29/10/2015
A redação do ENEM e as mulheres idosas
Como a maioria de vocês já deve saber, a Persistência da Violência Contra a Mulher foi o tema da redação do ENEM neste último final de semana. O assunto tomou também as redes sociais e outros canais de discussão pública. O que por um lado nos espanta, por outro nos motiva. É fundamental ver que o tema da violência contra a mulher tenha mobilizado debates em nosso país. Isso por que é justamente no silêncio e na naturalização destas violências que reside grande parte do problema. Abusos e diversas formas de assédio não são praticadas apenas por maníacos e desconhecidos, mas por gente próxima da vítima, familiares e conhecidos. Muitas a luz do dia e com conivência de uma sociedade profundamente desigual e ainda covarde para enfrentar suas dívidas históricas com as mulheres, os negros, os povos indígenas e tantos e tantos grupos marginalizados.
O debate nos atemorizou também. Não foram poucas as manifestações machistas e desqualificadas que surgiram para criticar o tema e criticar aqueles que celebraram sua escolha. Mesmo que pese a tristeza de ver esta onda conservadora se expressar impunemente nas redes sociais, é um momento de nos alegrarmos. Mais de seis milhões de jovens de todo o país tiveram a oportunidade de ler, refletir e produzir opiniões sobre este tema. É hora de celebrarmos os organizadores da prova que tiveram a coragem de falar de um assunto tão atual e necessário. Nós, como Coordenação de Políticas para a Pessoa Idosa da Cidade de São Paulo, queremos nos somar a este debate público, trazendo um pouco da experiência que acumulamos na construção da Universidade Aberta da Pessoa Idosa. Alguns dos temas que debatemos neste curso, e que se fazem oportunos para o debate público neste contexto, refletem justamente a o papel da mulher idosa e as violências sofridas por elas em nossa cidade.
Como sabemos, a situação da pessoa idosa no Brasil, e principalmente em São Paulo é bastante complexa. Fatores como classe social, raça, cor e gênero se cruzam e determinam condições bastante desfavoráveis para a maior parte da população com mais de 60 anos de idade. Vemos preconceitos e exclusões que se acumulam, provocando situações desumanas. Vivemos numa sociedade que se perpetua há séculos através desses mecanismos.
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas ao longo da vida, o número de mulheres que hoje chega a idades avançadas é superior ao de homens. Esse fenômeno é chamado de “feminização da velhice” – o índice de mortalidade do s**o feminino é menor que o do s**o masculino. Segundo o Censo Demográfico de 2000, por exemplo, 55% da população brasileira maior de 60 anos de idade era de mulheres. Pelo Censo Demográfico de 2010, em São Paulo, as mulheres eram 60% da população de pessoas com 60 anos ou mais de idade.
Porém, as mulheres idosas também são as maiores vítimas da violência. Os agressores das vítimas idosas do s**o feminino representam 77% entre familiares e outros conhecidos, enquanto nos casos de vítimas masculinas esse número cai para 50%. De qualquer forma, podemos notar que existe uma grande predominância da violência geracional praticada dentro de casa. Não apenas a violência física, mas também as diferentes formas de exclusão que afligem aos idosos aprofundam as diferenças de gênero que marcaram a vivência destas mulheres ao longo de toda sua vida. Um exemplo destas outras violências na relação com a família é a perda da autonomia financeira do idoso mesmo em casos onde ele é provedor da casa ou tenha renda própria.
Uma das raízes destas diferenciações se dá pela divisão sexual do trabalho e sua relação com o processo de envelhecimento da mulher no Brasil. Apesar dos avanços da mulher no mundo do trabalho, ainda hoje a situação é muito desigual para homens e mulheres jovens no que diz respeito aos salários, progressão na carreira e acesso a cargos de comando em empresas e , na política ou no sistema público. Mas, no período em que a maioria das idosas de hoje eram jovens e adultas, as restrições para sua inserção no mercado de trabalho eram muito maiores. Esse prejuízo se manifestou em sua formação educacional e profissional, e faz com que as diferenças entre a idosa e o idoso se reflitam também no nível de renda, aposentadoria e assistência social.
Ainda que compartilhem com os homens idosos muitos dos preconceitos do processo de envelhecimento, a experiência da velhice para as mulheres é, em sua maioria, de maior exclusão e dependência que a dos homens. Numa sociedade profundamente desigual como a nossa, diferenças de classe social e a persistência do racismo operam e se perpetuam simultaneamente com a exclusão de gênero. O que significa dizer que há grandes diferenças na experiência da velhice entre as mulheres da elite e da classe média, em geral brancas, para as mulheres pobres e negras das periferias do país.
A desigualdade de distribuição das tarefas no espaço doméstico também é uma das facetas do machismo: as mulheres são responsáveis por quase todas os trabalhos do lar desde a infância até a velhice. Em muitos casos, as idosas dividem seu tempo entre o cuidado dos netos, dos filhos, do próprio companheiro, e dos outros idosos da família (pai, mãe, sogros) faltando-lhe tempo para se dedicar a elas mesmas. A própria ideia de que a velhice é um momento de parar de trabalhar não se efetiva quando falamos na segunda jornada de trabalho, tão comum às mulheres brasileiras.
Assim, por tudo isso, a velhice é o momento em que estas condições dadas de desigualdade de gênero se somam a exclusão provocada pelo descaso às pessoas idosas em nossa sociedade. Por isso, envelhecer jamais pode ser visto como um processo único, comum a todos.
A feminização da velhice, nos alerta para a ainda baixa expectativa de vida dos homens idosos, mas também nos alerta para a necessidade de problematizar as condições de vida das mulheres que atingiram idades avançadas. Assim, as políticas públicas precisam se voltar para o fato de que as mulheres são a maioria na população brasileira, fator que se aprofunda na velhice. Por isso mesmo é que políticas públicas focadas nas condições das mulheres são fundamentais para superar muitas das nossas desigualdades históricas.
Se a violência e a opressão à mulher chamam a atenção de setores progressistas e despertam o ódio irracional de grupos defensores de privilégios e desigualdades, isso é fruto da luta e organização das mulheres. Nesse sentido é que só se podem esperar os melhores resultados da organização das mulheres idosas, sistematizando as suas pautas e difundindo as suas reivindicações.