15/06/2021
PADRÕES DE BELEZA E O CAPITALISMO
Era um domingo, 24 de janeiro, quando a internet explodiu com a notícia da morte de uma influencer devido a complicações cirúrgicas do procedimento de lipo LAD. Embora o debate sobre as terríveis, e muito possíveis, consequências de procedimentos estéticos tenha se acendido na época, a narrativa que questiona esse status quo voltou a ser suprimida, e notícias de procedimentos de sucesso tomaram o lugar desses questionamentos. Mas, enquanto as complicações de procedimentos invasivos geram consequências óbvias e difíceis de se ignorar, procedimentos mais simples acabam sendo banalizados de uma forma curiosa.
De ex-BBBs a grandes atores e atrizes estadunidenses, passando por influencers e até mesmo por nossos vizinhos, amigos e conhecidos, é fácil listar quem já passou por preenchimentos. Sejam preenchimentos labiais a processos de harmonização facial, todo mundo conhece ao menos um punhado de pessoas que já o fizeram. A maioria dos procedimentos não são baratos, e para serem feitos de forma segura exigem o desembolso de uma quantidade de dinheiro que boa parte dos brasileiros não têm.
Não existe nada errado em querer mudar algo em sua aparência, seja pelo uso de lentes, maquiagem, tatuagens e até mesmo procedimentos estéticos. O problema está no motivo que leva a esse desejo, que muitas vezes é imputado dentro de nós por forças externas. E essas forças por vezes estão associadas aos desejos do capitalismo, de movimentar o mercado e capitalizar nossas inseguranças.
Em obras como “O Mito da Beleza”, de Naomi Wolf, vemos a relação entre a opressão que as mulheres sofrem na sociedade patriarcal com a reprodução frequente de imagens estereotipadas, colocando uma imagem ideal inatingível. Simone de Beauvoir fala sobre como as próprias ideias de gênero fazem parte de um sistema de dominação fundado em opressões sociais. Diversos estudos feitos no país, bem adequados a nossa realidade, mostram essa mesma correlação, consolidando a ideia de que o sistema capitalista tem tudo a ganhar com o reforço de estruturas opressoras, seja através do racismo, do machismo ou da lgbtfobia.
Assim, é importante sempre ter em mente que nossas insatisfações não ocorrem de forma isolada, mas que estão diretamente ligadas à nossa sociedade e ao sistema político-econômico vigente. Entendendo os efeitos do capitalismo sobre nossos desejos, somos capazes de realizar escolhas mais informadas. Questionar por que nos sentimos da forma que nos sentimos é essencial para entendermos como o sistema em que vivemos pode nos influenciar e nos oprimir com o objetivo de lucrar em cima de nossas inseguranças. Só com esses questionamentos seremos capazes de realmente aceitar quem somos, de lutar contra esse sistema, empoderando a nós e a outras pessoas através dessa luta.
FONTES:
[VOGUE][SOBRE OS MITOS DA BELEZA] https://outline.com/adFkqH
[O GLOBO][ATÉ QUANDO MULHERES VÃO PERDER A VIDA EM BUSCA DO CURPO HUMANO] https://outline.com/K5M6Vg
[O GLOBO][PROCEDIMENTOS ESTÉTICOS, CIRURGIAS PLÁSTICAS E O RACISMO NO BRASIL] https://outline.com/FFx3BR
[HISTÓRIA DA HARMONIZAÇÃO FACIAL] https://contox.com.br/a-historia-da-harmonizacao-orofacial-hof-na-odontologia/
[MAIORIA NÃO VÊ MULHERES DA VIDA REAL NAS PROPAGANDAS NA TV] https://agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho/mulher-e-midia/pautas-midia/pesquisa-revela-que-maioria-nao-ve-as-mulheres-da-vida-real-nas-propagandas-na-tv/