Projeto Biblioteca Ativa - Etec Dr Luiz César Couto - Quatá

Projeto Biblioteca Ativa - Etec Dr Luiz César Couto - Quatá Disponibilizar à Comunidade Escolar meios para que possa desenvolver competências e habilidades relacionadas aos atos de falar, escutar, ler e escrever.

24/06/2023

Já não há domingos

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
…esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

CORA CORALINA, QUEM É VOCÊ?Sou mulher como outra qualquer.Venho do século passadoe trago comigo todas as idades.Nasci nu...
29/04/2023

CORA CORALINA, QUEM É VOCÊ?

Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.

Nasci numa rebaixa de serra
Entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.

Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.

Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro
da imensa serrania
que se azulava na distância
longínqua.

Numa ânsia de vida eu abria
O vôo nas asas impossíveis
do sonho.

Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia
caída e a república
que se instalava.

Todo o ranço do passado era presente.
A brutalidade, a incompreensão,
a ignorância, o carrancismo.

Os castigos corporais.
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
aplicavam castigos humilhantes.

Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.

Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
Para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.

Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.

Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contra-marcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.

Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.

A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
que outras o destino não me deu.

Foi assim que cheguei a este livro
Sem referências a mencionar.

Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.

Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.

Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
Minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.

Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes.

Quem sentirá a Vida
destas páginas...
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.

Cora Coralina🖊️
📷 Pinterest Cora Coralina

17/03/2023

Brindemos pelas loucas,
pelas desajustadas,
pelas rebeldes e arruaceiras,
pelas que não se encaixam,
pelas que vêm as coisas de um modo diferente,
pelas que não gostam de regras e não respeitam o status quo.
Podem denunciá-las, não estar de acordo,
glorificá-las ou vilipendiá-las,
mas o que não podem fazer é ignorá-las.
Porque elas mudam as coisas,
empurram para frente a condição humana.
Enquanto alguns as vêem como loucas,
Nós vemos o gênio delas,
porque as mulheres que se acreditam tão loucas
como para pensar que podem mudar o mundo são as que o fazem.

Rob Siltanen

-me

12/03/2023

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

Caio Fernando Abreu , Carta ao Zézim.

"Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão estar a olhar para uma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssi...
11/02/2023

"Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão estar a olhar para uma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maça na cabeça do Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar Matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça... podia estar a dormir debaixo da árvore, ou ter acordado naquele momento, ou qualquer coisa assim, eu sei lá! Quem me diz que a um homem, cujo ideal é estar de papo para o ar olhando para as nuvens, de repente não se lhe atravessa na cabeça uma ideia? [...] É que há pessoas que julgam que fabricam as ideias com a cabeça. É possível, ninguém sabe, ninguém tem um argumento contrário, e argumento a favor também não há [...] Podemos ter as cabeças apenas como uma espécie de máquinas transformadoras de ondas misteriosas que vêm de qualquer parte com a ideia; e qualquer sujeito que já fez versos, ou fez Matemática, ou qualquer coisa assim, sabe perfeitamente que de vez em quando a cabeça é atravessada por um verso. [...]
Porque é que existiu a Atenas do século V, de que tanta gente fala? É o Pericles, é o Sócrates, é o Esdros, é este, é aquele e aqueloutro... por quê? Porque aqueles cavalheiros não faziam nada todo o santo dia! Nada, todo o santo dia!"

- Agostinho da Silva, IR À ÍNDIA SEM ABANDONAR PORTUGAL (Uma conversa de Gil de Carvalho e Manuel Hermínio Monteiro com Agostinho da Silva, 1987), IR À ÍNDIA SEM ABANDONAR PORTUGAL, CONSIDERAÇÕES E OUTROS TEXTOS, Assírio & Alvim, 1994, pp. 16 - 18.

08/02/2023

"Me acostumei
A ocupar toda a cama a dormir,
A não cozinhar aos domingos
E a voltar na hora que me der na telha.

Me acostumei
A não dar explicações e
a fazer o que eu gosto, sem
que ninguém me critique.

Me acostumei
A comer no meio da noite,
a ver os meus programas favoritos,
a cantar em voz alta
E a dançar por toda a casa.

Me acostumei a
responder a mensagens muito tarde,
A sair com amigos
e a divertir-me com eles.

Me acostumei
Ao cheiro do café de manhã.
a andar descalça pelo jardim,
A demorar quando me quero arranjar
E a cancelar encontros no último momento,
Só porque sim.

Me acostumei
A mim,
Às minhas coisas,
À minha vida,
A ficar sozinha...

Aprendi que isso não é solidão,
isso é só ser feliz comigo mesma.
E é simplesmente maravilhoso."

🖊️🖊️(Arnaldo Jabor)

03/02/2023

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Cora Coralina

28/01/2023

Um menino de cerca de cinco anos que perdeu a mãe entre a multidão de uma feira, aproxima-se de um agente da polícia e pergunta:
Você não viu uma senhora sem uma criança
como eu?

Os cinco contos curtos mais belos do mundo, por GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ.

23/01/2023

“Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti. Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras. Aproveita. Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias, uma agitação insofrida de projectos, resoluções, descobertas. Depois a convulsão abranda e começas a viver das ideias amealhadas. (…) Aproveita o teu corpo enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás”

Vergílio Ferreira, in 𝘗𝘦𝘯𝘴𝘢𝘳
Imagem de Nino Chakvetadze (Geórgia, 1971- )

22/01/2023

A menina que queria ser maçã

Quando perguntaram a Joaninha o que é que ela queria ser quando fosse grande (há sempre um dia em que um adulto nos faz essa pergunta), ela não hesitou:
- Quando for grande quero ser maçã!
Disse aquilo com tanta convicção que a mãe se assustou:
- Maçã?
A maior parte das crianças quer ser:
a) astronauta
b) médica/o
c) corredor de automóveis
d) futebolista
e) cantor/a
f) presidente.
Há algumas respostas mais originais:
"Quero ser solteiro", confessou o filho de uma amiga minha. Conheço uma menininha que foi ainda mais ambiciosa:
- Quando for grande quero ser feliz.
Mas maçã? Joaninha, meu amor, maçã porquê?
A pequena encolheu os ombros: "São tão lindas".
Passaram-se os anos e a mãe pensou que ela se tinha esquecido daquilo. Mas não. No dia em que entrou para a escola a professora fez a todos os meninos a mesma pergunta:
- Ora então vamos lá a saber o que é que vocês querem ser quando forem grandes...Astronauta. Piloto de Fórmula 1. Cantora. Futebolista. Barbie (há muitas meninas que querem ser a Barbie). Médica. Modelo. Atriz. E tu, Joaninha?
- Eu quero ser maçã!
Risos. Os outros meninos começaram a fazer troça dela:
- Maçã raineta! Maçã raineta!...
- Se a Joaninha pode ser uma maçã, senhora professora, eu quero ser um avião...
Ela nem fazia caso. Quando crescesse havia de ser uma maçã, sim, uma maçã verde, luminosa, tão perfumada como uma manhã de primavera.
Poucas vezes, porém, conseguimos cumprir os nossos sonhos. Joaninha transformou-se numa mulher bonita, estudou, e fez-se professora. Era uma boa professora. Só quem conseguisse olhar para dentro dela poderia saber que, bem lá no fundo do seu coração, Joaninha sentia ainda aquela grande vontade de se tornar maçã. O tempo passou - o tempo, aliás, está sempre a passar, nós é que nem sempre damos pela sua passagem. O tempo passou, portanto, e Joaninha envelheceu. Não casara, não tinha filhos, envelheceu sozinha. Foi numa tarde de outono. As árvores tinham perdido todas as folhas. O sol, cansado, com aquela cor macia que tem o mel, desaparecia no horizonte. Joaninha estava a dormir, sentada numa cadeira de baloiço, na cadeira de sua casa, quando apareceu um anjo e a levou. Ela não percebeu logo onde estava. Foi preciso que Deus lhe tocasse nos ombros com a ponta dos dedos:
- Acorda minha filha - disse-lhe Deus - já chegaste.
Joaninha abriu os olhos e viu o que antes via com os olhos fechados: os anjos passeando num grande jardim, os peixes flutuando no ar, juntamente com os pássaros, e aquele velho de barbas brancas, ao seu lado, sorrindo como só Deus sabe sorrir.
- Meu Deus - perguntou-lhe- porque não me deixaste ser maçã?
- Ser maçã é difícil, Joaninha - disse-lhe Deus. - É preciso crescer muito para se ser uma boa maçã. Tu cresceste. Agora sim, serás maçã.
Alguns anos depois um menino descobriu no pomar na casa dos seus avós uma maçã de um brilho intenso. Cheirou-a: cheirava a manhãs lavadas, cheirava a primavera, era um cheiro que se colava aos dedos. O menino comeu a maçã e sentiu-se feliz. Naquela tarde disse à avó:
- Sabes, sabes que quando for grande quero ser maçã!

José Eduardo Agualusa. In. Estranhões & Bizarrocos. Ilustração Olga Neves para o livro "0 pirilampo da Rita", de Maria da Graça de Rios Vilela

22/01/2023

- O que é que fazes?
- Sou cuidador de corações.
- Cuidador de corações?
- Sim.
- E o que é que faz um cuidador de corações?
- Quando os corações estão feridos ou magoados, precisam de alguém que os ouça. Eu ouço. Precisam de ternura. A ternura ajuda a cicatrizar as feridas. Quando os corações estão partidos, precisam de alguém que os ajude a apanhar os bocadinhos que caem no fundo da alma. Eu ajudo. Quando os corações estão pisados, precisam de alguém que lhes dê colo. Eu dou. Quando não conseguem adormecer, eu embalo-os e conto-lhes histórias. Conto histórias do que será. Os corações precisam de esperança… Quando os corações estão desanimados, eu abro o meu e mostro-lhes que há sempre uma razão pela qual um coração tem de bater.

Elisabete Bárbara, in lado.a.lado
Ilustr. Charles H. Geilfus (Alemanha, 1890-1956)

Às vezes me sinto velha!Então, me recordo, que a vida já me forçou a ser valente.— Já enfrentei temporais!— Ouvi raios e...
18/01/2023

Às vezes me sinto velha!
Então, me recordo, que a vida já me forçou a ser valente.
— Já enfrentei temporais!
— Ouvi raios e trovões, descendo um, outro e outros, formando enormes clarões.
— Guerreei dias e noites
— Enfrentei escuridões!
— Dei de cara com muralhas.
— Enfrentei!
— Não fugi das batalhas.
— Consegui sair adiante!
Hoje, me pego revivendo essas recordações!
•Num mar de ilusões
Elas insistem em se fazer presentes;
hora ou outra rondam a minha mente
Sempre me levam de volta aquele lugar.
— Pra não me deixar esquecer, sempre me recordar
— Que devo ter muito cuidado ao confiar.
(A vida ensina, a mim ela ensinou.)
Não pense que foi fácil!
•Agora sei…
Porque carrego marcas igual tatuagens, que por mais que esfregue, não apagará!

Rosely Meirelles
🌹
Art. (Delphin Enjolras)

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Quatá, SP
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