03/02/2022
Bom, finalmente cheguei ao fim.
Tudo foi sonhado para que gerações passassem por mim, e ocorreu.
Ainda não posso aceitar que não existo mais. Compreendo, mas não aceito.
Desde que eu era um barracão de madeira eu fui concebido para ser educação, mas muito mais família. Não importa quantos passaram por mim, a ideia, sonho, sempre foi que eu fizesse a diferença na vida das pessoas, alunos e comunidade, mas tenho a ligeira impressão que, com o passar do tempo, perdi meu objetivo.
Com o passar do tempo quem manda - ou deveria obedecer - resolveu que eu não era mais útil, que eu era descartável.
Eu sei que a cidade não me quis, aliás queria o espólio de tantas batalhas para que eu não deixasse de existir.
Me usaram como barganha. Me usam como argumento para fazer proselitismo. Mas tudo bem.
Fui sonhado e planejado por pessoas que me ajudaram muito e amaram a educação de forma plena. Eu sei quem deu a vida para que eu existisse. Também sei quem passou por mim com todo o amor do mundo para me fazer uma escola acolhedora, receptiva, integradora, agregadora. Obviamente que eu não vou citar nomes para o bem ou para o mal, pois posso cometer uma injustiça ao não citar alguém muito importante ou posso ser justo demais ao citar quem nunca se importou comigo, aliás só passou por mim para tirar, denegrir.
Sim eu sei de tudo, mas agora não vou apontar o dedo para quem nunca me quis bem (aliás alguns alunos que vinham do município e alguns responsáveis que, convenhamos, nunca edificaram um tijolo na história minha me chamavam de "Tito Lixo", mal sabendo eles que eu era exatamente um reflexo deles). Eu sei quem me queria bem e quem me queria mal, quem investia em mim e quem investia em si mesmo, mas reitero que vou falar só com aqueles que de alguma forma sentirão uma pontinha de saudade, que dirão com um saudosismo "um dia houve aqui uma escola e eu estudei nela".
Espero ter deixado lembranças boas mais que ruins. Eu sei que não fui perfeito, que posso ter causado mal a algumas pessoas, entretanto meu único objetivo era preparar para a vida e acolher com amor. Não há retorno e mesmo que houvesse não seria mais a mesma coisa. Fecho as minhas portas com o vazio da falta de alunos, móveis, funcionários, professores, enfim vida.
Desejo toda sorte do mundo para meus alunos e para quem vier me ocupar. A gente demorou pra ir embora, né? O meu fim, infelizmente pra mim, foi para alegria de quem sequer sabe o que eu passei, as minhas lutas.
Meu fim foi planejado, desejado e fui despejado da forma contrária ao que eu sempre ensinei. Mas tudo bem. Que a minha memória fique viva na vida de quem importa e agora já não me importa quem nunca me quis.
Me fecho para sempre com a sensação de que ficou muito para se fazer, mas com a certeza de que se eu consegui mudar a vida de apenas uma pessoa já valeu a pena eu existir, pois cada um que passou por mim NÃO TEM PREÇO.
Me despeço em branco, sem placa, sem nome, mas peço que quem quiser compartilhar nossas história juntos faça isso abaixo. Vou adorar ver fotos nossas.
Tito Lima se foi uma outra vez.
Olhem pra trás com saudade, mas continuam caminhando pra frente.
Obrigado. Muito, muito obrigado.
PS.: Eu, Matheus, fui o último funcionário do Tito Lima e agradeço a todos com quem trabalhei e convivi nestes anos e peço licença para agradecer especialmente a Dona Maura (ao qual sou genro), que como tantas pessoas lutou muito por essa escola e ainda bem que não está aqui para sentir esse vazio imenso que é ver todo um trabalho trocado por um punhado de votos.
Obrigado a todos que, mesmo sem nenhuma obrigação, continuam ajudando. Obrigado Araão, por tudo que faz e por toda luta que travou pela escola.
A história não pode ser apagada.