11/01/2017
LÍDER INDÍGENA É PERSEGUIDA PELO ESTADO CHILENO após denunciar desmatamento ilegal. *
Um relatório divulgado na última terça-feira, 3 de janeiro, por uma missão de médicos da Faculdade do Chile concluia que era crítico o estado de saúde da liderança indígena mapuche Francisca Linconao Huircapán, de 60 anos. A machi – como são conhecidas as autoridades ancestrais da etnia – estava em greve de fome desde 23 de dezembro, em protesto contra a perseguição que vem sofrendo pelo Estado chileno.
Linconao está há mais de nove meses presa aguardando julgamento, com base na legislação "antiterrorista" do país. Ela é acusada de participação nas mortes do latifundiário suíço Werner Luchsinger e de sua esposa, Vivian McKay. O casal, de uma família com um longo histórico de grilagem de terras mapuche na região de Araucânia, morreu em um incêndio durante uma mobilização indígena em janeiro de 2013.
Na madrugada do último dia 30 de março, dez comuneiros mapuche – dentre eles Francisca – foram detidos e processados por conta do incidente. A única prova utilizada para incriminá-los foi o testemunho de José Petralino Huinca, que também é acusado. O próprio Huinca declarou posteriormente ao judiciário que só culpou os indígenas porque foi obrigado pela polícia, mediante tortura.
A anciã decidiu iniciar a greve de fome após a revogação de quatro decisões consecutivas que lhe concediam o direito de esperar para ser julgada em prisão domiciliar. Nas quatro revogações, foi determinante a atuação do juiz Luiz Troncoso. O mesmo magistrado - que qualificou Linconao como "um perigo para a segurança da sociedade" – tem julgados beneficiando um torturador da era Pinochet, um miliciano de extrema-direita e um agricultor que assassinou um mapuche.
Após forte pressão de movimentos sociais, dentro e fora do Chile, no dia 6 de janeiro, a sacerdotisa finalmente foi liberada para retornar à sua rewe (espaço sagrado na cultura mapuche). No entanto, o processo contra ela e os demais indígenas acusados continua. Sua defesa acusa o ministério público de estar retardando as audiências por não possuir provas. E enquanto isso os réus seguem privados de uma série de liberdade.
Para a machi, o real motivo dos ataques que vem sofrendo das autoridades chilenas é a sua militância pela preservação ambiental do território mapuche. No ano de 2008, Linconao venceu em um litígio judicial a empresa Fundo Palermo, empresa que desmatava ilegalmente árvores e arbustos nos arredores de Rahue.
"A eles doeu quando ganhei na Suprema [Corte] esse julgamento para proteger os lawen [remédios naturais] do huincul [colina]. Por isso, estão todos contra mim" afirma.
| 03.01.2017
* atualizado