27/09/2016
EM DEFESA DA COMISSÃO DA ANISTIA E DA RECONSTRUÇÃO DA VERDADE
Diante de uma instituição, criada por lei e de interesse público relevante, a posição de forças incomodadas com o seu trabalho pode ser de esvaziá-la, retirar condições de trabalho e eficácia, desvirtuá-la.
Esta é a preocupação dos subscritores diante das mudanças realizada pelo Ministério da Justiça, no dia 02 de setembro, na Comissão de Anistia.
A Comissão da Anistia, criada em 2001 e resultado de histórica mobilização dos movimentos sociais em defesa dos direitos humanos e pela reconstrução da verdade sobre a ditadura Militar, tem amplos serviços no Brasil.
Deve ser entendida como instituição de Estado e não de governo.
Sua atuação foi dinamizada na gestão de Paulo Abrão, seu presidente até 2016.
As Caravanas da Anistia levaram seu seus julgamentos aos vários cantos do Brasil pedindo, publicamente, perdão às vítimas em nome do Estado brasileiro. O Memorial da Anistia em conclusão, o projeto "Marcas da Memória", as "Clinicas de Testemunho", o julgamento de mais de 60 mil processos dentro de universo de cerca de 70 mil, são ações que, com o apoio da sociedade civil, a Comissão desenvolveu.
A Bahia testemunhou a dedicação e compromisso dos Conselheiros da Comissão, não só em Brasília, como nas Caravanas que vieram à Bahia.
A Comissão Estadual da Verdade, aliás, através de acordo com a Comissão, obteve preciosos documentos, inclusive a reprodução dos trabalhos destas Caravanas.
Neste momento, damos testemunho da história e qualidade do trabalho dos Conselheiros exonerados, dentre os quais, Ana Maria Guedes, que a Bahia conhece desde a sua atuação, na década de 1970, no Movimento Feminino pela Anistia e Comitê Brasileiro pela Anistia - Núcleo da Bahia.
Reconhecemos a história de Almino Afonso, Ministro do governo João Goulart e vitima da Ditadura Militar que, aos 87 anos, aceitou a tarefa de presidir a Comissão. Não temos informações sobre os novos Conselheiros referentes à participação nos processos de anistia e conhecimento dos procedimentos, acumulados em anos de atuação dos Conselheiros ora afastados. De modo diferente do que até agora ocorrera,antes das nomeações não foram feitas consultas aos movimentos que representam os atingidos pela Ditadura Militar (familiares de mortos e desaparecidos, ex-presos políticos, exilados) ou organizações que lutam pela reconstrução da história, memória, verdade e justiça. Preocupa-nos especialmente a possibilidade da presença na comissão de pessoas que minimizam os danos provocados pela Ditadura Militar ou até, colaboraram com ela.
Consideramos, em particular, que devem ser esclarecidas as dúvidas, levantadas pela imprensa, sobre a presença do Dr. Paulo Lopes Saraiva. Este teria,como Sargento do
Exército, atuado na repressão política e, posteriormente, sido Secretário do Governo Estadual na época da Ditadura Militar.
Diante desta situação, como participantes da extinta Comissão Estadual da Verdade da Bahia e em nome do Grupo Tortura Nunca Mais - Bahia, denunciamos o risco de esvaziamento e desvirtuamento da Comissão de Anistia, elemento essencial do Programa Brasileiro de Reparação e de Justiça de Transição.
Conclamamos todos os defensores da democracia a concentrarem sua atenção no acompanhamento e julgamento da atuação da Comissão da Anistia.
Salvador, 07 de setembro de 2016
Joviniano Neto
Presidente do GTNM-Ba e
Coordenador da Comissão Estadual da Verdade da Bahia