09/08/2016
MEMÓRIA LITERÁRIAS
OLÍMPIADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA / 2016.
Escrita na 1ª pessoa.
Professora: Leonice Dapper
Aluna: Emilly dos Santos Lübéck - Turmas: 72
O PONTO DE ALMOÇO
Meu querido ponto de almoço até o nome é especial, não era exatamente um ponto só de almoço, mas servia para toda a indiada que passasse por ali chegasse um pouco para descansar e também aos compadres bater aquele papo gostoso, falar da vida alheia, quero, dizer comentar dos afazeres e das novidades cotidianas das pessoas chegadas e as demais também ninguém se escapava.
Posso sentir o gosto amargo em minha boca da cachaça de alambique vendido em dose, não que fosse tomar apenas um pouco, tomava a garrafa toda más enchida aos poucos em dose se tornava mais gostosa e muito apreciada por todos que ali passavam. A gurizada se esbaldava numa gasosa chamada mirinda, hoje mais conhecida por guaraná.
Ah! meu amado tio Nino o açougueiro sempre pronto a atender a clientela que não é pouco não. Me vê aí um pedaço daquela carne do seu lado direito, parece das boas, sim um pedaço porque geladeira é coisa de americano, o charque é a melhor maneira de se guardar uma carne por mais tempo possível sem estragar, bem forte de sal, pimenta, cheiro de fumaça, gosto de fumaça. Bem forte para os filhos ficarem bem saudáveis, alimentados a fins de aguentar a lida de campo e lavoura, quantos mais filhos tinham maior o pedaço de terra, é pra ninguém passar necessidade, bem pensado.
Voltamos ao ponto de almoço referência regional o povo era obrigado passar por ali, pois, é a melhor estrada, tinham outras sim, mas muito esburacada. Minha nossa, eu ainda vejo os caminhões de carga e ônibus de linha se deslocando daqui pra li, de lá pra cá. Muitas linhas, vindo de Porto Alegre, Passo Fundo, Ijuí, nem sei dizer perdi as contas com certeza é mais de vinte ônibus por dia. Lindo de ver quando chove é um lamaçal de barro. Os compadres se reúnem a fins de conversar fiado, e a gurizada jovem e esperta aproveita para ganhar uns trocados, arrastando um carro de um caxeiro viajante e desatolando caminhão, ônibus o que vinha pela frente. Posso sentir o cheiro da terra molhada e atolado até os joelhos.
Como os brinquedos eram poucos e sem condições de comprar, nos dias de chuva o passa tempo garantido, esperando os viajantes e torcendo para que atolassem seus carros. Claro o futebol é garantido nos finais de semana, em um campinho improvisado dentro dos campos, desde que as vacas permitissem, caso chegassem um extravio de negrinhos correndo pra todos os lados porque elas que eram as donas do pedaço. A esperança de que fossem pastar bem longe para que o jogo continuasse. Caso contrario o bodoque e as árvores a segunda diversão. Banho de lajeado acontecia no verão escaldante e é só que restava.
Necessito falar da vila São Miguel, porque nesta época a vila teve menos importância aos estancieiros e viajantes, pois ficava afastada, retirada do ponto principal. Ponto do almoço, sinto muita saudade, fecho os olhos e vejo o povo circulando de bombacha, a calça arremangada e cheia de remendos, as vezes sem saber a cor original do tecido, sim de tantos pedaços coloridos um em cima do outro.
Deixo pra lá, mais falando em cidade o município hoje é conhecido mundialmente como Patrimônio Cultural da Humanidade, vindo gente de todo mundo conhecer as missões, os vestígios dos padres jesuítas e guarani do nosso tempo. Sim ainda hoje circulam pelas pequenas ruas e avenidas, vendendo seu artesanato ou pedindo pão de casa em casa. Sendo estes os verdadeiros donos desta terra.
Quero mais falar do bolichão do ponto de almoço, onde tio Bento vende fumo em metro, tecido de algodão peça inteira para fazer roupas desde o dono da casa até os mais pequerruchos de todas as idades. Quando saia de casa mais parece um pelotão em marcha, uniforme completo, todos iguais, se diferencia pelo tamanho ou pela cor do cabelo da indiada. O arroz, feijão, farinha, erva mate, tudo armazenado em tuias e o povo comprando e colocando em sacos de bolsa. O pagamento ocorria de ano em ano, somente na safra de praxe no mês de maio o tempo das vacas gordas.
Na lavoura tudo dá, pequenas propriedades cheias de milho, feijão, batata inglesa, batata doce, mandioca, pipoca, amendoim, cebola, alho, nem sei mais o que, tanta coisa sem falar nas hortas, verduras e legumes ninguém compra, obrigatório o colono ter assim como galinha, ovos, porco e banha. Por falar em banha, comi muito pão com banha e sal, de merenda, doce uma gemada bem feita pela mãe, bolo de laranja ou cenoura, que delicia junta água na boca.
Jamais esquecerei das pequenas encrencas, depois de encher a cabeça de cachaça os homens ficavam bem machos, puxavam facão, arrastavam no chão pedindo briga. Quanta risada porque alguns de tão bêbados caiam no chão e ali tiravam uma pestana de uma hora ou duas, depois levantavam com aquela cara de pau, envergonhado do fiasco feito, arreavam o cavalo e se iam embora a galope pela estrada poeirenta.
Jamais esqueci do lugar que vivi o que aprendi de bom e de ruim porque moleque, guri novo sempre faz traquinagem, principalmente ver o circo pegar fogo. Seu Nino não se cansou da lida com o tempo mudou-se para a vila São Miguel, o primeiro açougueiro estabelecido no centro do vilarejo e com novas tecnologias, pois comprou uma geladeira e um resfriador para guardar a carne. O progresso esta chegando e os turistas aproveitando comprar e saborear o salame caseiro, bem temperado do Nino velho. Não conhece pressa e sempre disposto a dar conselho a quem quisesse ouvir.
Hoje crescido o vejo de cabelos brancos pelas ruas da nossa linda cidade São Miguel das Missões, a experiência e a vida que compartilhamos juntos, morrerá conosco até o fim da eternidade.
Aluna: Emilly dos Santos Lübéck
Turma: 7º Ano - 72