22/02/2026
A assinatura da "Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro" em Nova Délhi deveria não limitar-se a ser apenas mais um protocolo de intenções entre dois países do Sul Global. Deve representar um divisor de águas na forma como o Brasil enxerga seu lugar no mundo da tecnologia e, mais importante, como projeta seu futuro econômico e social. A declaração conjunta, fruto do encontro entre os líderes de duas democracias do Sul, acende um sinal verde para que o Brasil abandone definitivamente o papel de mero consumidor de inovação alheia e assuma o protagonismo na construção de um modelo próprio de desenvolvimento digital, consciente do poder e dos interesses geopolíticos que comandam as chamadas big techs.
É imperativo, portanto, que o país transforme essa visão em um projeto estratégico de Estado, buscando se tornar uma potência em Inteligência Artificial (IA) alicerçada no conceito de soberania digital.
O presidente Lula afirmou recentemente não desejar ser apenas o presidente do Bolsa Família. O momento em que se elabora o seu programa eleitoral oferece a oportunidade para que se reflita sobre as grandes linhas e projetos estruturantes que poderão projetar o país ao padrão de nação desenvolvida.
O cerne desse novo país está no reconhecimento de que as infraestruturas públicas digitais, a inteligência artificial e as tecnologias emergentes são os novos motores da transformação econômica, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável. Não se trata apenas de modernizar a máquina pública ou facilitar a vida do cidadão com pagamentos digitais, como já demonstram as experiências do Pix brasileiro. O salto qualitativo proposto pela parceria é a criação de um centro conjunto de excelência no Brasil e o lançamento de uma rede de inteligência comum, que integra transformação digital e ação climática. É a materialização da ideia de que a tecnologia, quando pensada como bem público e com governança compartilhada, pode ser a ferramenta mais poderosa para o enfrentamento de desafios planetários, da desigualdade à emergência climática, sem dependência de monopólios tecnológicos estrangeiros.