Alzheimer diário do esquecimento

Alzheimer diário do esquecimento Meus pais foram diagnosticado com Alzheimer e eu descobri a realidade do cuidador familiar. Cuida de mim - não é apelo, é denúncia.
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Esta página e os grupos são uma tentativa de dar voz e apoio a quem não lembra mais quem era, antes de ser cuidador.

“(...) Fiquei aliviada porque achei que o dia seria mais “normal”. Depois da música ela rezou pelo meu jardineiro, pelo ...
02/06/2026

“(...) Fiquei aliviada porque achei que o dia seria mais “normal”. Depois da música ela rezou pelo meu jardineiro, pelo pai dele e pelos pássaros, tomou café três vezes, pediu para ir à varanda, depois quis voltar para a cama, dormiu e acordou, depois de vinte minutos, tremendo de medo, muito revoltada, dizendo que não queria desistir, mas sentia que não tinha tanta garra para manter a vida como antigamente.
Eu não tenho mais argumentos para defender a vida, não essa vida de que ela consegue desfrutar, nem consigo alimentar a fé que sempre a manteve. Eu também estou desistindo.
Ela me chama o tempo todo e diz que está com muito medo, eu pergunto o que a assusta e ela não sabe explicar. Eu também tenho medo, mas meu medo tem nome e sobrenome, assim f**a mais fácil lidar com ele.”
(Alzheimer diário do esquecimento)

O meu medo se chamava Alzheimer Mãe Impotência.
Mamãe sempre foi otimista, divertida, adorava um bom papo acompanhado de um cafezinho, sempre tinha um conselho, ou uma opinião sobre qualquer assunto. O Alzheimer chegou lentamente, quase não percebi que aquelas histórias que repetia exaustivamente, não era apenas a vontade de bater um papinho.
A princípio ela repetia a mesma pergunta, a mesma história e manifestava a mesma emoção da primeira vez. Esse foi o gatilho para que eu achasse que alguma coisa estava errada, ela realmente vivia intensamente os mesmos relatos, como se nunca tivesse falado sobre isso anteriormente, não existia aquela exasperação “vou contar de novo, presta atenção agora”; ela não repetia as histórias, era sempre a primeira vez.
Aos poucos ela começou a esquecer de que comeu e pedia o almoço, assim que eu retirava o prato da mesa; outras vezes implorava para que as visitas “dessem comida escondido da Miriam, porque ela não me dá comida e eu tenho fome”.
O Alzheimer é um grande estrategista; ele chega sorrateiramente e se mistura à rotina, se disfarça de estresse ou velhice e assim, vai invadindo a vida e apagando a história, as emoções, hábitos, preferências... como ferrugem que oxida o ferro, ele destrói tudo que toca e, quando percebemos ele já reina soberano sobre tudo e todos.
O cérebro apaga as lembranças e eu me perguntava o que vai sobrar de um cérebro vazio?
Os delírios e depois o silêncio.
- Mirinha traz comida para essas crianças, eles passaram a noite inteira brincando comigo, devem estar com fome.
- Socorro! Quem são essas pessoas que querem me matar?
- Você é minha mãe ou minha irmã?
- Eu não te conheço, chama minha filha porque eu quero ir embora para minha casa.
- Cala a boca e me dá um tiro aqui na minha cabeça.
- Mirinha, eu estou morta? Esse lugar é o céu?..
E a cada delírio, agressividade, infecção, tremor, pneumonia, escara, olhar assustado... um pedaço do cuidador morre.
Então eu pedia para mamãe não desistir e ela me olhava com desespero, implorando para que eu não desistisse dela.
Eu não desisti, fechamos a porta juntas e depois eu fiquei com a bagunça para arrumar, mas tenho forças para arrumar essa bagunça, porque sei que ela me abençoou.
Recado a todos que abandonam – depois vocês também terão uma bagunça para arrumar, mas a culpa e o remorso não fortalecem.
Miriam ajeitando a bagunça e procurando uma mão para me amparar.
Míriam Morata

O curta-metragem Precisamos Falar de Cuidados é uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Cuidados do Conselho Nacional de ...
01/06/2026

O curta-metragem Precisamos Falar de Cuidados é uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Cuidados do Conselho Nacional de Justiça. O filme convida o público a refletir sobre os impactos do trabalho de cuidado na vida cotidiana e sobre como essa responsabilidade é distribuída na sociedade de maneira desigual.

Dirigido pela documentarista Paula Sacchetta, o filme reúne relatos coletados em 17 tribunais brasileiros, apresentando diferentes perspectivas sobre o cuidado. A iniciativa integra as discussões levantadas pelo GT na construção da Política de Cuidados no Poder Judiciário.

O curta-metragem Precisamos Falar de Cuidados é uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Cuidados do Conselho Nacional de Justiça. O filme convida o público a ...

Suportar e continuar – nosso maior desafio"Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história."Hann...
01/06/2026

Suportar e continuar – nosso maior desafio
"Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história."
Hannah Arendt

Alguns transformam suas dores em desafios, outros em oportunidades ou motivos para desistir; outros escancaram suas feridas para conquistar algumas migalhas de pena, imaginando que piedade é amor, ou compaixão - Não é!
Quando a dor vira história, nós podemos contar para o mundo onde doeu, quem ou o que nos machucou e como sobrevivemos a tudo isso.
Resta agora a esperança de que as pessoas aprendam com a história contada, e não precisem trilhar o mesmo caminho e se machucar com as mesmas escolhas (ou omissão) que nos feriram.
Não sei bem, se contamos para espalhar sementes de esperança, ou só para arrancar essa ferida e olhar nos olhos de quem nos feriu, de qualquer maneira, tanto faz, vale a pena contar.
Eu já superei ausências, tristezas, saudades, a maldade do tempo e de pessoas e algumas feridas.
Caminhei descalça na brasa e em pedras; esbarrei em pessoas e pedi socorro, mas elas continuaram caminhando; chorei sozinha no banheiro, enquanto a festa enchia a casa de risos e música; pedi para Deus me levar e dancei para seduzir a morte; perdi amores; ganhei inimigos... desci no fundo do inferno e tirei o diabo para dançar... e voltei para recomeçar, reconstruir e inventar sonhos e poesia, portanto... Não duvide de mim, eu consigo lidar com qualquer coisa.
Nessas descobertas, entendi que não tenho NADA a perder, porque nada me pertence, exceto a ilusão de que tenho poder sobre alguma coisa.
No jogo da Vida, não escolho as cartas, não conheço o croupier, nem as regras do jogo; as pessoas que estão ao meu lado também querem ganhar e não sei até onde elas irão para conseguir; alguns me amam e aceitam o meu amor, outros me suportam para saber o que tenho na manga.
Eu não tenho NADA a perder, nem mesmo a mão que segura as cartas continuarão comigo depois que este jogo terminar.
Portanto quando eu estiver correndo atrás de um sonho novo, ou estiver embriagada de paixão, não atravesse meu caminho, porque do mesmo jeito que eu dou carona para todo andarilho da estrada; eu passo por cima de quem tentar me impedir de seguir.
Viver não é para os fracos, estamos sempre de malas prontas para partir e mesmo assim, Vida presta!
MMíriam Morata- trecho do novo livro que será lançado este ano - "Equanto envelheço e tento entender alguma coisa"

Amigos comecem a pensar em escrever as histórias que viveram, e como construiram a pessoa que é hoje.
Logo vou fazer um convite para que essas histórias sejam compartilhadas. Depois explico, mas pensem...

“Se fui capaz de ver mais longe, é porque me apoiei em ombros de gigantes.” Isaac Newton"Hoje meu pai faria 98 anos, dur...
31/05/2026

“Se fui capaz de ver mais longe,
é porque me apoiei em ombros de gigantes.”
Isaac Newton
"Hoje meu pai faria 98 anos, durante 79 anos eu dei Parabéns e um abraço naquele velho bonito e ranzinza.
Era um homem tímido, não demonstrava emoção porque se estivesse com raiva ou magoado - “ninguém tem nada a ver com isso”; se estivesse feliz e com novos planos – “se contar não vai dar certo”, então eu nunca soube o que se passava no coração dele.
Ele sempre esteve fora do contexto – na infância não teve tempo para ser criança porque começou a trabalhar aos 7 anos na pedreira; na adolescência não tinha amigos, só tinha sonhos e vontade de estudar; aos 17 anos veio sozinho para São Paulo estudar e “ser alguém na vida” – ele não fazia ideia de que sempre fora alguém na vida e isso fez toda a diferença.
Como a vida sempre o colocou fora do contexto ele gostou e parecia não se incomodar com isso.
Tinha apenas 1 amigo e estava bom, segundo ele. Foi morar no porão de uma pensão no bairro do Brás e da sua cama via os pés das pessoas que transitavam pela calçada. Naquele quartinho ele aprendeu a ser adulto, lavar alface no chuveiro, pagar as contas, sobreviver e ajudar a família que ficou no interior.
Tinha pressa, parecia querer engolir a vida em grandes bocados, para depois se afastar e f**ar quieto no seu mundo, digerindo cada desafio, sonho ou ferida.
Papai não gostava de perder tempo, por isso economizava nas palavras, evitava sonhos pequenos e respostas ou pessoas previsíveis.
Ele me ensinou muito... segurar a enxada, desenhar a minha mão sobre a mesa, fazer viagem astral, os nomes dos passarinhos, como procurar água com uma forquilha (nunca deu certo, mas tudo bem), fazer conta na régua de cálculo (nunca consegui); como atrair naves e alliens (nunca deu certo também), até mesmo quando nem percebia que eu estava por perto e só estava tentando aprender alguma coisa, ele me ensinou a nunca desistir de aprender qualquer coisa...
Papai me ensinou muitas coisas, mas as últimas lições foram as mais dolorosas, radicais, assustadoras e quebraram todas as lentes e máscaras através da quais eu via e interpretava o mundo.
Papai com Alzheimer me ensinou sobre impotência, fragilidade humana, impermanência, aceitar as certezas podem se desmanchar no ar e não temos o poder de impedir. Ao mesmo tempo também ensinou sobre a Força do Amor, o Poder da Compaixão, A diferença entre o Sublime e o Impermanente e as Certezas são apenas conclusões temporárias, que não cabem no Eterno.
Papai me ensinou que este corpo é só um barco, para atravessarmos o mar da existência e quando chegamos à outra margem, devemos abandonar esse barco e continuar a trajetória.
Eu fiquei olhando ele seguir o caminho e voltei sozinha para esta margem, mas a força do Amor, dos Ensinamentos e da Teimosia que herdei dele estão comigo em cada passo do meu caminho.
Obrigada meu velho, eu descobri que Amor e Admiração andam juntos, e o senhor é minha referência de força e determinação.
Nem vou desejar Feliz Aniversário, pois aí onde o senhor está, o Tempo não existe e no meu corção também não, então todos os dias, para sempre vou celebrar e agradecer sua passagem pela Terra."
Míriam Morata filha do sr. Rubens

30/05/2026
O Alzheimer me ensinou a diferenciar o que importa e aquilo que não faz diferença, nessa aventura louca e dolorida que é...
30/05/2026

O Alzheimer me ensinou a diferenciar o que importa e aquilo que não faz diferença, nessa aventura louca e dolorida que é viver. Aos poucos o cansaço e o medo, a impotência e a descoberta da fragilidade humana diante da vida, me ensinaram a compreender o que vale a pena carregar e o que é preciso abandonar, para que minha bagagem seja mais leve e sobre espaço para a felicidade.
Agora eu sei que não me importa se você acende velas para o santo, ou canta para o orixá, ou entoa mantras, ou grita “Aleluia!” com o pastor. Eu quero saber se seu amor e compaixão são seletivos, se você ama apenas a quem te ama, ou aqueles que poderão ser úteis, um dia; ou aqueles que abraçam a sua fé e comungam das mesmas verdades que você.
Não me interessa quantas vezes você levantou e continuou caminhando, mesmo que esfolado e faminto. Quero saber o que as cicatrizes e a lembrança da fome fizeram de você; quero saber se você conseguiu iluminar e aprender com essa dor, ou se escondeu tudo isso nas dobras do coração e continua alimentando em segredo, a revolta e o medo.
Não me importa saber quantas portas o mundo fechou para você. Quero saber se você fechou as portas do seu mundo e do seu coração, para não correr o risco de não se sentir amado como gostaria.
Pouco me interessa quantas vezes você engoliu o choro, e sorriu para aqueles que te feriram. Quero saber se você já visitou o centro da sua própria tristeza e acalentou aquela criança que ainda chora.
Não me importa de você saboreia o sucesso e os aplausos. Quero saber se seu coração está pulsando apaixonado por cada uma das suas escolhas, cada um dos caminhos que elegeu. Quero saber se você está sentado na primeira fileira aplaudindo suas vitórias, ou se está escondido na coxia, sonhando com os caminhos que abandonou.
Não me interessa se você troca fraldas, ouve os delírios e as ofensas de sua mãe sem revidar ou abandonar esse caos. Quero saber se quando está sozinho, consegue visitar seus porões e aplacar a raiva, o medo e a revolta pela condição humana.
Pouco me importa seus gestos e discursos de bondade, ou sua profunda necessidade de exercitar a humildade e a fé no seu Deus. Quero saber se consegue ver beleza e sabedoria na solidão absoluta, que esmaga o coração humano quando a morte e o luto apagam todas as luzes.
Não quero saber das dificuldades e frustrações que experimentou e venceu. Quero saber se consegue viver com o fracasso, a culpa e remorso e ainda assim, sentir gratidão pela oportunidade de estar vivo.
Não me importa as batalhas que venceu. Quero saber se depois da derrota, você consegue levantar e fazer o que é preciso para cuidar da vida e daquele que depende de você, sem mágoa ou raiva.
Não me importa quantas pedras você encontrou no meio do caminho. Quero saber o que fez com elas, quantas atirou em alguém e quantas guardou na sua bagagem.
Não quero saber o que você estudou, ou quantos diplomas conquistou. Quero saber o que te sustenta, quando tudo ao redor está desmoronando, quando não encontra resposta para suas perguntas em nenhum livro, e Deus silencia.
Não me importa o que você fez com sua vida.
Quero saber o que você fez com aquilo que a Vida fez de você.
Míriam Morata - tentando descobrir o que a vida fez de mim.

"As cenas se repetiam todos os dias, todas as horas... Mamãe chama desesperada, o quarto está cheio de água e ela vai mo...
29/05/2026

"As cenas se repetiam todos os dias, todas as horas... Mamãe chama desesperada, o quarto está cheio de água e ela vai morrer afogada; o quarto está silencioso e ela não respondeu ao meu chamado, corro para verif**ar se ela está respirando; papai f**a violento e grita que não é prisioneiro e quer a chave da casa; papai desmonta todas as tomadas, fechaduras, eletrodomésticos...
Eu corro para acudir, alimentar, participar dos delírios, acalmá-los, medir a pressão... e acredito que sou a pessoa saudável, que está cuidando de um idoso doente e amado. De um lado uma filha saudável, de outro os pais doentes e dependentes.
Mas, se eu olhar de outro ângulo?
Talvez Deus não tenha me dado todas as ferramentas para que eu cuidasse deles; mas deu a eles todas as ferramentas, para que me ensinassem a última lição que eu precisava aprender.
Meus pais não deixaram de cumprir a função de pais, nem mesmo quando não tinham ideia de que faziam isso.
Eu me acreditava senhora da situação, a provedora e aquela que permitiria que eles tivessem dignidade, amor e proteção; e não percebi que eles eram os meus mestres e me ensinavam algumas lições, que me fizeram um ser humano melhor em valores, força e compaixão.
Para cada limitação, dor, medo... existia uma lição que eu precisava aprender.
Tudo se apagou da memória, nomes e datas, mas o sentimento permaneceu intocado. Mamãe me abençoou e agradeceu por tudo, 2 dias antes de morrer enquanto delirava.
- “O que realmente permanece da vida é aquilo que fizemos com amor e por amor.”
Papai quase não tinha forças para andar, naquela tarde estava sentado na cadeira com a cachorrinha morta, apoiada nos pés dele. A Xuxa morreu de velhice. Ele chorava copiosamente e eu peguei o corpinho, enrolei na manta e disse que iria enterrá-la embaixo de uma árvore. Ele me olhou agradecido e disse:
- "Graças a Deus você vai cuidar dela, a Maria queria jogar no lixo. Ninguém joga um amigo no lixo. Amigo é tesouro.”
Mamãe estava esgotada, com dor no braço devido ao câncer e havia delirado a noite inteira, quando eu entrei no quarto ela sorriu – “Bom dia Mirinha! Já agradeceu a Deus por mais um dia de vida?”
- “Agradeça tudo que a vida te oferece, porque todos os dias acontecem milagres e nós nem percebemos, porque estamos ocupados demais lambendo nossas feridas.”
Papai não conseguia encaixar o parafuso no espelho da tomada e mamãe disse que ele estava tentando o dia inteiro. Quando cheguei ele veio me mostrar orgulhoso – “Arrumei a tomada, foi difícil, mas agora está tudo pronto.”
- “Não desista de uma tarefa, ou um sonho só porque parece difícil.”
Mamãe tinha médico e eu dei banho, perfumei, penteei o cabelo e coloquei a pantufa. – “O que é isso? Acha que eu vou sair com isso? Pega um sapato bonitinho que combine com a roupa.”
- “Não importa o que a vida fez com você, não se trate como qualquer coisa. F**a bonita e vai à luta.”
Eles morreram perto de mim e me ensinaram que a morte é nosso destino comum, não podemos fazer nada para fugir desse destino, mas enquanto estamos vivos, temos todas as chances para recomeçar, mudar, esquecer o que machuca, construir o sonho que foi abandonado por medo, tentar olhar tudo por outro ângulo e quem sabe, descobriremos muitos mestres prontos para nos ensinar a arte de viver."
Míriam Morata, grata aos mestres que me ensinaram as lições mais difíceis da minha vida - trecho de Alzheimer recolhendo os pedaços

Endereço

Salto, SP
07734-020

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