04/06/2026
A defesa da atenção psicossocial e do cuidado em liberdade exige de nós uma reflexão permanente sobre os rumos das políticas públicas e dos modos de produzir cuidado. Os avanços conquistados pela Reforma Psiquiátrica brasileira e pela luta antimanicomial não representam um processo concluído, mas uma construção cotidiana, atravessada por disputas de projetos societários, concepções de sujeito e formas de compreender o sofrimento humano.
Em tempos de recrudescimento do conservadorismo, observamos a reatualização de práticas que, embora muitas vezes revestidas por novos discursos institucionais, retomam antigas lógicas de segregação, tutela e controle. Os novos manicômios nem sempre se apresentam por meio de grades e muros; podem emergir na negação da autonomia, na fragilização dos vínculos comunitários, na medicalização excessiva da vida e na substituição do cuidado pela contenção.
Para nós agentes das políticas públicas e sociais, pensar o cuidado implica reconhecer os sujeitos em sua integralidade, historicidade e inserção social. Significa compreender que o sofrimento psíquico não pode ser dissociado das desigualdades, das violências, das rupturas de vínculos e das múltiplas expressões da questão social. Não há cuidado ético quando há silenciamento, isolamento ou apagamento das experiências humanas.
Defender a política antimanicomial é, portanto, defender uma ética do encontro. É sustentar a escuta onde há estigma, construir possibilidades onde há exclusão e afirmar que toda pessoa, independentemente de sua condição de sofrimento, possui o direito de viver, circular, conviver e produzir sua própria história em liberdade.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja não permitir que a institucionalização da vida volte a ocupar o lugar da solidariedade, da cidadania e do cuidado compartilhado. Afinal, uma sociedade se revela não pela forma como controla suas diferenças, mas pela maneira como acolhe suas vulnerabilidades.
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