descesse, sendo obrigados estes últimos a recuar até àquela que agora é a Rua de São Tomé.
A placa colocada numa parede à direita de quem sobe, diz:
“ANO DE 1686 / SUA MAJESTADE ORDENA / QUE OS COCHES, SEGES / E LITEIRAS QUE / VIEREM DA PORTARIA / DO SALVADOR RECUEM / PARA A MESMA PARTE”
(…)
O problema do trânsito deveria ser mesmo um caso sério nessa Lisboa setecentista, uma vez que o monarca não se limitou a colocar um ou outro sinal de trânsito, mas fez mesmo um equivalente ao Código de Estrada com penalidades que não eram nada meigas.
Se hoje nos queixamos das multas de trânsito, imagine-se nessa segunda metade do século XVII, quando os cocheiros, lacaios ou liteiros foram expressamente proibidos de usar adagas, bordões ou quaisquer outras armas que pudessem ser usadas numa discussão de trânsito.
Quem desobedecesse à ordem real pagaria a exorbitância de 2.000 cruzados de multa ou corria mesmo o risco de ser degredado para Pernambuco, Baía ou Rio de Janeiro.
Fonte: Portugal \Jorge Montez via Maria Helena Evangelista