28/11/2017
AOS ECOS QUE VIRÃO: Nota de Encantamento do Movimento Zoada
Se é orgânico, nasce e morre. E, por mais que seja doído ou penoso, em algum momento volta-se à terra. Esse ciclo infinito de flor, passarinho, e de todas as coisas vivas é certo: não há tempestade que dure para sempre do mesmo jeito. Foi nessa certeza que Gil cantou que tem que morrer pra germinar e Guimarães Rosa, por sua vez, traduziu a mística do fim, negou a morte - bradava o encantamento. E se o Zoada ressoou, não sendo possível negar a primavera que cresceu nos ares, estamos convictas/os de que a esperança de uma nova primavera forma ecos. Pois a Zoada ecoa mesmo depois do fim. Voltando-se ao chão, nascerá da terra e caminhará em frente. O ecoar é mais estrondoso que a Zoada em si, pois o nosso eco não marcha só.
O nascedouro do Movimento Zoada foi uma imensa vontade de gritar com os pulmões cheios de vozes bravias contra a apatia que dominava o cenário da Faculdade de Direito do Recife e que mantinha vivo em suas paredes o pior dos medos: o medo de existir. Em 2011, o ainda muitas vezes hostil palácio onde f**a o curso de direito da UFPE conseguia ser ainda mais pálido. Foi quando surgimos: era necessária voz aos/as que sempre a hegemonia tentou silenciar naquele espaço; era necessário não aceitar o papel a nós imposto e construído como natural; não aceitar a pobreza como natural; não aceitar as opressões como naturais; nem mesmo – e sobretudo - as nossas ideias como naturais. Foi assim que um convite à ousadia foi feito à Faculdade, tendo firmado, em seus termos mais básicos, o compromisso de abrir caminho para as/os que virão e de tornar possível a permanência daqueles/as que lá estão.
Tudo isso foi necessário ao perceber que na “democracia” representativa o único poder que emana do povo é o de permanecer subordinado às circunstâncias que o sufocam. Para respirar, para desestabilizar a ordem que nos desorganiza e o sistema que nos desumaniza, é fundamental nos posicionamos contra todas as estruturas hierárquicas capazes de nos paralisar. Estabelecendo a luta política a partir da construção de práticas participativas baseadas na horizontalidade, no diálogo e no respeito ao diferente. E nesta experiência de sonhar e, ao mesmo tempo, por em prática nossos devaneios mais lúcidos foi que nos tornamos todas/s (de uma vez por todas) inconformadas/os.
Foram seis (6) anos de existência e infindáveis conquistas que, na medida de suas limitações, fissuravam pedaços de uma estrutura muito maior. Com as três vitórias que a horizontalidade teve na eleição do DADSF (2012, 2015 e 2016), diversos avanços saltaram aos olhos e transformaram o cenário de apatia da classe estudantil em um fértil ambiente com várias reuniões e debates abertos, participativos e verdadeiramente democráticos – em que todos/as tinham igual poder de decisão. Mais do que isso, vimos que a participação tornou-se tema necessário nas eleições do nosso Diretório, mesmo que muitas vezes ainda apareça como mera tentativa de legitimar a hierarquia, infelizmente, persistente.
Para nós, lutar por uma Universidade Popular sempre foi uma missão que passou pelo empenho diário em tornar a FDR um espaço, ao menos, um pouco mais democrático. Entre muitos outros avanços, conquistamos o Labin aberto à tarde; mais de 3 mil livros novos para nossa biblioteca adquiridos inteiramente com a autonomia que o financiamento através de recursos públicos permite; a efetivação das cotas para negras/os nos concursos de estágio do MPPE; participação ativa no longo processo de mudança da grade curricular do curso; a realização da I Semana da Mulher Latino-caribenha e da I Semana de Consciência Negra; armários para os estudantes que andam de ônibus; a manutenção do auxílio alimentação para bolsistas; o I Curso de Direito Agrário, a articulação contra as desapropriações da Copa do Mundo, a reforma nos banheiros com a instalação de chuveiro no banheiro feminino, a reforma no espaço de convivência com ar-condicionado, micro-ondas e talheres; o incentivo a ocupação dos espaços público com a Retomada das atividades na praça, a criação de um curso de libras na FDR também o posicionamento contra o golpe do ano de 2016 tirado em reunião do DADSF com mais de cem estudantes presentes.
Ademais, sempre nos propomos a ir além dos muros da Universidade, de modo que nunca nos limitamos às nossas atividades à Faculdade, sendo isso posto em prática de diversas formas com a constante atuação junto aos movimentos sociais. Foi assim que construímos a resistência junto com a comunidade de Passarinho contra os desmandos do Judiciário, ajudamos a construir as primeiras Marchas das Vadias, o bloco de esquerda anticapitalista na Parada LGBT de Pernambuco, a ocupação do Cais José Estelita, a resistência contra o golpe de 2016, as intervenções em praças públicas contra a redução da maioridade penal, a participação no Encontro de Coletivos Universitários Negros e no Encontro de Diversidade Sexual e Gênero, a constante atuação contra o aumento das passagens de ônibus, ocupação da Câmara dos Vereadores em solidariedade a comunidade da Vila Bom Jesus, participação na cúpula dos povos na última Rio+20, composição da Coordenação Nacional da Federação Nacional de Estudantes de Direito, Construção do ENED Paraíba em 2012, participamos da construção coletiva de diversas Paradas no Dia Internacional da Mulher em Recife, dentre inúmeras ações. Esse processo nos ajudou a trazer o Diretório Acadêmico Demócrito de Sousa Filho de volta ao cenário das lutas da esquerda na cidade.
E não só: temos a certeza que nosso principal legado é as mentes e corações tocados que logo estarão (ou já estão) ocupando o Poder Judiciário, hoje, mais atentos/as a um produzir jurídico conectado com a realidade das ruas e ciente do papel histórico do direito como mantenedor das desigualdades. Tais mentes e corações é a Zoada que ecoa. E por compreender extremamente a importância deste legado que continuaremos nos encontrando nas trincheiras da luta, agora não mais sob o nome ‘Zoada’, mas levando dentro de nós tudo o barulho produzido nesse espaço, bem como os laços de companheirismo tecidos quase sempre há muitos braços.
Tambor de todos os ritmos, em algumas religiões o Tempo é considerado divindade, cujos propósitos e lições sugestionam grandes ensinamentos. Mais do que compartimentos entre passado, presente e futuro, o fluxo do tempo vai aos poucos - tempo-rio -, tecendo desafios e percursos e serem encarados. A decisão aqui tomada se torna, assim, não uma tarefa da vida, mas uma decisão do tempo presente, tida e tomada a partir das conjunturas que vivemos hoje: marcada por golpes e pelo desmantelo total da farsa democrática.
A apatia que impregna a sociedade em um contexto de aprofundamento do neoliberalismo, se desdobra no crescimento da construção de identidades individualistas e menos coletivistas, fenômeno que impacta na organização dos movimentos sociais, assim como a precarização das condições de vida das/os sujeitas/os exploradas/os. Ambas são táticas do próprio sistema capitalista neoliberal para a tentativa de dificultar a organização da luta, realidade vivenciada, atualmente, por diversos movimentos sociais situados no espectro da esquerda. Diante disso, é necessário refletir sobre novas possibilidades organizativas e táticas de rupturas e de resistência.
Foi preciso ousadia para compreender que a ligação a 'um nome' ou o apego a um instrumento não poderia corroborar para dificultar o surgimento de novas ideias e projetos. Encerrar (ou encantar-se, como gostamos) só é decisão possível para quem não teme o germinar do novo, do feio e do estranho e compreende a dinâmica da vida-morte-vida. Onde pulsa vida sempre há algo que nos obriga a caminhar, principalmente em tempos difíceis.
Como dito, essa caminhada nunca se fez só: Há braços que se estenderam e se acolheram. Por isso, a nossa gratidão se expande por cada braço, para cada uma/um que colocou as mãos nessa andada. Somos gratas/os a todas/os que, conosco, se incomodaram, espernearam, gritaram e revolucionaram a existência desse castelo. A todas para quem lutar sempre foi reflexo visceral de sobrevivência. Agradecemos também a todos os coletivos, movimentos sociais e estudantis que criamos laços durante a militância. Agradecemos também às professoras/es e às/aos técnicos/as da UFPE. Por todas as construções coletivas onde aprendemos, crescemos e formamos uma teia de resistência.
A luta que há no Movimento Zoada continua ecoando dentro de nós, assim como em cada mente e coração que foi tocado e transformado pelo projeto de ousadia, sonho e luta por uma Universidade Popular. Desejamos que a Faculdade de Direito seja cada vez mais a casa de várias outras Robeyoncés, de várias pretas, de várias bichas afeminadas, de mulheres cis e trans empoderadas e diveras, de estudantes periféricas/os, indígenas, gordas/os, e que todas essas potências se encontrem e se organizem, que não façam zoada sozinhas, mas que caminhem juntas, derrubando portas, construindo mundos novos, conquistando outras mentes e corações, que o sistema seja subvertido! Desejamos também que mais formas de hierarquias continuem a ruir e que nunca a FDR volte ao marasmo político que aqui existia antes da primavera de várias coletivas que por aqui floresceram, que sempre a sensibilidade a respeito de um mundo que precisa mudar continue sendo cativada. Desejamos que sempre haja nesses jardins e salas de aula a radicalização dos discursos e das práticas de esquerda, pois apenas indo até a raiz dos problemas, poderemos de fato, encará-los face a face e enfrentá-los. Esperamos por fim, que todas/os nada temam, pois AQUI SE RESPIRA LUTA!
Sabemos, por fim, que dos nossos sonhos e das nossas lutas um mundo novo surgirá, e que mais importante que vê-lo, é ter a certeza que ele irá despontar, do longo e doloroso nascimento da História, de tudo o que colocamos nesse processo: vida, corpo e alma! Por tudo isso, carregamos a certeza que NADA SERÁ COMO ANTES!