27/08/2026
Hoje estamos dando um passo para abrir uma porta nessa bolha que foi sendo construída socialmente e que, por vezes, aprisiona o homem em lugares já determinados: o agressor, o negligente, o ausente na relação familiar.
Atualmente, muito se fala sobre a posição que a mulher ocupa nos diferentes espaços, discussão extremamente necessária e construída ao longo de uma história que não pode ser ignorada, mas talvez tenhamos permitido que, em alguns momentos, todos os dedos se voltassem para o homem, como se um duelo não tão silencioso passasse a caracterizar o contato. Nesse movimento, o próprio conceito de família corre o risco de se estreitar, enquanto seus integrantes vão sendo colocados em caixas, isolados em papéis previamente definidos e com pouca possibilidade de protagonizar outras formas de estar nessa relação.
Os homens estão sendo classificados todos dentro um mesmo padrão generalista, sem compreensão de individualidade e disponibilidade para mudança. Não negamos a infeliz existência de pessoas agressivas, preconceituosas, egoístas, em sua maioria apontadas como “os homens”, mas essa visão encaixotada coloca em prejuízo os que não se enquadram nesses comportamentos. As mulheres lutam há anos justamente para não serem colocadas em padrões e estereótipos criados por homens, e a ânsia em romper com essas amarras estão fazendo com que façam o mesmo com eles: estão sendo colocados indistintamente em lugares determinados por mulheres, e eles se acomodam nos padrões em que são colocados, favorecendo a inércia de suas posturas e pensamentos.
Talvez seja justamente esse o ponto, mudarmos a direção do nosso olhar e dos dedos apressadamente apontados. Se desejamos homens mais presentes, afetivos, participativos e disponíveis para o cuidado, também precisamos abrir espaço para que eles possam ocupar esses lugares sem que cada tentativa seja interpretada pela lente da desconfiança, da comparação ou da insuficiência.
Há homens que ainda carregam modelos antigos de masculinidade, aprendidos em casas onde o sentir não era permitido, pedir ajuda parecia fraqueza e cuidar significava prover o sustento. Esses aprendizados atravessam gerações e chegam às relações atuais, na maioria das vezes sem terem sido questionados. E de repente esperamos que esse homem saiba conversar, acolher, dividir tarefas, expressar afeto, reconhecer limites e participar da vida familiar de uma forma para a qual, em muitos casos, ele não teve referência.
Isso não o exime de rever suas escolhas, reconhecer ausências, reparar danos ou aprender que existem outras maneiras de estar em uma relação. Ao contrário, talvez seja justamente aí que seu protagonismo possa começar a aparecer: quando ele deixa de apenas repetir aquilo que recebeu e passa a se perguntar que homem deseja ser dentro da própria família.
Também pensamos que a transformação dificilmente acontece quando alguém é reduzido ao erro que cometeu ou ao papel que esperam que desempenhe. Relações precisam de espaço para movimento. Precisam permitir que as pessoas sejam vistas em sua história, mas também em sua capacidade de construir novos modos de presença.
Acreditamos que a família precise voltar a ser pensada como um campo de encontro e construção, onde homens e mulheres possam rever lugares, dividir responsabilidades e reconhecer que ninguém chega pronto para ocupar o papel de pai, mãe, companheiro ou cuidador. Cada um traz consigo marcas, modelos, expectativas e ausências, e é justamente no encontro que essas histórias começam a se cruzar.
Abrir essa conversa com os homens é também reconhecer que eles têm algo a dizer sobre o lugar que ocupam, sobre aquilo que aprenderam, sobre o que lhes pesa e sobre o que desejam transformar.
Esse foi nosso propósito, permitir que o homem deixe de ser apenas falado e passe também a falar de si, de suas relações, de seus medos, de suas dificuldades e das escolhas que ainda pode fazer dentro da própria história familiar.
Pensamos que esse pode ter sido o início de uma transformação grandiosa, talvez lenta, mas extremamente necessária. Relações familiares carregam diferenças, desencontros, conflitos e histórias que se atravessam o tempo todo; ainda assim, podem encontrar caminhos de diálogo, respeito e reconstrução quando cada um consegue sair um pouco do lugar de defesa e se permitir estar verdadeiramente no encontro. Talvez seja essa a direção para que novas formas de convivência comecem a ganhar espaço.