21/06/2020
“Comparada com outros lugares, Salvador se encontra em condição muito favorável nesta pandemia. Tanto o prefeiro ACM Neto como o Governador Rui Costa não estão cedendo à pressão do empresariado. Estão agindo de acordo com os especialistas reunidos no "consórcio do Nordeste", que é uma das melhores coisas que existe no Brasil nos dias de hoje.
Moro muito pertinho do farol da Barra, dentro do circuito do carmaval. Pensem num lugar bonito. Pensaram? É onde moro. Vivo em um cartão postal.
Domingo passado, a orla ficou lotada. Dia de sol, paisagem maravilhosa. As pessoas não aguentaram e saíram. Confesso que só não fui porque to com o fuso horário todo zoado e só acordei às 14 horas. Sou frágil, como a maioria das pessoas. Por isso, o bem-estar público não pode depender das minhas virtudes pessoais. Se dependesse, a sociedade tava era lenhada. Sou tão frágil, tão refém dos prazeres da carne. Sou tão comum.
Você nao é? É altruísta? Todo trabalhado na empatia? Lírio do campo que nasceu sem ser semeado. Orgulho de você. Fofo, fofa, fof@.
Homens públicos e instituições precisam ser virtuosos, justamente, porque as pessoas tendem a não ser.
Então, a orla da Barra ficou lotada.
ACM Neto, netinho para os íntimos, agiu rápido e fez lockdown na p***a toda. Fo***se. Não sabem se comportar? Lockdown. Pronto. Gosto do netinho, assim como gosto do Dudu Paes. São feitos do mesmo barro. Festeiros, bairristas, fanfarrões.Tenho fraco pra canalhas competentes e carismáticos. Competência e carisma são as virtudes políticas que mais me fascinam.
Shopping aqui tá aberto não. Nem bar. Tudo fechado. Netinho e Rui tão brincando não.
Hoje fui ao mercado fazer compras. Passei em fente ao Shopping Barra. Fechado! Mas do lado de fora tava lotado de gente. Homens jovens e negros, com suas bicicletinhas e motos, esperando pra fazer delivery.
Como fazer isolamento social e quarentena num país onde metade dos trabalhadores estão precarizados e precisam estar nas ruas entregando ifood? Se não sairem, não comem.
O isolamento social, no Brasil, já nasceu desmoralizado. Realidade pura, sem confetes.
Quando a covid chega o Brasil encontra um Estado colapsado, encontra um povo sucateado pela reforma trabalhista criminosa aprovada em 2017. Encontrou um governo ultraneoliberal, um Presidente que boicota a saúde pública na prática administrativa e na retórica.
Aí eu, pessoa inteligente, estudada, vou culpar a popuação pela tragédia? Vou culpar os trabalhadores? Só se eu fosse maluco, ou se tivesse muito ressentido com o comportamento político recente de nosso povo.
Eu não! Sei bem que o fascismo é nuvem sombria. Nuvens vêm, nuvens vão. As pessoas se fascinam pelas promessas fascistas, daqui a pouco se desiludem, mudam de ideia. O fascismo é sedutor. Por isso, é tão perigoso. Essa mesma gente ja votou em Lula, em Dilma. O fascismo é um momento da história e não uma característica intrínseca do povo.
Se pensar de outra forma nem levanto da cama. Fico chorando em posição fetal. Paro só pra destilar ódio e ressentimento na Internet. Como faço política achando que o povo é organicamente fascista?
Digo mais: não culpo nem a classe média que f**a com funiquito querendo bater perna. Tem tanta coisa pra discutir antes de chegar no tiozão que teima em ir passear no shopping ou na orla da Barra. Prefeitos e governadores que façam seu trabalho e fechem a p***a da orla, que fechem a p***a da praia.
Não é só no Brasil! Em lugar nenhum do mundo, as pessoas f**am trancadas em casa se a rua estiver aberta. O instinto é sair. É respirar.
Eu, euzinho, vou estimular demofobia numa população assustada, com medo de morrer? Não. Eu não! Vou discutir estruturas do Estado, vou discutir projetos de desenvolvimento, vou discutir irresponsabilidades de agentes públicos.
Sou bobo não, minha gente! Sei que a crise reduziu nossa democracia à dimensão plebiscitária. Vivemos a rotinização do momento eleitoral. Os palanques não foram desmontandos. A brecha plebiscitária ainda aberta é a nossa única chance de sobrevivência. Ou vocês acham que vão derrubar o fascimo nas ruas, batendo de frente com as PMs bolsonaristas?
A solução, se ainda existe, é o sufrágio, é o voto, é a ação eleitoral. É hora de reconcilicar com as maiorias, negociando alguns valores se preciso for. Não fazê-lo não é opção. Ou será assim ou não será nada.
Aí nesse momento de trauma coletivo, vou responsabilizar a população? Culpar as vitimas? Eu? Só se eu fosse b***o ou irresponsável. Não sou nenhum dos dois.”
Rodrigo Perez Oliveira