14/07/2025
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Vila Isabel tem bares fechando mais cedo e onda de imóveis à venda após disputa entre facções
Yuri Eiras
13/07/2025
Na entrada do Noel Rosa, túnel na zona norte do Rio de Janeiro que liga os bairros do Riachuelo e Vila Isabel, uma blitz da Polícia Militar é montada diariamente, patrulhando carros e motos que atravessam.
Tem sido uma região tensa desde que o Comando Vermelho iniciou uma empreitada para tomar definitivamente o morro dos Macacos, em Vila Isabel, que era dominado havia mais de uma década pelo Terceiro Comando Puro, facção rival.
A PM diz que intensificou o policiamento após os registros de confrontos, frequentes há pelo menos seis meses. Os tiroteios tiveram auge em maio e junho e diminuíram em julho.
A principal investida vem do São João, que f**a na mesma cadeia de morros, mas do outro lado do túnel, no Engenho Novo.
O morro dos Macacos, antes dominado pelo TCP e agora em disputa, é cercado por comunidades já dominadas pelo CV.
Policiais em patrulha têm encontrado grupos de traf**antes armados, os chamados "bondes", atravessando as comunidades. Em dezembro, um efetivo da PM viu 50 suspeitos do CV caminhando pelos Macacos. Eles tentaram fugir para o São João, foram cercados na mata e trocaram tiros.
O bonde se dividiu e tentou deixar o morro São João por diferentes saídas, mas um dos grupos foi cercado. Sete suspeitos foram presos. Em boletim de ocorrência, policiais afirmaram que os traf**antes fizeram uma transmissão ao vivo antes da prisão, "em tom de desespero".
*O Instituto Fogo Cruzado, que contabiliza e notif**a tiroteios em regiões metropolitanas do país, calcula que Vila Isabel teve 27 tiroteios em maio, com três mortos e cinco feridos. Foi o bairro com mais tiroteios na cidade.*
Em agosto do ano passado, cinco pessoas morreram baleadas numa madrugada de segunda-feira na praça Barão de Drummond, a mais movimentada.
O episódio fora um ataque do CV a um traf**ante do TCP que estava na praça —ele morreu no hospital. Os suspeitos passaram de carro e moto atirando. As demais quatro vítimas do ataque estavam na praça comendo e conversando.
Àquela altura, a disputa entre facções já havia abalado o mercado imobiliário local, segundo corretores que atuam na região. Sob reserva, eles afirmam que tem aumentado o número de imóveis à venda no bairro e relatam dificuldade de encontrar interessados.
Dados do Secovi-Rio (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis) não fazem a relação direta com a violência, mas mostram que o valor do metro quadrado residencial em Vila Isabel tem desvalorizado desde 2023, com uma queda mais acentuada entre janeiro e agosto de 2024.
Em maio deste ano o valor médio do metro quadrado de venda residencial foi de R$ 5.297, levemente abaixo da média até 2024 (R$ 5.500).
A fase assusta moradores, acostumados a ter Vila Isabel como um estandarte de um Rio que dorme tarde, com seus bares ao longo do Boulevard 28 de Setembro, a via principal. Noel Rosa, noturnal maior do lugar, tem uma estátua na entrada de Vila Isabel. Sentado à mesa, é servido por um garçom.
Nos versos menos famosos de "Feitiço da Vila", Noel diz que a Vila é a "zona mais tranquila", gabando-se que "não há cadeado no portão", porque no bairro não tem ladrão.
No remake da novela "Vale Tudo", da TV Globo, Vila Isabel é o núcleo onde a protagonista Raquel (Taís Araujo) conhece Poliana (Matheus Nachtergaele) e cria seu principal vínculo de amizade. É retratado como um bairro de classe média, com muitos bares. O Catete, na zona sul, foi o cenário desta parte da trama na versão original.
*"Temos o desafio de restaurar o orgulho e a alegria de morar em Vila Isabel. Vamos precisar de política pública, de boa vontade da população e criatividade do comércio", afirma Mônica Lahmann, presidente da VIGA (Vila Isabel, Grajaú, Andaraí e Maracanã), outra associação representante do bairro.*
*A classe média de Vila Isabel é formada por funcionários públicos, muitos aposentados. "O bairro empobreceu um pouco também, desde a última grande crise financeira do Rio", diz Mônica.*
A Vila está na Grande Tijuca, região de classe média da zona norte do Rio, e não compõe o chamado subúrbio, mas é o último bairro antes dele –é passagem para Méier e Engenho Novo.
A conexão entre Engenho Novo e Vila Isabel fazia parte da Linha Verde, via expressa que ligaria a rodovia Presidente Dutra à Gávea, prevista em um plano de urbanização do Rio da década de 1960, mas nunca concretizada –as linhas Amarela e Vermelha, do mesmo projeto, foram criadas.
O fato de ser passagem entre a Grande Tijuca e o subúrbio torna o Macacos visado pelo CV, segundo policiais.
Em nota, a PM disse que reforçou o patrulhamento nos acessos e interior dos Macacos e São João, principais envolvidos na disputa.
*O medo dos moradores chega por meio dos telefones celulares, em grupos que anunciam supostos toques de recolher determinados pelo tráfico e nunca confirmados pela polícia. Comerciantes que não quiseram se identif**ar relatam que parte dos bares e restaurantes tem fechado mais cedo.*
*Um deles afirma que mantinha o bar aberto até as 23h de segunda a quinta-feira, mas tem evitado passar das 21h. O medo, ele diz, é que a disputa que acontece nas comunidades se estenda pelas ruas do bairro.*
*"As pessoas são bombardeadas pela mídia. O papo nas cafeterias, nos bares é sobre violência. As pessoas vão f**ando recuadas, entristecidas. E há também o envelhecimento da população. Os idosos que eram engajados em trazer alegria vão falecendo", diz Mônica.*
*Há resistência, contudo. "Tenho um grupo de amigas mulheres, batizado de ‘Malandras di Buteco' e gostamos de curtir a noite no bairro. Ficamos até de madrugada conversando nos bares, cantando no karaokê", diz Mônica.*
Entre as ruas Torres Homem e Visconde de Abaeté, um circuito de bares foi batizado de "Quadrilátero do Álcool" e se tornou farol da vida noturna local, com apresentação de grupos de samba e bares abertos até madrugada.