09/07/2020
Após cerca de 100 dias de quarentena, sem dúvida o cansaço já tomou conta da maioria de nós. Como resultado, até mesmo algumas pessoas que nunca subestimaram o vírus estão sucumbindo ao conformismo e um perigoso argumento vem ganhando força quando criticamos a flexibilização das medidas de distanciamento social, algo como: "Quer saber... Deixa abrir e cada um que cuide de si... Todo mundo já sabe o que precisa fazer, quem não usar máscara e álcool gel tem mais é que se ferrar..."
Essa linha de raciocínio é uma falácia por vários motivos, mas vou começar com o que considero o principal: ela tenta individualizar consequências que na verdade sofreremos como sociedade. Uma pessoa que dirige bêbada não está ap***s arriscando a própria vida, ela pode matar os outros. A onda de pessoas optando por não se vacinarem e/ou não vacinarem seus filhos fez com que doenças consideradas erradicadas (como o sarampo) tenham voltado a circular. E da mesma maneira, a flexibilização da quarentena prejudica quem vai ao shopping passear, mas também aumenta o risco para aqueles que continuam fazendo o máximo para se precaver.
Aliás, esse é outro erro que muitos estão cometendo: acreditar que usando máscara e álcool gel 70% estamos completamente protegidos e isso simplesmente não é verdade. Certamente é melhor usar máscara e álcool gel ao sair de casa, assim como se você tiver que ir para a guerra é melhor estar com capacete e colete à prova de balas, mas o melhor, sempre que possível, é evitar o combate. Claro que sabemos que existem profissões essenciais e que muitas pessoas estão sofrendo para honrar seus compromissos, porém deveria caber aos nossos governantes priorizar o enfrentamento da pandemia e tentar criar medidas para garantir a segurança da população. Lamentavelmente, temos visto uma pressa inexplicável em "voltar ao normal", reabrir a economia e uma ânsia em inaugurar praças reformadas.
E esse tipo de atitude dos nossos governantes é o terceiro grande furo no argumento do "cada um que cuide de si". Não podemos supor que a população tenha real noção dos riscos que está correndo ao se expor, pois nossas autoridades parecem se esforçar para passar um exemplo errado. Se desde o princípio ouvimos que tratava-se ap***s de uma "gripezinha", como esperar comportamento consciente de quem está desesperado com a queda no rendimento familiar? Isso sem falar que um trabalhador pode estar 100% consciente de todos os riscos e ainda assim não ter a oportunidade de se proteger. Afinal, todos temos visto as imagens de transporte público lotado.
Enfim, sei que textos grandes costumam ser menos lidos, mas não quis tratar de maneira simplista um problema complexo. Então resumindo: se você se considera alguém preocupado com o próximo, já não deveria ser conivente com a flexibilização da quarentena. E mesmo se você for um egocêntrico convicto, também é melhor não propagar o discurso de "cada um por si", pois a menos que você seja uma eremita na montanha, uma sociedade contaminada também é pior para você.