16/12/2024
BREVE HISTÓRIA DO AÇUDE
O Açude do Prata foi criado para ser a fonte de captação do primeiro Sistema de Abastecimento de Água do Recife. Este foi entregue à população em 1848, pela Companhia Beberibe. Hoje, o Estado conta com um sistema complexo de captação e distribuição de água, gerenciado pela Compesa, na qual o açude faz parte.
“Os mananciais de Dois Irmãos tem um valor histórico para o Recife. Eles estão a quase dois séculos fornecendo água para a cidade. Isso é possível porque essas fontes estão protegidas pela mata que as cerca. A conservação da mata faz com que essas fontes permaneçam em atividade há tantos anos”, destaca o gerente de negócios metropolitano leste da Compesa, Aprígio Cunha.
No projeto inicial, o Prata alimentava 12 chafarizes distribuídos pelo centro do Recife. Ele era capaz de fornecer 20 mil baldes de água diariamente, suficiente para atender à demanda da época. Porém, com o rápido crescimento urbano, foi preciso expandir o serviço de abastecimento.
Nesta nova etapa, oito poços Amazonas, também conhecido como cacimbão, foram criados em Dois Irmãos. Estes reservatórios possuem até dez metros de profundidade, com brechas para que a água seja armazenada.
O projeto contemplava um sistema de elevação para transportar água para um reservatório localizado no Chapéu do Sol, também localizado em Dois Irmãos. Atualmente, este reservatório está desativado, contudo os poços filtrantes ainda estão em funcionamento.
“Quando falamos do Prata, é importante lembrar da sua relação com a mata. As árvores auxiliam na drenagem das águas das chuvas, filtrando-as e ajudam a estabilizar o solo, protegendo os açudes contra assoreamento. Manter a floresta de pé é importante para que o açude continue fornecendo água de qualidade a população”, explica a gerente geral do parque, Marina Falcão.
De acordo com o Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN), a água do Prata apresenta uma excelente qualidade. Ela passa apenas por um processo obrigatório de cloração determinado pelo Ministério da Saúde. Nele, cada litro de água que sai do reservatório para as residências deve conter três mililitros de cloro.
As fontes do Prata e outros dez poços artesanais da Guabiraba, compõem a gerência de abastecimento leste da Compesa. Juntos eles fornecem água para os bairros de Nova Descoberta, Brejo de Beberibe, Córrego do Jenipapo, Guabiraba e Alto do Mandu.
Cercado por um grande fragmento de mata, dentro de uma Unidade de Conservação, o Açude do Prata é uma fonte hídrica segura. Sua longevidade comprova que o cuidado com os ecossistemas locais são capazes de gerar benefícios para toda sociedade que se perpetuam ao longo das gerações.
O Prata, longe, entre bosques
À luz do sol se encobria
E suas sombras suspirando
Selvagem, dúbio corria.
Cívico esforço o destorce
E ei-lo loução se desliza,
Saúda o Prata a cidade
Grato à mão que o civiliza.
(Inscrição em um chafariz instalado, no século XIX, onde f**a atualmente a Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista).
Os açudes do Meio e do Prata compõem a bacia do Prata e f**am localizados na Reserva Ecológica de Dois Irmãos, um dos remanescentes da Mata Atlântica, na região metropolitana do Recife. Foram construídos na primeira metade do século XIX, tendo conservado até hoje algumas características originais, principalmente a qualidade da água, considerada adequada para o abastecimento público. Por causa disso, o açude do Prata foi o primeiro manancial escolhido para o abastecimento d’água da cidade.
A bacia hidráulica do açude do Meio possui aproximadamente 24.000 m2, com um volume aproximado de 53.515m3 e uma profundidade média de 2,10 m, e a do Prata, em torno de 18.550m2, com um volume de cerca de 43.267m3 durante o inverno e 28.658m3 no verão, e com uma profundidade que varia entre 0,15 e 4,40 metros. A água é proveniente de poços artesianos, águas subterrâneas, chuva e percolação a partir das encostas.
Em 1838, a recém criada Companhia do Beberibe foi contratada para implantar um sistema de abastecimento d’água potável, por meio de chafarizes, cuja captação poderia ser feita no Prata, no açude de Apipucos, no açude do Monteiro ou no rio Beberibe. Em 1941, o projeto dos engenheiros Conrado Jacob Niemeyer e Pedro de Alcântara Bellegarde definiu o açude do Prata como o manancial a ser utilizado para captação, por causa da qualidade da sua água, garantida pela localização da sua fonte, que f**a protegida pela vegetação da Mata de Dois Irmãos.
A Companhia adquiriu as terras do Engenho Dois Irmãos, por causa da preocupação com a preservação das matas que protegiam as nascentes do Prata. Atualmente a área é de propriedade da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que na tentativa de retardar a extinção dos mananciais, já fez uma limpeza nos açudes, retirando o excesso de vegetação subaquática e das suas margens.
A denominação do açude, segundo o historiador pernambucano Pereira da Costa, tem origem em uma lenda sobre Branca Dias, uma rica senhora de engenho, que no final do século XVI foi denunciada ao Tribunal do Santo Ofício, na época da Inquisição, por ter praticado crime de judaísmo. Ao receber ordem de prisão, jogou toda a sua baixela de prata na água, daí o nome como ficou conhecido o açude. Branca Dias foi depois queimada na fogueira em Portugal.
Nas proximidades do açude há outro patrimônio histórico da área, o Chalé do Prata, um sobrado com uma arquitetura de influência inglesa, com dois pavimentos, dois pequenos terraços laterais, sustentado por pilastras e um piso de madeira que precisa, urgentemente, de restauração, assim como toda a casa. Teria sido a residência de Branca Dias. À direita da casa f**a o açude do Prata e na frente o açude do Meio.
Integrado à paisagem natural, o chalé f**a num dos locais mais bucólicos da cidade, hoje visitado por grupos de ciclistas e aficionados de caminhadas e trilhas. Por ser área de preservação ambiental, o acesso ao Vale do Prata sempre foi e continua restrito.
Outra lenda histórica do local é conhecida como buraco do holandês, referente a existência de uma passagem secreta, utilizada pelos batavos no século XVII.
Há ainda lendas sobre desaparecimentos ocorridos no açude, sendo a mais conhecida a de uma moça que foi com sua mucama, no período das festas juninas, pedir às águas do Prata que lhe enviassem um marido. Ao debruçar-se sobre o açude desapareceu. Quando a mucama correu não mais encontrou sua sinhazinha que teria sido levada pelo fantasma de Branca Dias. Muitos falam que nas noites de lua cheia, até hoje, podem ser vistas duas mulheres nuas no meio do açude. Uma seria Branca Dias e a outra a sinhazinha que sumiu na noite de São João.
As águas dos açudes da bacia do Prata não apresentam poluição, possuem boa oxigenação e elevada acidez, tendo uma composição microbiota diversif**ada tanto do ponto de vista da flora como da fauna. É um dos poucos ecossistemas da região metropolitana do Recife onde as condições ambientais permanecem em seu estado natural.
Até a primeira década do século XX, o abastecimento d’água do Recife era feito apenas com a utilização dos mananciais da bacia do Prata e, até hoje, uma grande parte da população residente nos morros da zona norte da cidade ainda é abastecida por eles.
Recife, 22 de junho de 2010.