27/05/2026
Passei metade da vida
tentando merecer permanência.
Aprendi cedo
que amor também podia vir acompanhado de silêncio,
exigência
e medo de errar.
Então observei.
Observei o humor antes das palavras,
os segredos escondidos dentro da casa,
as tensões que ninguém explicava,
as ausências sentadas à mesa.
Enquanto outras crianças apenas cresciam,
eu monitorava atmosferas.
Fingia dormir
Não era sono.
Era estratégia.
Meu corpo aprendera cedo
que desaparecer às vezes
parecia mais seguro
do que falhar.
Mas eu também era o menino de ouro.
O inteligente.
O resiliente.
O que precisava compensar o próprio corpo com desempenho
e alguma forma extraordinária de existir.
Queria que o mundo me olhasse
sem pena.
Queria entrar nos lugares
sem precisar provar que merecia estar ali.
Mas ninguém percebe o quanto cansa
transformar sobrevivência em identidade.
Guardei tristezas nos livros.
Escondi raivas no silêncio.
Refugiei-me na floresta.
Porque as árvores não perguntavam
por que eu estava quieto.
A mata não tentava me corrigir.
O rio não exigia explicações.
Ali eu podia apenas existir.
Depois vieram os símbolos:
a umbanda, o yoga,
os mistérios do espiritismo, da alquimia,
as filosofias tentando responder
o que minha infância não conseguia nomear.
Passei anos atravessando caminhos espirituais
como quem procura a própria casa por dentro.
Mais tarde compreendi:
minha família também era feita de sobreviventes.
Homens endurecidos pela perda.
Mulheres cansadas pelo silêncio.
Verdades escondidas para sustentar estruturas frágeis.
Então entendi
que eu não havia herdado apenas um nome.
Havia herdado medos,
hipervigilâncias
e a crença antiga
de que sentir demais podia colocar tudo em risco.
Por isso explicava tanto.
Tentava transformar dor em linguagem perfeita,
como se compreensão impedisse abandono.
Até perceber algo simples:
há feridas
que não querem explicação.
Querem repouso.
Hoje começo a entender:
liberdade não era fugir.
Era finalmente conseguir permanecer em mim mesmo
sem sentir vergonha de existir.