05/01/2026
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A aridez dos solos desérticos capacitou os árabes medievais como mestres nas técnicas agrícolas e de irrigação, criando tecnologias complexas para as mesmas visando combater a escassez de água que atingia o campo. Essa explosão tecnológica importada, junto aos manuais agrícolas de alto nível como o Kitāb al-filāḥa de Ibn Al-Awwam escrito em al-Andalus, lá deram origem ao cultivo ocidental do algodão, do arroz, dos cítricos e da cultura da cana de açúcar. No século VIII, os engenhos e técnicas de regadio como o açude e a nora permitiram o cultivo de legumes e a plantação de árvores frutíferas numa escala nunca vista na Europa, tanto é que alguns dos cultivos famosos do período romano passaram a ser chamados por nomes árabes na Ibéria, como a azeitona e o alface. Os açudes, palavra e tecnologia trazida pelos muçulmanos que ganharia os sertões do Brasil no futuro, são muros de pedra ou escavações que servem para reter, elevar e desviar a água dos rios, conduzindo-a ao moinho ou azenha, também trazida pelos árabes, num percurso artificial cavado descendente chamado de acéquia, ganhando a energia necessária para movimentar o rodízio e, por sua vez, moer o que há de transformar cereal em farinha, ou cana em açúcar, e irrigar ao mesmo tempo lugares distantes pelo caminho. A nora, um dos primeiros inventos a aproveitar a energia hidráulica, era utilizada pelos árabes na elevação da água dos poços profundos. Este sistema de irrigação possui um engenho de rodas dentadas, discos e alcatruzes, termo também de origem árabe, sendo o eixo central movido por um animal de carga na atafona. Bombeada, a água voltava ao açude por ação da gravidade, depois de ser utilizada na rega de terrenos situados a nascente, transformando assim zonas áridas em vistosas hortas e pomares.
Esse desenvolvimento tecnológico levado pela conquista islâmica da Hispânia estava fresco na mente dos primeiros colonizadores do Brasil:
“Do ano 1550 ao ano 1600, os primeiros povoadores da América do Sul pertencem à Espanha e ao sul de Portugal, ou seja, à parte fortemente orientalizada e arabizada da Espanha e de Portugal.”
- DEBBANÉ, Nicolas J. Au Brésil, L’influence arabe dans la formation historique, la litterature et la civilisation du peuple brésilien, Le Caire, 1911.
Darcy Ribeiro (p. 273-279), na obra O Povo Brasileiro, evidencia a importância árabe para os engenhos açucareiros, fundamentais para dar a América Portuguesa um sentido econômico para a colonização:
‘’Os portugueses, que já haviam experimentado a plantação de cana e a produção de açúcar em pequena escala, com tecnologia árabe, nas ilhas da Madeira e dos Açores , se habilitaram para estender astronomicamente essa produção nas novas terras, montando para isso todo um vasto sistema de recrutamento de mão‐de‐obra(sic).[...] Importante papel terá representado, igualmente, o caráter mourisco e mestiço dos povos ibéricos. Efetivamente, forçados pela longa dominação árabe, os lusitanos se fizeram herdeiros de sua cultura técnica, fundamentalmente para a navegação, para a produção de açúcar e para a incorporação de negros escravos à força de trabalho. O português quinhentista, sendo de fato um euro‐africano no plano cultural e racial, afeito ao convívio com povos morenos, estava mais preparado que quaisquer outros tanto para contingenciar os indígenas americanos ao trabalho esporádico, quanto para aliciar as multidões de trabalhadores negros que tornariam praticável o sistema produtivo da plantação.’’
Na tecnologia moura para os engenhos, citada superficialmente por Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre (2006, p. 289) aprofunda as contribuições árabes nesse quesito, que foram de extrema importância para o desenvolvimento da economia açucareira no Brasil Colonial:
‘’Se foram os cruzados que trouxeram às Espanhas o moinho de vento, aplicado em certas partes da américa – nas Índias Ocidentais, por exemplo – à indústria do açúcar, foram os mouros que introduziram em Portugal o moinho de água, ou azenha (do árabe as-sāniya '’roda de irrigação'’), avô do engenho colonial brasileiro de moer cana pelo impulso de queda de água sobre uma grande roda de madeira. João Lúcio de Azevedo salienta que a própria oliveira parece ter tornado melhor utilizada em Portugal depois da vinda dos mouros. Explica João Lúcio: ‘’a nomenclatura proveniente do latim para as árvores – oliveira, olival, olivedo – de origem árabe no produto – azeitona, azeite – leva a pensar em um maior aproveitamento dessa espécie vegetal no período muçulmano.’’