Biblioteca Dr. Fontes Ibiapina

Biblioteca Dr. Fontes Ibiapina Biblioteca Dr. Fontes Ibiapiana é um espaço para promoção da leitura "manual" em tempos de leitura virtual. O prazer de ler compassadamente longos textos.

João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, nome de registro, tornava-se muito grande para um escritor. Sabiamente e com muito bom gosto, ao publicar seu primeiro livro, Nonon passa a assinar-se apenas FONTES IBIAPINA. Nascido em Picos, na zona rural, no lugar chamado "Vaca Morta", a 14 de junho de 1921, filho de Pedro de Moura Ibiapina e Raimunda Fontes de Moura, fez o primário em sua terra natal e o se

cundário em Teresina, bacharelando-se em Direito, em 1954, pela velha Faculdade da Praça Demóstenes Avelino. Ainda como estudante dedicou-se por algum tempo ao jornalismo. Findo o seu curso de Direito, entra logo para a magistratura, sendo juiz em várias comarcas do Piauí, a última em Parnaíba, onde publicava semanalmente artigos de crítica nos jornais, exercia o magistério, participava de toda a vida intelectual da cidade, e como tal ajudou a fundar a Academia Parnaibana de Letras e foi um dos seus presidentes. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Piauí e da Academia Piauiense de Letras, sua maior glória não está no magistério, no jornalismo ou mesmo na magistratura, e sim na literatura. Deixou uma grande obra, tanto em quantidade como em qualidade, em torno de 30 títulos. Talvez, por causa da complexidade do seu mundo pensado e escrito, os professores e estudantes não o têm procurado com freqüência para trabalhos acadêmicos, quer na área literária quer na de ciências sociais. Já não falamos dos críticos de jornais e revistas, que sumiram simplesmente, não existem mais. É uma pena, pois, que se deixe tão rico patrimônio inexplorado. Depois de sua morte, teve apenas uma obra sua editada no Piauí: a Fundação Cultural Monsenhor Chaves publica o volume Crendices, Superstições e Curiosidades Verídicas no Piauí, em 1993. Trata-se de continuação de sua "Paremiologia Nordestina", de 1975, editado pelo Governo do Estado, através da Cia. Editora do Piauí. São adágios, rifões, brocardos, anexins, parêmias, máximas, ditados, expressões, comparações, relaxos, paleios, chulos, enfim toda uma riqueza do homem nordestino em sua criatividade de caboclo sem letras mas muitas vezes mais sabido que os doutores da cidade. Na área literária propriamente dita saíram apenas dois folhetos - não seriam propriamente livros - divulgando contos de Fontes Ibiapina: um que reúne Trinta e dois e Tangerinos, em 1988, e outro com o conto inédito Dr. Pierre Chanfubois, sem data de publicação, mas que se atribui seja do ano seguinte. Ambos os opúsculos tiveram a chancela das Edições Corisco, do editor Cinéas Santos. Fontes Ibiapina era uma pessoa alegre, recebia a todos muito bem, dava a impressão de ser feliz. Andou por muitas comarcas do Piauí, experimentou quando na Capital, antes de tornar-se magistrado, a indústria, quando sofreu um acidente. Mas nunca se queixava, sempre contando histórias, dizendo "chuleios", incentivando a que os jovens escrevessem prosa. Só ficava brabo se o chamassem de poeta. Talvez porque houvesse experimentado a poesia e sentisse que não era o seu forte. Aliás, é difícil encontrar um prosador que não tenha feito poemas. Esses são alguns traços pouco conhecidos da vida de Nonon, como era conhecido na intimidade. Era um homem curioso, sempre atento ao que a ciência tinha para oferecer. Faleceu no dia 10 de abril de 1986, na cidade de Parnaíba, onde exercia as funções de Juiz de Direito, depois de ficar, na noite anterior, horas e horas com uma luneta na mão para observar a passagem do cometa Halley. Obras :

Contos - Chão de Meu Deus, 1958 - 2ª ed. 1965
Brocotós, 1961
Pedra Bruta, 1964
Congresso de Duendes, 1969
Destinos de Contratempos, 1974
Quero, Posso e Mando, 1976
Eleições de Sempre e Até Quando, 1985*
Romances - Sambaíba, 1963
Palha de Arroz, 1968
Tombador, 1971
Nas Terras do Arabutã, 1984
Curral de Assombrações, 1985
Vida Gemida em Sambambaia, 1985*
Crônicas: - Mentiras Grossas do Zé Rotinho, 1977
Lorotas e Pabulagens de Zé Rotinho, s/d de publicação
Folclore: - Paremiologia Nordestina, 1975
Passarela de Marmotas, 1975
Teatro: - O Casório da Pafunsa, 1982. Segundo consta de uma das folhas iniciais de "Curral de Assombrações", deixou escritas e organizadas outras tantas obras, mas inéditas, as quais enumeramos:

"Pecado é o que Cai do Cacho" - romance;
"Amor Roxo", "Mentiras de Verdades", "Onde a Velha Mediu de Cócoras", "Onde o Filho Chora e a Mãe não Ouve" e "Nas Capembas Rajadas" - contos;
"Gente da Gente", "Desfile de Malucos", "Mentiras ou Não, o Povo Conta", "Crendices e Superstições do Piauí", "Terreiro de Fazenda", "Ponta de Terreiro" e "Almas Penadas" - folclore. Anunciava também "Augusto dos Anjos" - ensaio e "Brasileirismos do Piauí" - dicionário. Observe-se que as obras assinaladas com asterisco só circularam depois da morte do autor, muito embora ele as tenha deixado preparadas e prontas para a edição. Eram livros que concorreram a concurso nacional e foram premiados. Há testemunhos de que Fontes Ibiapina, depois que publicou Chão de Meu Deus, contos premiados nos concursos da Cigarra e de Alterosa, não gostava de mexer em seus livros depois de escritos. Entretanto, parece que já prevendo a morte, gastou muito tempo reescrevendo Vida Gemida em Sambambaia, pelo que se atribui ser esta sua obra mais bem elaborada. Desenvolvimento crítico

Fontes Ibiapina foi o escritor piauiense que primeiro e melhor fez um trabalho genuinamente de recriação estilística da língua, na prosa dos primeiros anos da década de 50 do século XX, resultando uma linguagem literária própria. Na literatura brasileira, podemos citá-lo ao lado de Guimarães Rosa, José Cândido de Carvalho e Mário Palmério; na literatura piauiense e do Nordeste, ocorrem-nos os nomes de José Lins do Rego e Alvina Gameiro, de William Palha Dias e José Expedito Rego. Mais um pouco além, geograficamente, há no Tocantins um nome que não pode ser olvidado, dando continuidade ao filão que é o regionalismo: Moura Lima, descendente de troncos familiares piauienses. Enumero tantos nomes para destacar o talento e o valor do nosso escritor entre eles. Fontes Ibiapina bem merecia estar sendo reeditado nacionalmente. Mas não há memória neste país, nem histórica nem literária. É injustificável o esquecimento a que está relegado. "Chão de Meu Deus", de 1958, e "Curral de Assombrações", de 1985, são dois livros fantásticos, indiscutivelmente de alto nível. Os demais, quase todos também o são, ora pelo trato literário, ora pela pesquisa de linguagem, ditados, folclore, usos e costumes de um tempo que já vai distante, mas nem por isto desimportante. É pelo conhecimento do passado que damos orientação ao futuro. E por haver Fontes Ibiapina criado um modo de escrita inconfundível, os intelectuais afastaram-se dele, uns alegando que não evoluía, outros que sua literatura ainda era rural e conservadora. Nada mais incorreto, para dizer o mínimo. Diante de personalidade tão forte como Fontes Ibiapina, só há duas atitudes a serem tomadas: imitá-lo ou repudiá-lo. A última parece que foi o que aconteceu. Conheci-o muito bem, de conversa e de leitura. Tinha uma memória prodigiosa. E aqui, lembrando Raquel de Queirós e citando-a de memória, dizemos que escritor sem memória não existe. Sem memória e também com escrúpulos de imiscuir-se em suas ficções. Disto não sofreu nosso Fontes Ibiapina. Ele era solto mas sério e consciente, um poço inesgotável de onde se retira a água mais límpida. A gente tem vontade de afirmar que a sua criatividade - as mais das vezes baseada na memória - era ilimitada. Este trabalho serve como instigação à volta de Fontes Ibiapina aos editores, às livrarias, às escolas, às academias, para discussão, pela riqueza do seu espólio literário. Nosso desejo é que o pesquisem, jovens e velhos, e voltem a lê-lo. Há muitos anos, quando eu dirigia a UBE-PI, mudamos o nome do troféu "Cabeça de Cuia" para "Fontes Ibiapina", uma espécie de comenda concedida anualmente ao intelectual do ano - eleito por aquela entidade. Também, há muito tempo, seu nome patrocinou um concurso de romance no Piauí, editado duas vezes pela Fundação Cultural do Piauí, em cujo primeiro certame fui vencedor com "Laços de Poder". Recentemente, uma ou outra entidade está lembrando de homenageá-lo. Em Luís Correia - PI há um centro social que foi batizado com seu nome, segundo informações do escritor e dicionarista Adrião Neto. Agora soubemos que aquele concurso foi reeditado pela mesma entidade. Por isto a comunidade intelectual e artística se alegra. Que se alegrem os novos ficcionistas do Piauí, abram as gavetas e botem seus romances inéditos pra fora, sob a égide de Fontes Ibiapina. Essas homenagens, como vimos, não vieram de sua terra, Picos, que nem ao menos se interessou em abrigar a FUNDAÇÃO FONTES IBIAPINA. Não seria a hora e a vez de os dirigentes do Estado do Piauí, das Prefeituras de Teresina, Parnaíba e Picos, lugares onde atuou, tomarem pé no assunto? Fontes Ibiapina fez parte da Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira nº 9, patroneada pelo poeta Alcides Freitas, que teve como primeiro ocupante nosso nume tutelar Lucídio Freitas e segundo ocupante o poeta e também folclorista Pedro Borges da Silva. Atualmente ocupada pelo Senador Hugo Napoleão, este bem que poderia, com o poder que detém, editar e amparar a produção literária do seu antecessor na APL, encontrando meios financeiros para conservar e franquear ao público o espólio literário e cultural de Fontes Ibiapina. FONTES IBIAPINA - fonte: http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Fontes+Ibiapina<r=f&id_perso=3257 ( citado em Piscinez )

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