Sonho que se sonha junto é realidade, já dizia Raul Seixas. Mas às vezes demora, principalmente quando se trata de conseguir algo do Poder Público, por mais justo e necessário que seja. Conheça essa história:
Durante mais de vinte anos o terreno municipal da rua Botucatu, 557, na Vila Clementino, esteve ocupado clandestinamente por um estacionamento, até que, finalmente em inícios de 2011 a Prefe
itura conseguiu reintegração de posse do terreno, que ficou vazio e parado. Nesse meio tempo, o Ricardo Fraga Oliveira, meu ex-aluno de matemática no Colégio Bandeirantes, iniciou o movimento "O outro lado do muro", lutando por um espaço verde num terreno particular de 10.000 m2 onde uma Construtora queria construir 3 imensas torres. Ao voltar para casa depois de um desses eventos lúdicos, com grande participação das pessoas e sempre aos sábados, me caiu a ficha: eu morava ao lado de um terreno MUNICIPAL desocupado que tinha tudo para ser uma praça! e mais, sob o terreno passa um córrego (canalizado) que é afluente do Córrego do Sapateiro, que deságua mais adiante no Parque Ibirapuera! Pensei comigo: "estou indo longe para apoiar a criação de áreas verdes e me escapa que, bem ao lado de casa, há uma área municipal quase que pedindo para ser uma praça". Foi assim que nasceu a ideia de lutar por uma praça naquele local. Mas de repente, em outubro de 2011, vimos uns operários cavando alicerces no local, como se ali fosse ser levantado alguma construção. Então, com urgência, passamos um abaixo assinado que conseguiu 785 assinaturas em apenas 10 dias, solicitando à Subprefeitura da Vila Mariana a conversão do citado terreno em praça para a comunidade. Nele, argumentávamos que a Vila Clementino não tem sequer uma praça digna desse nome — um ponto de encontro dos cidadãos, com árvores, bancos e flores, etc. — e a região é um polo de aglutinação de inúmeras pessoas de bairros próximos, geralmente da Zona Sul, devido a oferta de empregos e a sua infraestrutura em saúde, com a presença do Hospital São Paulo, a Faculdade Paulista de Medicina, a Fundação Dorina Nowill para cegos, o Hospital do Sono e o CDB - Centro de Diagnósticos Brasil, a Associação Cruz Verde para crianças portadoras de deficiência, inúmeras outros hospitais, clínicas e consultórios e as renomadas instituições de projeção nacional que são a APAE e o GRAACC, esta a poucos metros da futura praça. No entanto, mesmo com todo esse arrazoado, nosso abaixo assinado foi sumariamente recusado sob a alegação de que a SP-VM "tinha outros planos para aquela área e que a mesma era imprópria para praça, por ser de pequena extensão e localizar-se em meio de quarteirão". Tal fato foi uma ducha de água fria em nossas aspirações, entretanto o tempo passou e nada dos "outros planos " se concretizarem, de forma que em final de 2012 passamos outro abaixo assinado, que conseguiu 4.037 adesões, com o mesmo objetivo e a mesma argumentação, aproveitando o fato da troca de governo municipal o que veio a ocorrer em 1 de janeiro de 2013. Imediatamente fomos à SP-VM e entregamos o abaixo-assinado ao novo Subprefeito, que acolheu a causa com simpatia e deu o pontapé inicial no que seria o processo número 2013-0.283.561-7, que pedia a transformação do referido terreno em praça pública. Em outubro de 2014, após 22 meses, depois de demorada tramitação interna na Prefeitura, ocorreu finalmente a aprovação de nosso pleito. Imediatamente, fizemos uma festa em 12 de outubro, dia da Criança, um domingo, para "tomar posse" do terreno. Houve lanches e refrigerantes fornecidos gratuitamente pelas padarias do entorno. Foram alugados brinquedos como escorregador, pula-pula e outros. Vieram muitas crianças e, ao final, foi feita uma distribuição de presentes. Devo salientar que foi fundamental a atuação do Conselho Participativo Municipal da Vila Mariana (CPM-VM), do qual faço parte, que encampou a causa e desde o início posicionou-se inteiramente a favor da mesma. Um dos conselheiros, o arquiteto Raphael Popovic, prontificou-se a fazer a planta da futura praça, graciosamente, contemplando majoritariamente materiais já existentes na SP-VM, dada a escassez de verbas da mesma. A SP-VM, então, iniciou a construção da praça no último dia 15 de junho, seguindo o projeto do arquiteto Popovic e sua sócia Aline. Os moradores do entorno têm se cotizado para suprir melhorias não contempladas pela Subprefeitura, como os ladrilhos do percurso do córrego e as mudas de hera que foram plantadas rente aos muros. A Subprefeitura também alega escassez de verbas para adquirir os equipamentos do parquinho das crianças e aparelhos de ginástica dos idosos, bem como o bebedouro. Além disso, há vários "arremates" pendentes há tempos, que não necessitam de investimento e sim de mão de obra e boa vontade. Mesmo com muita lentidão, demandando uma paciência enorme, a obra está adiantada e deve ser concluída nos primeiros meses de 2016. Que esse trabalho conjunto sirva de incentivo a todos os munícipes de nossa querida cidade de São Paulo, para lutar por áreas verdes e outras necessidades de seus bairros! Em tempo:
o Ricardo Fraga Oliveira foi proibido, por decisão judicial, pasmem todos, de fazer qualquer tipo de manifestação a menos de 1 km de distância do empreendimento da Av. Conselheiro Rodrigues Alves. O poder econômico DEITOU E ROLOU. E as três torres estão lá, puro concreto, sem qualquer área verde. E o Fraga quase ainda teve que ressarcir a Construtora, que alegou "prejuízos nas vendas" por causa da intervenção coletiva "O outro lado do muro", o último movimento romântico da cidade.