NOIS Movimento de ativismo político, checagem de fatos e informação. O NOIS!

nasceu porque certos discursos devem ser combatidos e todas as mentiras devem ser desnudadas.

14/11/2025

Um grito pelo que esta por vir
14 de novembro de 2025

É consensual que o planeta está sendo destruído; em franca aceleração. O aumento assustador da temperatura média do planeta é um sinal inequívoco de que o apocalipse climático está próximo. A meta limite de 1,5 graus celsius estabelecida para 2050 já caiu em 2024 - um assombro. Climatologistas do mundo inteiro são unânimes ao afirmar que 1,7 graus de aumento já é o suficiente para causar desastres climáticos de larga escala até pouco tempo atrás impensáveis. Perguntados sobre a hipótese de um aquecimento de 2 graus, todos concordam em afirmar que a vida no planeta seria insustentável.

Diante de um cenário absolutamente aterrador, é curioso que a imprensa e os meios de comunicação em geral não alertem para a iminência do caos. Não se trata mais de uma distopia, um desequilíbrio distante relegado aos polos do planeta com a fauna em perigo de ursos, pinguins e afins. O que há 30 anos era matéria prima para roteiros de ficção científica do cinema, hoje é uma brutal realidade, um fantasma presente que por enquanto (e por falta de alertas) ainda não foi devidamente percebido. O tempo para debates e metas estabelecidas já passou. A humanidade precisa neste exato momento partir para a ação.

A 30.a Conferência da Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, realizada em Belém do Pará, reuniu diversos chefes de estado entre outras autoridades mundiais esta semana no intuito de alertar a comunidade internacional sobre a urgência de se tomar atitudes antes de que o clima do planeta seja dragado por um caminho sem volta. Sem dúvida ou discussões, a Conferência tem seus méritos e seus objetivos são os mais nobres possíveis. A ONU acerta em promovê-la, mesmo que para apenas alertar os países para aplicação de políticas de sustentabilidade e proteção do clima. Entretanto, é pouco.

Não por culpa da ONU, ensaio de uma espécie de governo mundial. Mas por conta da ausência de países determinantes para que a curva do aquecimento global seja freada. A ausência dos Estados Unidos na COP30 esvazia qualquer tipo de debate sobre o meio ambiente. Eles são os maiores responsáveis pela emissão de gases tóxicos na atmosfera e certamente seriam fundamentais nas políticas (urgentes) a serem implementadas para “esfriar” o planeta a médio prazo. Os Estados Unidos dão a entender que este problema não é deles e que não se importam em poluir a atmosfera sem o menor pudor.

Além dos americanos, é importante imputar a culpa pelo desastre climático à civilização e ao capital. A produção e acúmulo de riquezas, adornados pelo chamado progresso e tecnologia são os principais responsáveis pelo atual estado de coisas. O Século XX é uma prova incontestável do regime de culpa destes acusados, desde a queima do carvão às turbinas da aviação moderna. A indústria, a pecuária extensiva, o extrativismo, entre outros, agrediram ao largo de 100 anos a saúde atmosférica. É impossível não reconhecer os culpados.

Pelo menos, pela primeira vez, a COP30 deu voz aos povos indígenas, aos povos primitivos. Estes sim, antes da chegada da civilização, viviam harmoniosamente com a natureza, faziam parte dela. Nunca foram egoístas ao ponto de se sentirem mais importantes. Pelo contrário, entendiam que a floresta e o mundo eram essenciais, travavam uma relação da ordem do divino. Qualquer atitude deles, apesar da violência de algumas, são justificáveis. É uma reação, um grito, pelo que está por vir.

EC14112025

19/09/2025

Chicanas lesivas

Ao aprovar a “PEC da Blindagem” esta semana, a Câmara dos Deputados deu uma inequívoca demonstração de desprezo aos eleitores, ao país e à própria Constituição, promulgada em 1988. É mais uma prova contundente de que a maioria dos deputados têm compromisso com seus interesses privados em detrimento do compromisso com a população. Esta aprovação desnuda as entranhas do corporativismo que pautam boa parte dos trabalhos da Câmara Baixa. E mais: sem o menor pudor, ignorando a opinião pública avessa a esta PEC e promovendo um dos episódios mais lamentáveis da história da Câmara. Cada deputada e deputado que votou a favor disso já tem o carimbo na irresponsabilidade (para ser generoso) na testa.

O curioso é que a Constituição Cidadã de fato “blindou” deputados e senadores em seu princípio, mas havia uma justificativa razoável para tanto. O presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado federal Ulisses Guimarães, temia que ministros da Suprema Corte à época, boa parte deles egressos da ditadura militar, indicados pelos ditadores, pudessem interferir no Poder Legislativo a ponto de prejudicar o ainda incipiente e frágil ciclo democrático então recém iniciado. Com o passar dos anos, os “efeitos colaterais” das prerrogativas que protegiam deputados e senadores começaram a surgir. O caso mais famoso é do deputado Hildebrando Pascoal, que chefiava o crime organizado e grupos de extermínio no Acre. Com requintes de crueldade, assassinou a esposa com uma motosserra.

Este episódio foi fundamental para que no ano de 2001 o dispositivo na Constituição fosse alterado. Ou seja, que a Câmara e o Senado não precisariam mais dar o aval para que parlamentares respondessem por crimes comuns. De 1988 a 2001, quase 300 casos de crimes praticados por deputados e senadores foram simplesmente ignorados pelas duas casas, o que certamente aumentou o ambiente de impunidade no meio político.

Agora a controversa matéria volta aos holofotes, resultado de uma combinação nada republicana de interesses do bolsonarismo e do chamado “Centrão”. Os bolsonaristas querem o PL da Anistia, mas precisam dos votos do Centrão. O Centrão quer a PEC das Prerrogativas, mas precisa dos votos do bolsonarismo. Junte-se a isto a inépcia, tibieza e falta de experiência na política do presidente da Câmara. Está formada a tempestade perfeita. Ainda que a natureza das duas matérias costeie a canalhice, não deixam de ser legítimos os interesses do bolsonarismo e do Centrão. É da política, do “jogo”, e estão no papel deles. O que realmente é absurdo é o deputado Hugo Motta (Republicanos/PB) pautar a blindagem e a anistia, ainda mais no momento em que o país vive em meio a condenação histórica de criminosos lesa-pátria.

Sem contar que, por interesses particulares, a Câmara decide travar toda uma pauta de matérias importantes para o país. A Câmara neste momento legisla para si própria; exclusivamente. A Medida Provisória da tarifa popular de energia elétrica para pessoas de baixa renda, o que beneficiaria 50 milhões de brasileiros, não foi votada e o prazo de três meses para que isso acontecesse expirou nesta quinta-feira (18). O Projeto de Lei da isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais está parado na Câmara desde março e sem previsão para entrar na pauta. Dois exemplos que ilustram muito bem o desserviço que os tribunos federais vem prestando ao país. Felizmente, o Senado já sinalizou que não aprova nem uma coisa, nem outra. Mas o tempo que se perde com estas chicanas já é lesivo demais.

Evandro Carvalho é jornalista.

15/09/2025

Vitória retumbante da democracia
Um organismo internacional de natureza não governamental fez recentemente a medição das democracias em todos os países do globo. Fez uma escala com quatro classificações, desde as nações em que a democracia é plena e que não corre nenhum tipo de risco até as ditaduras mais severas em que não há a menor possibilidade de um regime democrático. Dentre os países onde a democracia é plena e que não corre nenhum perigo contra ela figuram Austrália, Nova Zelândia, Canadá, os países da Escandinávia, etc. Já nas ditaduras profundas lá se encontram Cuba, Coreia do Norte, China, alguns países africanos, entre outros. O Brasil se encontra na segunda escala em que nossa democracia é plena, mas que apresenta fragilidades e inspira certos cuidados. Nesta escala lá estão também os Estados Unidos e a França, por exemplo.
O curioso é que o ministro do STF - Supremo Tribunal Federal, Luiz F*x, em seu longo voto no julgamento da trama golpista (durou mais de 11 horas) usou esta medição como um de seus argumentos. Não para condenar os réus arrolados na conhecida ação penal, mas pelo contrário, inocentar alguns deles. O ministro sugeriu em seu discurso que o próprio Poder Judiciário, inclusive a Suprema Corte (de que ele mesmo faz parte) é responsável pelo Brasil ocupar o lugar que ocupa na medição. Segundo F*x, se a democracia no país corre algum tipo de risco é porque o Poder Judiciário tem “interferido” em demasia na vida política brasileira.
Com uma retórica que beira uma das mais vergonhosas posturas de um juiz da Suprema Corte, F*x absolveu Bolsonaro, mas condenou o general Braga Neto e o ajudante de ordens Mauro Cid. Numa narrativa que inverte completamente a realidade, F*x ignorou o fato de que se o Brasil inspira certos cuidados com sua democracia, é justamente porque o ex-presidente, agora ex-presidente condenado e apenado, não quis passar a faixa presidencial para o candidato eleito em 2022. Além disso, como todos sabem, articulou ao longo de quatro anos uma tentativa de golpe de estado que culminou com a insurgência de uma massa ignara no fatídico dia 08 de Janeiro de 2023. Jair Bolsonaro e sua quadrilha de golpistas foram condenados com uma fartura de provas.
O dia 11 de setembro último já entra para a história, pois pela primeira vez um ex-presidente da República e generais de alto escalão foram condenados por uma tentativa de abolição do estado democrático. A narrativa farsesca de que o Brasil está sob uma “ditadura de toga” não tem o menor cabimento, resulta da panfletagem de política barata empreendida por políticos ligados a Jair Bolsonaro. Se fosse assim, o próprio voto de F*x não seria proferido. Além disso, Jair Bolsonaro e todos os demais réus tiveram direito à ampla defesa nos últimos dois anos. A condenação de Bolsonaro é uma vitória retumbante da democracia e um claro aviso aos proto-ditadores de plantão para que não tentem fazer a mesma coisa.
Entretanto, é sempre bom repetir que Bolsonaro é página virada na história, mas o bolsonarismo não; pelo menos por ora. Sem contar que o ministro Luiz F*x, ao contestar em seu voto o foro do julgamento, abre a possibilidade de até uma anulação desta ação penal. Algo próximo do impossível; neste momento. Severamente ameaçada como nunca foi desde 1985, a democracia resistiu. E até por isso, ganha mais imunidade contra possíveis aventureiros disfarçados de democratas, políticos rasteiros que sobrevivem de bravatas, discurso de ódio e algoritmos de mídias sociais. A rigor, o “legado” que Bolsonaro já deixou.

Evandro Carvalho é jornalista.

05/09/2025

Motivos ocultos

O Poder Judiciário, todos sabem, exerce uma espécie de poder moderador do país. Se o Poder Executivo (presidência da República) excede de suas prerrogativas, lá estará o Judiciário para coibir. Se o Poder Legislativo (Congresso Nacional) avança o “sinal vermelho”, se fará presente o Judiciário para autuar a infração. As cortes e juízes do Brasil não exercem esta “vigília” aleatoriamente ou a bel prazer. Atuam rigorosamente pautados pela Carta Magna brasileira, a Constituição Cidadã de 1988. É com este instrumento que o Judiciário retalia qualquer tipo de invasão ou desvio de função. Mais do que isso, normatiza a relação harmoniosa (pelo menos deveria ser) entre os três poderes.

A história republicana revela que o Poder Judiciário foi crucial em alguns momentos pela manutenção da democracia. Entre outros, no entanto, não manteve a mesma já citada vigilância, solapado pura e simplesmente por tiranias afins ou cooptado por elas, conforme a conveniência. O Judiciário não é impenetrável e incorruptível, mas mesmo em condições extremas, prima por certa integridade e funcionamento. Talvez até por isso a Constituição, prevendo futuros percalços e ameaças, criou mecanismos imprescindíveis para que a Justiça seja exercida no máximo que possa antes de ser capitulada na pior das hipóteses - considerando que a democracia no Brasil, revela a história novamente, parece funcionar em ciclos.

Já se vão 40 anos desde de que Tancredo Neves foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral e que a democracia foi devolvida ao país. É sem dúvida um período longo com relativa tranquilidade nos ritos democráticos. Portanto, as ameaças, intimidações e ataques à Justiça, atualmente, podem ser entendidos como “normais”, partindo de quem os promove - os lacaios e entreguistas de sempre fantasiados de patriotas. Até que demorou, considerando quatro décadas de normalidade democrática. Mas não é só isso, os ataques à Justiça, em especial ao STF - Supremo Tribunal Federal, são desferidos também por outros motivos - ocultos pela tramoia do Golpe e de seus artífices. A saber.

Somente esta semana quatro políticos sofreram ações em resposta aos seus ilícitos na Justiça. O governador do Estado do Tocantins foi afastado sob suspeita de desvio de emendas. Já a Polícia Federal está investigando o prefeito de Macapá, capital do Amapá, por fraude em licitação hospitalar. No Rio de Janeiro, um deputado estadual foi preso. Ele é suspeito em negociação de armas com o crime organizado. E por fim, também no Tocantins, um deputado federal é alvo da Polícia Federal, suspeito de fraudes. Enfim, isso significa que a Justiça e suas instituições têm exercido plenamente suas funções; e incomodado naturalmente quem a quer vê-la enfraquecida.

Muito mais do que entregar o país e subjugá-lo a interesses internacionais, a tentativa de Golpe de Estado em 2022 mirava na manutenção de interesses privados e nada republicanos, impunidade desarvorada e completo desprezo à ética na coisa pública, mínima que fosse. Não é por acaso que os farsantes (e corruptos) estão em pleno espasmo, revelando desespero e apelando para soluções miraculosas (e inconstitucionais) como o Projeto de Lei da Anistia ou a PEC da Blindagem. O Poder Judiciário responde nesta quadra da história ao seu maior desafio desde que a democracia foi restaurada em 1985. Até agora o tem feito a bom termo, sem nenhum sinal de recrudescimento no ofício de aplicar o rigor da lei.

Evandro Carvalho é jornalista e editor do jornal O Vale da Eletrônica.

13/06/2024

Ovelhas e cicuta

“A vida é feita de batalhas”. Quem nunca ouviu isso? A trajetória de cada um, do berço ao ataúde, é marcada, via de regra, de altos e baixos. Para alguns, mais altos do que baixos. Para outros, o inverso. Geralmente, quando se vem ao mundo, é incutido desde os primeiros anos de vida a necessidade de se produzir algo. A necessidade (obrigação) de se ter uma formação (enquanto indivíduo e cidadão) e uma profissão.

Num segundo estágio é imperativo a constituição de uma família e a prosperidade, principalmente a financeira. Entre a terceira e a sexta década de existência, vive-se a plenitude. É quando realiza-se o que ficará para posteridade, uma espécie de registro da passagem de cada um neste microscópico planeta. Ao colher os louros da vida, restará o envelhecimento do corpo, o saudosismo, alguma (s) doença (s) e o fim inexorável. Geralmente é assim.

A parte das “batalhas” é que talvez seja o errado, afinal a vida não é uma guerra. É muito comum entender que sem esforço nada se consegue. Ou que todos devem ter resiliência (como se indivíduos fossem algum tipo de matéria) para atingir os objetivos. Como se a existência fosse um “check-list” de objetivos. Entenda-se “resiliência” a tradução direta de sofrimento. Solução linguística para a conquista de corações e mentes no apelativo empreendimento para convencer a imensa quantidade de ovelhas de que elas devem ser tosquiadas. Não por acaso, “todo o trabalho é digno” e a preguiça, o ócio, devidamente pejorativos.

De tanto estimular o homem ao trabalho, as caldeiras do capitalismo aqueceram a membrana atmosférica no que já se constitui a maior tragédia e agressão ao planeta em seus bilhões de anos. Resultante da resiliente jornada ininterrupta das chaminés e seus gases tóxicos, devidamente alimentados pelo trabalho sofrido dos bilhões de indivíduos e cidadãos tosquiados. É necessário portanto sofrer para prosperar (no que significa trabalhar por alguns poucos quinhões numa existência inteira se se levar em conta a brutal concentração de riqueza do mundo contemporâneo), mesmo que o preço deste processo seja a destruição da natureza e da vida. É sofrimento (ou resiliência, como quiserem) elevado à décima potência.

A economista Maria da Conceição Tavares, falecida esta semana, numa de suas famosas aulas, explicou aos alunos que o destino de milhões de ovelhas é definido nos “jantares” às segundas-feiras. Jantares promovidos pela cepa dos mais abastados que “lutam” pela manutenção de sua hegemonia. Gente que herda, que não constrói e explora (tosquia). Tavares, um tanto empolgada e injusta consigo própria, se classificava como “derrotada” e que a luta na trincheira inglória em que estava não era pela hegemonia, mas apenas para o direito à cicuta nossa de cada dia, para o direito de não enlouquecer. Ela tinha razão e no resumo da ópera explicou que todas as ovelhas serão tosquiadas, com apenas algumas exceções conscientes disso.

Organismos mundiais de saúde atestam o número assustador de indivíduos com depressão ou doenças similares que acometem mais da metade da população mundial. A máquina de moer carne é frenética para obrigar o homem para o trabalho - mesmo sem saber para quem ou para quê trabalha. Esta máquina não permite a vida a quem sobrevive, apenas o direito de retroalimentar a mola propulsora de geração de riquezas - o consumo.

Nos “Tristes Trópicos” a vida se constituía livre em perfeita harmonia com o tempo e a natureza. O indígena do passado sabia de sua condição biológica integrante do este sim ecossistema do mundo. A floresta lhe dava o direito a uma vida plena sem sofrimento, no que ele retribuía em sua infinita sabedoria pela manutenção da mesma. Sem trabalho, sem batalha, sem consumo. Uma pena que depois a civilização adoeceu a todos.

Evandro Carvalho é jornalista.

12/04/2024

Redenção moderada

O plenário do STF - Supremo Tribunal Federal decidiu esta semana que a instituição das Forças Armadas não pode exercer “poder moderador” na soberania do país. A decisão decorre de uma ação protocolada em 2020 pelo PDT para que o artigo 142 da Constituição não fosse evocado em decorrência de “conflitos” entre os três poderes. A ideia de poder moderador das FA’s partiu do ex-presidente da República - Jair Bolsonaro que temia (como de fato aconteceu) perder as eleições de 2022 e usar o referido artigo para permanecer no poder. O pleno, por unanimidade, entendeu que cabe tão somente às Forças Armadas a defesa da pátria e a garantia dos poderes constitucionais.

Jair Bolsonaro disseminou a ideia de que as urnas eletrônicas não eram confiáveis ainda em 2018, quando foi eleito presidente. Entendia ele que poderia ter vencido ainda no primeiro turno naquele pleito. Desde então até janeiro do ano passado aumentou o tom de seu discurso desqualificando o sistema eleitoral brasileiro antevendo um possível revés nas urnas. O ex-presidente e seu partido, o PL, no entanto, não apresentaram uma prova sequer de que o sistema de votação eletrônica suscitava falhas capazes de interferir na apuração e resultado final das eleições.

Não é de hoje que as Forças Armadas “flertam” com o autoritarismo. É certo que, desde a abertura democrática em 1985, as FA’s não interferiram mais nos governos que se sucederam até agora, muito embora não disfarçassem a intenção de participar em assuntos dos três poderes. Entretanto, com Bolsonaro presidente, mais de 6.000 militares ocuparam cargos no Governo Federal, um verdadeiro aparelhamento que deu sustentação para que a caserna não só opinasse sobre as questões da República, mas que pudesse, também, colocar em prática seu projeto de poder - o que incluía até um possível golpe de estado.

Com a derrota do ex-presidente nas urnas e com a tentativa de golpe malograda (que só não aconteceu porque exército e aeronáutica não deram anuência), as Forças Armadas voltam ao seu papel original, lavrado e determinado pela Constituição Cidadã de 1988, o de ser subalterna e sob autoridade do presidente da República, no caso Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de mais de um ano de mandato do atual presidente, a caserna tem se comportado a bom termo, muito embora não escondendo seu constrangimento (e reprovação) quando o assunto é a punição dos oficiais que apoiaram a tentativa de golpe de Bolsonaro.

O ministro Dias Tóffoli, do STF, lembrou em seu voto que as Forças Armadas são importantes para o país em áreas “relevantes e sensíveis”, mas alertou que entendê-las como poder moderador é uma “aberração”, completamente à revelia da Constituição. Tóffoli também fez menção a episódios na história em que as Forças Armadas interferiram no poder, especialmente no período da ditadura entre 1964 e 1985, e que estes episódios tiveram um alto custo na história da Instituição. Uma avaliação menos pormenorizada já permite dizer que a caserna está em débito com o país. Rever o seu papel e garantir o processo democrático é o mínimo que se espera das Forças Armadas e não deixa de ser, ainda que timidamente, uma maneira de se redimir na história.

Evandro Carvalho é jornalista.

Fábio Freitas: Santa Rita perde um de seus filhos mais queridos e carismáticosSanta Rita do Sapucaí perdeu na manhã dest...
05/02/2024

Fábio Freitas: Santa Rita perde um de seus filhos mais queridos e carismáticos

Santa Rita do Sapucaí perdeu na manhã desta segunda-feira (05) o carnavalesco e colunista social Fábio Freitas - conhecido carinhosamente como “Fabão”. Freitas vinha se recuperando nas últimas duas semanas de um acidente automobilístico, mas não resistiu às sequelas provocadas pelo acidente. Fabão era empresário no ramo de decoração de festas e sócio-proprietário do Restaurante Recanto Bela Vista, situado na cidade de Congonhal. Desde 2016 escrevia regularmente para este “O Vale da Eletrônica” na sua coluna “Glamour do Vale”. Fábio Freitas é um dos grandes quadros atuais do Bloco Carnavalesco Ride Palhaço, a grande paixão de sua vida. Em homenagem ao carnavalesco, o jornal O Vale da Eletrônica reproduz matéria publicada na coluna “Gente Nossa” na edição 1.014, de 16 de janeiro de 2016, em que Fabão conta um pouco de sua vida.

Sonhos realizados

Quando chegou no carro, o bloco já estava praticamente pronto para sair, mas ainda sim estava no horário. Numa situação normal, teria subido na sua posição em cinco ou 10 minutos. Mas em se tratando de Carnaval, as coisas aparentemente mais simples podem se tornar um drama. Como os apoios do carro alegórico eram muito frágeis (na verdade, não havia onde pisar – pois tudo estava ornamentado), foi preciso uma verdadeira engenharia para que fosse colocado na parte mais alta, a do destaque principal do “Carro da Gula”. Estava de volta, requisitado que foi, dois anos depois do sucesso como destaque no “Carro da África”. Queria distribuir doces ao longo da avenida. “Foi um momento muito importante para mim, uma espécie de ‘consagração’. Quando eu era criança, imaginava um dia desfilar pelo Ride Palhaço, embora soubesse que naqueles tempos era praticamente impossível. E de repente, lá estava. Não apenas desfilando, mas de destaque principal em dos carros do Bloco. Foi a realização de um sonho. Eu jamais imaginei chegar onde cheguei no Ride. O Ride é uma realização, uma vida. É uma das coisas maravilhosas que a vida me proporcionou. Sou muito grato a todos do Ride nestes já alguns anos de convivência”.

Na infância, quando vinha para Santa Rita do Sapucaí ver os desfiles e sonhar com o Ride, ajudava o pai que fazia churros e sorvetes. No Beco do Saci também o ajudava, vendendo brinquedos, bijuterias, louças e roupas numa banquinha. Estudou o curso primário no Grupo Escolar Antônio Domingues Pereira, no bairro Cachoeirinha, onde nasceu. Quando mudou-se para Santa Rita, estudou no Colégio Sinhá Moreira, onde concluiu os ensinos ginasial e médio. Lembra-se com carinho da professora Stela Paiva, que acompanhou sua turma por oito anos. Quando mais moço, decidiu montar uma bicicletaria para ganhar uns trocados. Enchia pneus e fazia pequenos reparos. Certo dia lhe pediram um favor. Na verdade, atender uma “emergência”: encher uns balões com ar comprimido para uma festa de aniversário. Gostou da ideia e tempos depois deixou a bicicletaria e passou a inflar festas com ar comprimido, decorações e muito bom gosto. “Já atendi festas muito curiosas. Certa vez, decorei uma de aniversário para uma senhora que completava 100 anos, isso numa sexta. No sábado, fiz uma festa para uma jovem senhora de 50...” Está a cerca de 10 anos no ramo e não falta serviço. Todos os fins de semana está envolvido com alguma encomenda. Aprendeu a fazer decoração com o saudoso promoter João Bosco, o ajudava na floricultura e na organização de incontáveis festas “Society” e de 15 anos. “Era sempre uma festa trabalhar com o João Bosco. Aprendi muito com ele. Faz muita falta para a cidade”.

Fábio João de Freitas, o “Fabão”, teve o primeiro contato com o Ride Palhaço em 1995, com o amigo Mário Iemini em seu atelier. No princípio, só ajudava a confeccionar as fantasias, para o Carnaval e para o baile do Sábado de Aleluia. A empatia cresceu gradativamente como tinha de ser e nos anos seguintes seus sonhos foram realizados um a um - confeccionou a própria fantasia para o seu primeiro desfile, teve acesso ao barracão do bloco e começou a participar ativamente das decisões da agremiação. Em 2003, saiu de destaque no “Carro da África” e fez um enorme sucesso, tanto que foi convidado para voltar a ser destaque em 2005 no “Carro da Gula”, que levava 200 quilos de doce. Em 2008, fantasiado de demônio, foi destaque num carro que soltava fogos na avenida. “Infelizmente este ano a gente não vai para o desfile. Mas para o ano que vem vamos trabalhar bastante para que as coisas aconteçam. O Ride é parte essencial da minha vida”.

Texto: Evandro Carvalho.
Foto: Evandro Carvalho/Arquivos JVE.

26/01/2024

Revelada a feiura

Passado pouco mais de um ano do atual governo, a impressão que se tem é que o governo governa, um tanto elementar se o governo que antecedeu o atual sequer governava. Neste curto período a economia voltou a crescer e as estatísticas não mentem. A inflação está controlada, o desemprego caiu, o poder de compra aumentou, o salário mínimo voltou a crescer acima da inflação e o PIB bateu espantosos três pontos percentuais. Controlar a economia é a principal tarefa quando se governa um país. Uma vez controlada, é possível implementar agendas nos quesitos do desenvolvimento, dos programas sociais, da preservação do meio ambiente, etc.

Entretanto, mesmo com a estabilidade, o país ainda reflete o resultado das eleições de outubro de 2022. O Brasil está dividido ou polarizado, já que por muito pouco o governo anterior não foi reeleito. No Congresso, a oposição é mais visível. Embora estridentes, por muitas vezes indecorosos, os parlamentares opositores ao atual Governo têm se notabilizado. Oposição barulhenta, mas pouco efetiva. Na prática, venceram apenas um embate - a do marco temporal das terras indígenas. Das CPI’s que apoiaram no afã de criar uma instabilidade para o governo Lula III, das duas montanhas pariram ratos, a do MST e a do Golpe do 08 de janeiro quando ela, oposição, acreditou (como em gnomos) na narrativa dos ataques na Praça dos três poderes impetrada pelo próprio governo eleito. Tiro no pé.

Entretanto, bem mais do que governo e oposição (natural das democracias), o Brasil está de frente com uma curiosa (e assombrosa) situação - pouco vista na história. Ex-governos, via de regra, ficavam no passado. Ex-presidentes se recolhiam ao ostracismo e ao silêncio. Desta vez não. O país que Jair Bolsonaro queria para si (e para seus entes) começa a ser desvendado. Talvez o ex-deputado federal fizesse uma análise um tanto equivocada. O Brasil é bem maior do que o Condomínio Vivendas da Barra, o que Bolsonaro & Filhos não esperavam. O protótipo de republiqueta autocrata que o ex-presidente queria parir, pela via democrática ou por golpe de estado, é bem mais feio do que se achava.

O escândalo revelado nesta quinta-feira (25) pela Polícia Federal sobre a “Abin Paralela” é uma pequena amostra do que Jair Bolsonaro era capaz, sem nenhum tipo de escrúpulo republicano. Algo gravíssimo que não pode passar em brancas nuvens, os grampos de Alexandre Ramagem e Bolsonaro é um atentado ao estado democrático de direito. A PF garante que a fartura de provas são irrefutáveis. Constituem uma das facetas deste passado recente que não tinha o menor apreço pelo regime democrático. A punição virá, severa, com pena de reclusão.

Evandro Carvalho é jornalista.

12/01/2024

Visita de uma parente

Em outubro próximo acontecem as eleições municipais em mais de cinco mil cidades em todo o Brasil. As eleições municipais têm várias características que variam com as regiões do país e com o tamanho (população) de cada município. Elas servem também como “termômetro” de avaliação para a Presidência da República e também para os governadores dos 26 estados e do Distrito Federal. Além disso, podem servir de plataforma para a eleição seguinte, a majoritária que acontece no ainda longínquo ano de 2026. As eleições municipais não são conclusivas no plano nacional, mas servem de “esboço” para estratégias de campanha.

Nas cidades menores, legendas, partidos e ideologias já foram mais inexpressivos, não que isso signifique que tenham hoje uma importância decisiva - longe disso. Por aqui e alhures de 50, 40, 30, 20, 10, 5 mil habitantes, etc, vota-se na pessoa, no amigo, vizinho, conhecido, pouco se importando se ele é de direita ou de esquerda. O que vale, ainda, para um bom candidato à vereança é a simpatia, o fato de conhecer muita gente, de ser admirado por apenas fazer parte da comunidade. Mesmo sendo o pretenso edil um desqualificado, simplório, notadamente humilde. As eleições locais são a visita da democracia na sala de estar de cada cidadão. Como aquela parente que mora longe (e bem sabemos que existe e que quase foi sequestrada em 08 de janeiro do ano passado) e vem fazer uma visita de quatro em quatro anos para um café.

Nas cidades maiores, em especial São Paulo e Rio de Janeiro, as eleições municipais tem uma natureza um pouco diferente. Serve como um “ensaio” para as eleições majoritárias e seu resultado terá um impacto que pode ser decisivo nos próximos dois anos. A eleição de 2024 nas grandes cidades mostrará a quantas anda o chamado “bolsonarismo”, a corrente política de direita que melhor se opôs ao chamado “Lulopetismo”. O resultado de outubro revelará o tamanho do espólio do ex-presidente Jair Bolsonaro e se ele, o espólio, terá sobrevida ou não nos próximos anos.

O recorte local permite fazer uma análise um tanto pessimista. Nos bastidores e no “faroeste digital” das mídias sociais o que vem por aí no que diz respeito aos postulantes para o Paço Municipal carece de debates mais qualificados. Benefício da dúvida à parte, falta aos possíveis postulantes uma visão um pouco mais aprimorada sobre a polis local e o que fazer com o planejamento do município nas próximas décadas. Não há nenhum vestígio de futuro nos esboços de promessas que já começaram a ser ventiladas.

Evandro Carvalho é jornalista.

Endereço

Santa Rita Do Sapucaí, MG

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